"Escolho-te Porque Sou Livre"
Há quem pense que ficar é hábito.
Que relacionamento longo é uma espécie de contrato vitalício
onde, depois de uma assinatura invisível,
o amor se mantém sozinho, automático, estático…
como se o tempo tivesse obrigação de o conservar.
Não tem.
O tempo pode ser cruel quando o deixamos trabalhar sozinho.
Mas eu estou aqui.
E escolho ficar.
Todos os dias.
Não por falta de opção, mas por abundância delas.
Sim, eu sou livre.
Livre a ponto de poder partir,
a ponto de poder recomeçar do zero se me der na gana.
Livre o suficiente para reconhecer que não fico por medo,
não fico por dependência,
não fico para cumprir expectativas sociais
ou para enfeitar estatísticas de durabilidade matrimonial.
Eu fico porque quero.
Porque tu vales o querer.
Gosto de quem se mantém firme,
mas não imóvel.
De quem cresce ao meu lado
e não à minha sombra.
Nunca gostei de homens que exigem que uma mulher se encolha
para que eles caibam no próprio ego.
Não é o caso.
Aqui, há espaço para mim —
nos meus sonhos, nas minhas inquietações, na minha força.
E — pasme-se — eu retribuo o mesmo.
Porque amor não é competição para ver quem manda mais,
nem teatro para ver quem finge melhor.
O amor que escolho —
o amor que nós estamos a construir —
não depende de vigilância.
Depende de verdade.
Não há coleira no pescoço,
nem password no telemóvel como prova de fidelidade.
A nossa maior prova é a paz.
A tranquilidade absurda de saber
que, se um de nós sair,
não é porque o outro falhou —
é porque já não haveria razão para ficar.
E nós fazemos questão de manter as razões vivas.
Se um dia me virem a sorrir do nada,
não perguntem porquê.
Provavelmente lembrei-me de ti —
do teu jeito próprio de me conduzir firme,
sem tentar comandar.
Ou talvez seja só do modo como rimos juntos
até das nossas neuras.
(E olha que às vezes são dignas de estudo académico.)
Escolho-te porque somos dois inteiros
que se complementam
sem se devorar.
Porque somos adultos o suficiente para discordar
e inteligentes o suficiente para não dramatizar.
Porque a tua mão na minha
não me prende —
orienta-me.
Porque o teu abraço não me cerca —
acolhe-me.
Eu escolho-te com lucidez,
com orgulho,
com intenção,
com desejo.
E, sobretudo, com liberdade.
A liberdade mais bonita que existe:
a de ficar e continuar a amar —
quando partir seria mais fácil.
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