"De Deus ao Tarot: Como o Desespero Humano Sustenta Negócios e Gera Lucros Sagrados"

 A ironia da existência humana é que os nossos maiores medos e dores, aqueles que nos consomem no silêncio, são também o motor de lucro de várias indústrias. Desde a morte, esse espetáculo inevitável e tão universal, até à busca incessante por respostas para o que nem sequer compreendemos, o desespero é um negócio absolutamente infalível. Perdemos nós, enquanto indivíduos; ganham os agentes astutos que perceberam há muito como converter a fragilidade humana em ouro. E em nenhuma outra arena isso é mais evidente do que na morte, nas igrejas evangélicas e nas práticas místicas como o tarot, o reiki ou os gurus motivacionais.

Comecemos pela morte – afinal, que tema poderia ser mais apropriado para explorar a rentabilidade do sofrimento humano? Para os vivos, a morte é um fardo emocional insuportável; para a indústria funerária, é pura oportunidade. Agências funerárias dançam em redor do caixão com a subtileza de um corretor da bolsa. Choraste hoje, avó? Ótimo. Aqui tens um caixão deluxe, acolchoado com promessas de descanso eterno, porque não queres enterrar o amor da tua vida com um desconto promocional, pois não? O setor floresce não porque seja insensível, mas porque entendeu uma verdade cruel: na dor, há lucro, e ninguém pensa duas vezes em abrir a carteira quando o sofrimento parece comprar dignidade.

E então temos algumas igrejas evangélicas, que levam o conceito de comércio do sofrimento a um novo patamar de sofisticação. Transformam Deus numa marca, a fé num produto, e o pastor num hábil vendedor de promessas. Há algo de extraordinário na audácia destes cultos: prometem mundos e fundos, mas entregam sempre no futuro. Salvação garantida… mas só no além, sem possibilidade de devolução nem reclamações. O cliente chega arruinado, emocional ou financeiramente, e é acolhido por uma avalanche de hinos, orações e gritos fervorosos. Para curar uma doença, melhorar as finanças ou garantir o amor eterno, há sempre uma solução, desde que o dízimo seja “proporcional à tua fé”.

E se não funcionar? Não há problema: a culpa é sempre tua. Faltou fé, a tua oração não foi forte, talvez devesses “semear” mais dinheiro para colher mais bênçãos. Um esquema perfeito, sustentado por uma narrativa onde cada falha humana é não só desculpável, mas rentável.

À margem dessa orgia evangélica, mas na verdade competindo pelo mesmo público, estão as bruxas, cartomantes e artes místicas em geral. É fascinante como ambas as práticas se condenam mutuamente, mas seguem a mesma lógica: prometer o inatingível e fazer-te pagar por isso. A única diferença está na abordagem. Enquanto o pastor ameaça com a ira divina e a maldição eterna, a cartomante joga com os teus medos de forma mais subtil. Tira uma carta e, num tom misterioso, avisa-te: “Vejo energias negativas à tua volta…” Claro que vê! És humano, a tua vida é um caos, e qualquer previsão negativa serve de isco para mais consultas, mais velas compradas, mais limpezas espirituais.

Os motivos que levam as pessoas a uma igreja evangélica são os mesmos que as fazem sentar-se diante de um tarólogo: medo do futuro, culpa pelo passado e a necessidade desesperada de atribuir um sentido às próprias falhas. Porque, convenhamos, é mais fácil acreditar que um feitiço ou pecado está a bloquear o teu progresso do que enfrentar a fria realidade de que és apenas uma vítima – e cúmplice – das tuas próprias escolhas.

E depois temos os gurus e coaches, a versão millennial deste grande circo espiritual. Eles não falam de Deus nem de feitiçaria, mas de “energias”, “frequências” e “alinhamento”. São vendedores ambulantes de promessas abstratas, que dizem frases como “Desbloqueia o teu potencial infinito” – sem, claro, definir o que significa ou como se mede tal desbloqueio. Tudo pode ser resolvido com um retiro no campo, uma meditação intensiva ou, na ausência disso, um bom depósito para assistir a um curso online. Se as igrejas evangélicas exigem o dízimo e os cartomantes cobram consultas em dinheiro vivo, os gurus modernos apelam ao teu “investimento pessoal” – uma frase que soa elegante enquanto esvazia a tua conta bancária.

Seja na morte, no amor ou no desespero quotidiano, o ciclo de perder e ganhar é eterno. Alguém tem de perder para outro ganhar. No final, a diferença entre o pastor e o adivinho, entre o funeral e o reiki, reside apenas no tipo de espetáculo oferecido. Uns gritam “Aleluia!”, outros lançam cartas, mas todos jogam com a nossa necessidade visceral de atribuir um sentido ao caos. Afinal, a maior tragédia humana é que somos peões num jogo que nunca controlamos – mas pagamos, e pagamos bem, pelo privilégio de imaginar que controlamos.

E agora, chegadas ao fim desta minha reflexão, convém sublinhar o óbvio, para não haver mal-entendidos: isto é só um texto. Uma brincadeira intelectual, uma sátira, uma dessas filosofias de fim de tarde em que o sarcasmo se mistura com a verdade até já não sabermos onde começa uma e termina a outra. Não guardo ódios aos pastores que berram a salvação, nem às bruxas que lançam cartas como quem joga Uno. Na verdade, até os admiro – porque, sejamos francas, é preciso talento para convencer alguém a pagar por algo que nem se pode tocar.

Aliás, que fique claro: eu acredito em Deus. Acredito na fé, na força que nos ajuda a levantar nas manhãs em que o mundo parece querer esmagar-nos. Acredito que há um propósito maior, embora ache que ele tenha o mau hábito de se esconder quando mais precisamos. A fé, na sua pureza, é linda – o problema é o espetáculo que fazemos à sua volta, com coros dramáticos, cartas enigmáticas e gurus de Instagram com filtro dourado.

No final, tudo isto é um grande teatro, e nós somos o público que paga o bilhete. Uns choram, outros aplaudem, e há sempre quem traga o saco de pipocas – neste caso, a sua carteira. Não há certo nem errado, só o maravilhoso caos da humanidade, que nos faz rir, chorar e gastar dinheiro. Afinal, acreditar em algo, seja em Deus, no destino ou numa limpeza energética, já é metade do caminho para sobreviver a este circo chamado vida.

Portanto, se este texto arrancou um sorriso ou pelo menos um revirar de olhos, a missão está cumprida. E se não gostaste, quem sabe não encontres uma resposta mais do teu agrado num culto, numa consulta ou num retiro energético. Só não te esqueças: eles também cobram.

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