"Quem diria!?"

 Em 2023 nunca me passou pela cabeça que esta mulher se ia tornar uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Na altura, achei-a insuportável. 
Daquelas pessoas excessivamente persistentes, sempre muito certas de si, com uma confiança que eu confundia com presunção. Eu olhava para ela e pensava:
“Mas quem é esta criatura tão intensa?”

Só que ela teve uma coisa rara: paciência.

Não entrou na minha vida de rompante. Foi chegando devagarinho. Com mensagens. Com chamadas. Com aquela insistência suave de quem percebe que as amizades verdadeiras não se invadem — conquistam-se.

E hoje é ridículo pensar nisso, porque atualmente, se ela passa um dia sem me ligar, sou eu que começo imediatamente a achar que morreu, foi sequestrada ou entrou num retiro espiritual sem rede. 

São horas infinitas ao telefone.
Conversas profundas sobre a vida, traumas, relações, medos existenciais…
e dez minutos depois estamos a rir porque uma de nós se engasgou com água enquanto dizia “chakras”.

Ela é assim: vive tudo intensamente.
As energias. As experiências. As terapias alternativas. As descobertas espirituais.
E sempre que encontra alguma coisa nova, olha para mim como quem diz:
“Tu vais comigo.”

E eu vou.
Nem sei porquê.
Provavelmente porque já percebi que ao lado dela a vida nunca corre o risco de ser normal. 

Até ao fatídico dia em que me liga entusiasmadíssima:
“Descobri um espaço em Lisboa com uma prática incrível de consciência corporal feminina!”

Consciência corporal feminina.
Reparem na expressão delicada. Elegante. Quase clínica.

O nome da prática parecia saído diretamente de um workshop de sexualidade tântrica com desconto de early bird. Eram exercícios pélvicos sensuais, movimentos de ancas, respiração, ativação do pavimento pélvico… basicamente uma mistura entre pilates, dança erótica e uma pessoa invisível a tentar seduzir um fantasma. 

Segundo ela, aquilo ajudava na energia feminina, desbloqueava emoções, aumentava a autoestima e despertava a “mulher interior”.

A minha mulher interior queria era ficar em casa a ver séries, mas lá fui eu. 

Chegámos as duas equipadas como quem vai gravar um anúncio de roupa desportiva premium.
Leggings coladas à alma.
Top justo.
Cabelo arranjado sem parecer demasiado arranjado.
Porque uma pessoa pode ir humilhar-se publicamente… mas hidratada e minimamente bonita.

Entramos.

E logo na receção a senhora pergunta, com a maior naturalidade do mundo:
“Vai usar plug?”

Eu congelei.

Fiquei a olhar para ela em completo estado de falência emocional.

Desculpe?
Plug?
Estamos a falar de quê exatamente?
Isto é uma aula ou uma investigação criminal? 

Antes que eu recuperasse da primeira pancada psicológica, ela continua:
“Quer também o massajador?”

Nessa altura eu já estava mentalmente na paragem do autocarro a caminho de casa. 

A minha amiga, calmíssima, como se aquilo fosse perfeitamente normal numa terça-feira às sete da tarde, responde:
“Sim, pode ser.”

Pode ser?!
PARECIA QUE ESTÁVAMOS A PEDIR UM CAFÉ E UM CROISSANT. 

Entrámos na sala.

E meus amigos… aquilo parecia um cruzamento entre um spa futurista, um videoclip dos anos 2000 e uma nave espacial emocional.

Luzes por todo o lado.
Roxas. Azuis. Vermelhas.
Algumas piscavam lentamente.
Outras mudavam de cor de forma tão intensa que eu senti genuinamente que estava dentro de uma árvore de Natal sensual. 

A minha amiga olha para mim e diz baixinho:
“Comporta-te.”

Frase inútil.
Completamente inútil. 

Começa a aula.

A instrutora, sereníssima, começa a explicar movimentos de libertação corporal e conexão com a energia feminina.
Só que os movimentos eram… como posso dizer isto delicadamente… extremamente sugestivos. 

Aquilo não parecia ginástica.
Parecia um tutorial físico de posições que normalmente exigem pelo menos outra pessoa e pouca iluminação. 

Era anca para a frente.
Anca para trás.
Respiração profunda.
Olhar intenso.
Movimentos lentos.
Gemidos terapêuticos.

Eu não sabia para onde olhar.

A certa altura olho para a rapariga da frente e reparo que ela tinha uma luz a piscar no equipamento.
Piscava em várias cores. Vermelho. Azul. Verde.
Parecia um router da Vodafone emocionalmente disponível. 

E de repente…
a rapariga começa a soltar uns gemidos suaves durante o exercício.

Eu senti imediatamente aquele riso nervoso a subir.
Aquele riso proibido.
Aquele riso que quanto mais tentas controlar… pior fica. 

A senhora do meu lado esquerdo olha para mim escandalizada e faz “shhhhh”.

E foi aí que o demónio entrou no meu corpo.

Olhei para a minha amiga e sussurrei:
“Achas que aquela luz é um botão para desligar o som?”

A minha amiga perdeu completamente o controlo. 

Dobrou-se.
Começou a rir em silêncio primeiro.
Depois aquele riso abafado com lágrimas.
Depois aquele riso perigoso em que já não entra oxigénio suficiente no organismo. 

E eu atrás.
As duas a tremer.
A tentar fingir alongamentos enquanto morríamos por dentro.

A instrutora continuava muito séria:
“Conectem-se com o vosso centro…”

Meu amor… naquele momento o nosso centro era o caos. 

Nunca mais conseguimos recuperar compostura naquela aula.
Cada movimento parecia pior.
Cada gemido parecia amplificado.
Cada luz a piscar parecia equipamento de emergência médica. 

Mas a verdade é esta:
há amizades que nascem em cafés.
Outras em viagens.
A nossa consolidou-se definitivamente numa aula pseudo-erótica iluminada como uma discoteca espiritual em Lisboa. 

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