"Entre a morte e a memória"

 Eu trabalho numa capela. Ao longo dos anos vi muitos mortos.

Vi rostos serenos que pareciam mergulhados num sono profundo. Vi marcas da doença, da idade e do sofrimento. Vi corpos transformados pela morte e pela passagem do tempo. Por isso, julgava que já conhecia a realidade da finitude humana. Julgava que a experiência me tinha dado uma certa resistência.

Mas estava enganada.

No dia 1 de Junho de 2026 vivi algo que ficará gravado na minha memória durante muito tempo.

Não era apenas um falecido.

Era o meu sogro.

O pai do meu marido.

O avô dos meus filhos.

Um homem que teve um lugar real na nossa vida, na nossa história e na nossa família.

Não procurei olhar para o corpo. Não senti necessidade. Queria guardar a memória do homem que conheci. Contudo, fizeram questão de destapar o caixão e mostrar o seu rosto.

E aquilo que vi abalou-me profundamente.

Não reconheci o homem que conhecera.

Não reconheci o pai do meu marido.

Não reconheci o avô dos meus filhos.

As feições tinham desaparecido quase por completo. O rosto parecia consumido. A pele encontrava-se colada ao osso de uma forma que eu nunca tinha presenciado. As bochechas tinham desaparecido. Os contornos naturais da face já não existiam. Os olhos encontravam-se tão afundados que pareciam ausentes. Durante alguns segundos tive a sensação perturbadora de estar perante uma caveira coberta por uma fina camada de pele.

Não vi o homem.

Vi apenas os vestígios físicos da sua existência.

E essa diferença marcou-me.

Porque a morte nem sempre é assim.

Os meus pais, quando partiram, pareciam simplesmente adormecidos. A ausência da vida era evidente, mas continuavam a ser eles. Continuavam reconhecíveis. Havia ainda algo do seu rosto, da sua identidade, da sua presença.

Ali não.

Ali a morte parecia ter apagado quase todos os traços da pessoa que existira.

Mas, por mais difícil que tenha sido aquela visão, existe algo que me magoa ainda mais quando penso nesse dia.

Os meus filhos estavam presentes.

O meu filho mais novo tem apenas dez anos.

Foi despedir-se do avô.

Foi prestar-lhe uma última homenagem.

Foi com a inocência de uma criança que queria apenas dizer adeus a alguém que amava.

E viu aquilo.

Ainda hoje não consigo esquecer a expressão no rosto dos meus filhos.

Nem a do meu marido.

Vi o choque.

Vi a confusão.

Vi a tentativa de compreender algo que nem eu própria conseguia processar naquele momento.

E foi aí que senti uma dor diferente.

Uma dor que já não estava relacionada apenas com a morte do meu sogro.

Estava relacionada com a falta de sensibilidade humana.

Porque existem gestos que exigem empatia.

Existem momentos que exigem discernimento.

Existem despedidas que devem ser conduzidas com respeito pelos vivos, não apenas pelos mortos.

Até hoje custa-me compreender como alguém pôde expor uma família inteira — incluindo crianças — àquela visão sem qualquer preparação, sem qualquer cuidado, sem qualquer consideração pelo impacto emocional que isso poderia ter.

Não guardo revolta pela imagem do meu sogro.

A doença, o tempo e a morte seguem caminhos que nem sempre controlamos.

O que me custa é recordar os rostos daqueles que amo naquele instante.

O olhar do meu marido perante o corpo do pai.

O olhar dos meus filhos perante o corpo do avô.

E o sentimento de impotência que me atravessou ao perceber que não os podia proteger daquilo que estavam a ver.

Contudo, por mais dolorosa que seja esta memória, recuso-me a permitir que ela seja a última recordação que guardarei dele.

Porque o meu sogro não era aquele corpo.

Não era aquele rosto transformado pela morte.

Não era aquela imagem que ficou gravada na minha mente.

Era o pai que criou o homem com quem construí a minha vida.

Era o avô que os meus filhos aprenderam a amar.

Era a voz, os gestos, as histórias, os momentos partilhados.

A morte mostrou-nos o limite do corpo.

Mas o amor mostra-nos aquilo que permanece para lá dele.

Talvez a verdadeira superação não passe por esquecer o que vimos.

Talvez passe por devolver essa imagem ao lugar que lhe pertence: o de um instante final, duro e inevitável, mas incapaz de resumir uma vida inteira.

Porque uma vida não pode ser reduzida ao seu último rosto.

E um homem não pode ser definido pela forma como a morte o encontrou.

Com o tempo, acredito que a imagem daquele cadáver perderá força.

E quando isso acontecer, espero que o que fique seja algo maior.

Não a memória do corpo.

Mas a memória do homem.

Não a visão da morte.

Mas a recordação da vida.

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