"Texto"

Há criaturas neste planeta que vivem numa realidade paralela, elaborada com a precisão de uma novela mexicana mal escrita. Acreditam, com a convicção dramática de quem descobriu a cura para a estupidez mas decidiu não a partilhar, que são o centro gravitacional da vida alheia. Elas, só elas — estrelas autocoronadas do universo humano.

É fascinante, se ignorarmos o desconforto intelectual.

Imaginar que alguém passa dias e noites a tecer elegias sobre a sua augustíssima figura, que respira em função da sua existência mirífica, é de uma megalomania tão pueril que quase merece aplausos. Quase. Faltam-lhe apenas: noção, realidade e… um bocadinho de mundo para além do próprio umbigo.

Porque sim, aparentemente, quem escreve… só pode escrever sobre uma pessoa. Não há mais nada no planeta que mereça atenção: nem mares e montanhas, nem os cães que nos olham como se fôssemos deuses, nem a vastíssima biblioteca da experiência humana. Apenas aquela criatura com o ego de um castelo e a relevância social de uma porta de armazém.

É exímio esse talento de se achar indispensável. Quase tão exímio quanto a absoluta falta de correspondência com a verdade.

E aqui está o paradoxo delicioso: enquanto essa pessoa se imagina musa inspiradora universal, quem escreve mal se lembra da sua existência… e quando se lembra é para tentar compreender de onde nasce tamanha fantasia narcisista. Talvez seja um mecanismo de sobrevivência emocional — como quem cria um super-herói imaginário para suportar o quotidiano cinzento. Louvável, se não fosse tão cómico.

Depois há a acusação solene: “És obcecada comigo!”. Pois sim, claro. É por isso que se escreve mais sobre desconhecidos do que sobre esse espécime convicto da própria grandeza. É por isso que a cadela da casa tem mais direito a protagonismo literário do que o tal ser iluminado. Prioridades, afinal.

A verdade é que há quem viva entalado entre a necessidade de se sentir especial e o pânico de perceber que não passa de figurante no enredo dos outros. E quando a consciência ameaça despertar — zás! — inventa-se um admirador secreto, uma fã clandestina, alguém que, coitada, só poderia existir em função de mim.

O riso, para essas ocasiões, não é apenas permitido — é terapêutico.

Porque, no fundo, a ideia é tão ridícula que nem merece raiva, apenas humor. Humor ácido, como convém. E uma boa dose de distância emocional, a mesma distância que existe entre a realidade e o delírio de superioridade alheio.

No final, resta apenas uma constatação elegante:

Há pessoas que confundem uma passagem esporádica pela vida dos outros com residência permanente na cabeça de alguém.

Que fiquem com a ilusão — é o mais próximo de grandeza que alguma vez conhecerão.


Espero que saibam interpretar a grandeza deste texto.

Comentários

  1. Este texto não tem destinatário?
    Vai dizer que não é para ninguém?
    Qual é a grandeza deste texto?
    Acha que é bonito?
    Responda!

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    1. Bom dia .
      Cara leitora por norma deixo a interpretação a cargo de que lê, ou seja, respeitosamente não vou escrever se é ou não para alguém. Nem todos os textos agradam a todos. Exatamente como as pessoas se agradam a todos o mais provável é serem falsas e hipócritas, sem conteúdo. Os textos também não agradam a todos, uns acham que são interessantes, bonitos.
      Muito agradecida pelas questões e por me seguir.

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    2. Sabe com quem está a falar?
      Esto sentada a olhar para a sua resposta e não consigo acreditar. Ainda responde! Não reconhece o meu nome? Já não se recorda?

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    3. Cara leitora. Não sei quem está no outro lado do ecrã. Conhece-me? Sinceramente pelo nome é difícil, imagina quantas Teresas eu conheço. Aqui neste espaço são todos leitores, igualmente bem vindos. Fez várias perguntas e eu respondi educadamente. Posso até a conhecer, mas a senhora pode estar equivocada. Então desejo uma ótima noite e agradeço imenso por me ler.

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