"Crónica do Pequeno-Almoço Que Mudou Tudo"
Há pessoas que nos entram na vida como quem toca apenas à campainha, mas na verdade já têm a chave da porta. Ela apareceu no final de 2023, início de 2024, exatamente quando eu já estava cansada de ser forte. Chegou e lançou logo uma daquelas frases que deixam o mundo inteiro em silêncio:
Olhou-me nos olhos, como quem lê o que está para além das palavras, e disse:
“Eu sei que não fizeste nada. Estás inocente. Foste injustiçada.”
Quem é que diz isto assim, sem conhecer a alma que tem à frente?
Foi ali que baixei a guarda. Não toda — eu sou desconfiada por profissão — mas o suficiente para deixar entrar alguma luz. E desde esse dia, todos os dias acontece qualquer coisa. Mensagem de manhã, telefonema à tarde, confidências à noite. Ela fala até esvaziar o peito, eu escuto até encher o meu.
Hoje madrugou-me com um telefonema:
— “Em dez minutos estou aí para irmos comer.”
Pois vamos comer. Comer é um verbo que com ela ganha ritmo e duplo sentido.
Sentamo-nos no café e reparei logo em duas senhoras muito pudicas na mesa ao lado: postura direita, bíblia emocional no olhar. Ela viu-as também, e foi aí que o seu sorriso traquinas acendeu os trocadilhos como fósforos.
— “Então o teu marido ainda tem os três tomates ou já anda com o saco vazio?”
As senhoras quase entraram em êxtase gastronómico errado.
Eu percebi perfeitamente a intenção e servi o contra-ataque:
— “Tem, tem… e o teu ainda guarda o chouriço salgadito ou já cheira a história antiga?”
Ela, dona e senhora da marotice subtil:
— “Querida, eu gosto é deles bem curados! Mas tu já nem queres dar uma trinca ao teu?”
Veio o pequeno-almoço: eu café preto, ela sumo natural. Um cenário aparentemente inocente. E aí ela, com a lata e o brilho nos olhos de quem nasceu para me desmontar:
— “Gostas de chupar, querida?”
— “Depende do sabor… mas normalmente sim.”
E pedi uma palhinha, porque subtilidade também é arma.
As senhoras já não mastigavam — apenas testemunhavam.
Ela começa a mexer o sumo com a palhinha e comenta muito séria:
— “Olha que eu sou boa com as mãos.”
Eu respondo de imediato:
— “Eu prefiro quem é bom em tudo o que mexe.”
Ela ri, vence, e continua a provocação:
— “Está muito duro?”
— “Ainda precisa aquecer.”
O mundo ao redor suspenso entre a santidade e a pornografia poética.
— “Tens fome?” perguntou ela, com ar estudado.
— “De comida e de conversa.”
— “Conversar também alimenta… mas queima menos calorias.”
— “Depende do tema.”
As senhoras cruzaram as pernas. Eu quase que lhes ouvi a alma gritar.
Mas foi quando ela largou o trocadilho e falou verdade que o chão se mexeu:
— “Sabes porquê que estou aqui? Porque tu inspiras paz… e confusão da boa.”
E eu senti. Porque dela cativa-me tudo o que não se compra:
a sinceridade crua, o respeito que acolhe, a compreensão que nunca julga, a paciência que fica quando dói, a partilha genuína, a autenticidade que assusta e a honestidade que cura.
Até os defeitos me conquistam — porque nela os defeitos são verdade, são vida.
Mas o que mais me derruba é o olhar.
O olhar que me lê… e mesmo assim gosta do que vê.
E claro, a marotice não dorme:
— “Diz lá, gostas mais de meter ou de tirar?”
— “Depende do jogo.”
— “Eu gosto de jogos onde todos ganham.”
— “Então não jogues xadrez: as peças andam todas aos saltos… mas ninguém se toca.”
As senhoras ficaram sem Pai Nosso que as valesse.
Quando terminou o pequeno-almoço, ela lambeu os lábios para fechar a sessão:
— “Estás satisfeita?”
Eu sorri com vontade de ficar ali mais três vidas:
— “Com o teu olhar, fico sempre com vontade de repetir.”
Porque há quem viva de croissants sem sal…
Mas nós preferimos o enchido emocional completo.
Porque há quem fale para preencher silêncio…
Mas nós falamos para preencher vida.
Num simples pequeno-almoço, ela lembrou-me que o humor salva,
o coração insiste,
e que talvez…
existam encontros que não são coincidência — são destino a brincar connosco.
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