"O Amor como Obra de Arte"
Há quem pense que o amor é um acontecimento.
Nós descobrimos que o amor, quando verdadeiro, é uma construção.
Uma obra em andamento, sem data final de entrega.
Porque criar algo grandioso demora tempo.
Demanda paciência, habilidade e a coragem de voltar atrás
quando um detalhe não ficou como poderia ser.
Nós fomos artesãos do nosso destino:
lápis na mão, tinta no coração,
falhando, corrigindo, reinventando.
E é precisamente isso que transforma um amor comum
numa peça digna de admiração.
O amor começa como esboço:
um risco leve, uma expectativa tímida,
um desenho que ninguém garante que vá resultar.
Mas quando há entrega — e nós tivemos entrega —
o esboço ganha forma.
A forma ganha vida.
E a vida ganha cor.
(…)
Tu foste a minha cor preferida
quando tudo parecia cinzento.
Tu foste a harmonia num tempo de ruídos.
O pormenor que dá sentido ao todo.
A precisão do gesto que impede a queda.
O amor não se pinta sem sombras.
E nós tivemos as nossas.
Mas as sombras servem para revelar luz.
E a nossa luz nunca se apagou.
Nem quando tremia.
A paixão é a primeira pincelada:
rápida, intensa, desalinhada.
O companheirismo é a mão firme que vem depois:
aperfeiçoa, sustenta, dá profundidade.
E então… então chega a fase mais rara:
aquela em que já não precisamos de provar nada a ninguém
e ainda assim queremos continuar a criar o belo juntos.
É a fase em que o beijo não é hábito —
é celebração.
O abraço não é rotina —
é porto seguro.
E o corpo não é obrigação —
é encontro.
O amor amadurecido não é menos ardente.
É chama com consciência.
É fogo que sabe o valor do que aquece.
Quando te olho, 30 anos depois,
não vejo o passado —
vejo o agora inteiro
e o futuro a sorrir-nos.
Tu continuas a ser o toque que me desperta,
a voz que me acalma,
o desejo que me pertence
mesmo quando estou longe.
O teu riso ainda mexe comigo.
O teu cheiro ainda me chama.
A tua presença ainda me desarma.
Somos obra de arte porque nunca deixámos de nos pintar.
Porque nunca deixámos de nos escolher.
Porque nunca desistimos de ser belo um para o outro.
O amor perfeito não existe.
Mas o amor que se trabalha todos os dias,
o amor que se desafia, que se supera, que se entrega —
esse sim é eterno.
E o que nós temos é exactamente isso:
uma eternidade feita de agora em agora,
um quadro vivo que continua a crescer,
e que eu, com todo o orgulho que existe em mim,
assino em letras grandes:
Nós.
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