"Não quero saber..."
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Não me interessam conversas superficiais. Não por arrogância, mas por consciência do tempo — esse recurso finito que já não desperdiço com aquilo que não acrescenta, não constrói, não transforma. Lamento, se for necessário lamentar, mas não me disponibilizo para diálogos vazios, para curiosidades disfarçadas de interesse, para ruído social que se alimenta de si mesmo.
E, com a mesma serenidade, afirmo: não me interessa o que dizem a meu respeito. Não por indiferença artificial, mas por lucidez. Porque, na maioria das vezes, são opiniões formadas por quem não me conhece, sustentadas em fragmentos, percepções enviesadas, interpretações que dizem mais sobre quem as formula do que sobre quem é alvo delas.
Como pode alguém conhecer-me sem me atravessar?
Como pode alguém definir-me sem me compreender?
Não pode.
O que dizem revela-os. Não me define.
Julgar não me pertence. Nunca pertenceu. Esse lugar — último, absoluto — cabe a Deus. E há uma tranquilidade profunda em reconhecer isso. Porque me liberta da necessidade de provar, de justificar, de me defender perante tribunais informais onde a sentença já está decidida antes da escuta.
Não procuro valorização. Não preciso de aplausos.
Sei quem sou.
E saber quem se é não é afirmar uma identidade rígida, imutável, confortável. É, pelo contrário, aceitar a própria complexidade.
Sou ambígua — e não há fragilidade nisso.
A dualidade não é exceção, é condição humana.
Sou caos — mas um caos com estrutura interna, com lógica própria, com um tipo de ordem que não é imediatamente visível, mas que existe, sustenta e orienta.
Sou sombra e luz — e não nego nenhuma das partes. Porque negar a sombra não a elimina, apenas a torna inconsciente. E eu escolho a consciência.
Sou um universo em permanente movimento.
Sou mulher.
Sou mãe.
E, acima de tudo, sou inteira — não porque seja perfeita, mas porque não me fragmento para caber no olhar de ninguém.
Sou católica. E esta não é uma etiqueta — é um eixo.
Acredito que Deus me conhece pelo meu nome, não pelos meus erros. E essa convicção não me isenta da responsabilidade — pelo contrário, responsabiliza-me ainda mais. Porque, se tudo o que Deus criou é bom, então há em mim uma bondade essencial que não é anulada pelas minhas falhas, mas também não é garantida pelas minhas intenções.
Porque, sim, sou pecadora.
E não o digo com culpa performativa, mas com consciência.
Sei onde falho. Sei onde poderia escolher melhor. Sei que há momentos em que o impulso me chama — para falar, para reagir, para julgar, para ceder ao imediato.
Sei mentir.
Sei ferir.
Sei responder na mesma moeda.
Mas saber não é fazer.
E é aqui que reside aquilo que verdadeiramente me define: a escolha.
Posso espalhar boatos — escolho não o fazer.
Posso atacar — escolho conter-me.
Posso ceder à crítica fácil — escolho o silêncio ou a reflexão.
Não porque seja sempre fácil. Muitas vezes não é. Há momentos em que a vontade existe, em que a reação seria quase instintiva. Mas há, também, uma consciência que intervém. Uma espécie de travão interior que me lembra quem quero ser, mesmo quando não me apetece sê-lo.
Não sou boa ou má em estado absoluto.
Sou o resultado das minhas escolhas.
E é nelas que me construo — e, por vezes, me corrijo.
Aprendo com os meus erros — não os romantizo, não os nego, não os justifico excessivamente. Assumo-os. E aceito que cada decisão tem consequência. Que cada escolha deixa marca. Que cada desvio tem um custo.
E, nesse processo, há algo profundamente transformador: Deus não “apaga” simplesmente o erro — permite que eu o viva, que o sinta, que arque com ele. Não como punição cega, mas como caminho de consciência.
Há uma purificação que não acontece no ritual, mas na consequência.
Naquilo que se aprende quando já não há como voltar atrás.
E é aí — nesse confronto entre o que fui e o que escolho ser — que me aproximo, um pouco mais, daquilo que acredito ser o bem.
Não perfeito.
Não absoluto.
Mas verdadeiro.
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Comentários
Enviar um comentário