"Quem te amaria"
Há uma pergunta que tem uma elegância quase cruel porque desmonta muitas ilusões sem levantar a voz: quem te amaria ainda se deixasses de ser útil? Porque durante muito tempo confundimos amor com função. Chamamos amor ao hábito de sermos necessárias. Chamamos amor ao facto de resolvermos, sustentarmos, organizarmos, carregarmos, anteciparmos, segurarmos. Tornamo-nos especialistas em sermos indispensáveis e, quando alguém permanece, convencemo-nos de que foi por quem somos — quando talvez tenha sido apenas pelo conforto daquilo que garantíamos. Existe uma tristeza silenciosa nesta descoberta: perceber que algumas relações não sobrevivem ao momento em que deixamos de produzir valor mensurável. Quando deixas de servir. Quando deixas de pagar. Quando deixas de resolver. Quando deixas de ser o porto seguro. Quando deixas de carregar emocionalmente toda a gente. Quando deixas de ser submissa. Subitamente, certos afectos evaporam-se com uma rapidez que seria quase cómica se não f...