"A carta que não precisas admitir que leste"

Hoje escrevo para ti.

Sim, para ti — mesmo que continues a garantir, com esse ar distraído e esse sorriso de quem finge não saber de nada, que não lês o que escrevo. Mas lês. Disseram hoje, mesmo sem eu perguntar.
Lês, relês, voltas atrás, sublinhas com o olhar, tentas decifrar intenções, encaixar-te nas entrelinhas, procurar o que nunca foi escondido, o que nunca fiz.
E talvez seja isso que te intriga — o facto de eu escrever com clareza, com alma, com coragem. O facto de não precisar de te apontar o dedo para que te sintas tocada.

Eu sei que lês.
E sei também que há uma parte tua que gostaria de admitir, mas a outra — a que precisa de parecer indiferente — recusa-se a fazê-lo.
Finges distração, mas és leitora atenta. Finges distância, mas há sempre algo que te traz de volta.
Talvez seja o incómodo. Talvez seja a saudade. Ou talvez apenas o reflexo — aquele que não queres encarar, mas que ainda assim te segue.

E deixa-me dizer-te: se escrevi textos onde tu entras, é porque fizeste parte da história.
Não posso negar o que vivi, nem devo apagar o que senti.
Se não gostaste do espelho, lamento — mas a imagem não foi inventada, apenas refletida.
As palavras são fiéis ao que foi, e por mais que tentes reescrever o passado, a memória tem uma voz que não se cala.

Não te escrevo para ferir, nem para provar nada.
Escrevo porque é o que faço desde sempre — escrever é o meu modo de compreender, de arrumar dentro o que o mundo desarruma fora.
É a minha forma de terapia, a minha disciplina espiritual, o meu diálogo com o invisível.
Enquanto tu procuras provas, eu procuro paz.
Enquanto tentas decifrar-me, eu apenas me encontro.

E acredita: não é uma confissão, é libertação.
Não é dor, é transformação.
Não é provocação, é cura.

Tenho uma vida cheia — casa, filhos, trabalho, amigos, fé, deveres, voluntariado, cansaços, gargalhadas e horas roubadas ao sono.
Tenho um coração que já se partiu e se refez, mais de uma vez.
E escrevo porque é a única maneira que conheço de não endurecer.
Porque escrever é a forma mais silenciosa de orar, a mais doce de resistir.

Os textos que escrevo não são dedicados a ti — são sobre o que a vida me faz sentir.
São sobre a alma humana, sobre as dores que nos moldam, as alegrias que nos salvam, e as pessoas que, de um modo ou de outro, deixam marca.
Tu foste uma dessas pessoas.
E se por momentos te reconheces, é porque, em algum ponto do caminho, nos espelhámos uma na outra.

Eu vi-te.
Vi a tua força, mas também o teu medo.
Vi a tua arrogância, mas também a tua fragilidade.
Vi a mulher que esconde por detrás do sarcasmo uma vontade imensa de ser amada.
E talvez seja isso que te dói — o facto de eu ter visto quem tu eras, mesmo quando tu ainda não o vias.

Hoje, ao escrever-te, não quero que sintas culpa nem vergonha.
Quero que sintas paz.
Que encontres, nestas linhas, o que talvez ainda te falte — não uma justificação, mas um espelho que devolve o que há de melhor em ti.
Espero que, em vez de procurar provas, encontres esperança.
Que, em vez de colecionar feridas, encontres cura.
Que, em vez de te perderes na dor, descubras meditação.
E que, ao olhares-te ao espelho, consigas finalmente ver aquilo que eu vi um dia — uma mulher inteira, mesmo com as falhas, mesmo com as quedas, mesmo com o orgulho.

Não te escrevo por vaidade, nem por saudade.
Escrevo porque o silêncio já não me basta.
Porque há palavras que, quando não ditas, adoecem a alma.
E porque acredito que, mesmo as cartas que não são lidas, têm o poder de curar.

Por isso, lê — mesmo que digas que não leste.
Sente — mesmo que tentes disfarçar.
E, se nada mais, leva contigo esta verdade simples:
as palavras que vêm da alma nunca acusam, apenas revelam.

Que este texto te encontre em paz.
E se ainda não estiveres, que ele te conduza até lá.

Com serenidade,
com verdade,
com tudo o que ainda não sabes dizer —
eu.



“Nem tudo o que escrevo é sobre alguém. Às vezes é apenas o eco de tudo o que já fui.”

Tecehistorias ( Marisa)

Comentários

  1. Um texto cativante. Eu todos os dias entro neste espaço, sigo o que com tanta humildade pública. Por vezes identifico-me com certos textos. Quando li este esbocei um sorriso e decidi seguir, não escondido, mas assumido. Continue a fazer o que faz de uma forma admirável. Descrever vidas e sentimentos que são de todos. Obrigado colocar os comentários disponíveis. Obrigado pelo que partilha.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Vítor. Eu agradeço imenso as suas palavras. Este espaço é meu, é nosso.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

"Texto"