"Vai dormir..."
Quando a Política Perde para o Sono
A conversa começou inocente. Política, claro. O prato favorito dos debates familiares — sempre servido a ferver, sempre com risco de azedume. Eu achava que ia ser um diálogo pacífico, uma troca de ideias, um exercício saudável de cidadania… mas esqueci-me de um pequeno detalhe:
A minha filha mais velha não debate.
Ela defende território.
Se ela acha que tem razão, preparem munições, lanche, e talvez um saco-cama. Porque não se recua, não se respira, não se cede um milímetro. Argumenta como se o destino do planeta dependesse disso. E eu ali, a tentar fazer-me entender, como quem tenta convencer o mar a não ter ondas.
A certa altura percebi que ela não estava a ouvir para compreender.
Estava a ouvir para responder.
(quem nunca conhece um exemplar assim que atire a primeira almofada)
Foi então que eu saquei da arma secreta que utilizo sempre que estou prestes a magoar alguém que gosto com uma verdade demasiado bem apontada:
— Vai dormir que já é tarde. Vai dormir, que é melhor.
Resultado?
Risos imediatos.
O pai dela a abanar a cabeça, a divertir-se com a cena.
E o meu caçula, sempre perspicaz, já a diagnosticar o clima:
— É melhor, mãe. Já estás a ficar irritada.
Juro que me senti exposta.
Apanhada no flagra das minhas emoções em ebulição.
Mas lá sorri. Porque às vezes, um sorriso é a diplomacia possível — e o sono é o melhor acordo político doméstico.
A verdade?
A conversa já ia longa. O dia já ia cansado. E a minha paciência… essa já tinha ido mais cedo para a cama.
Portanto, declaro encerrada a sessão parlamentar do sofá.
Aprovado por maioria silenciosa (e bocejante).
Vou dormir —
que já passou há muito o horário permitido para mães que tentam ensinar democracia dentro de casa.
E amanhã?
Amanhã voltamos ao debate.
Com menos sono.
E, talvez, com algum consenso…
…se ninguém tocar no assunto.
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