"Pensar?"

 Por norma, a esta hora já estou a dormir.

Hoje foi exceção.

O dia começou como começam quase todos os dias das pessoas adultas que vivem em modo maratona permanente: acordar cedo, trabalho, responsabilidades, horários apertados e a eterna sensação de que o relógio anda sempre dois passos à nossa frente.

Fui trabalhar.
Tenho a sorte rara de trabalhar com uma patroa extraordinária — humana, compreensiva, inteligente. E isso hoje em dia vale mais do que muitos ordenados emocionalmente miseráveis.

Saí do trabalho e começou a segunda jornada.
Almoço com a família.
Depois um velório.
Mais trabalho.
Uma festa de aniversário generosamente regada, porque há ambientes que só se suportam bem com hidratação alcoólica adequada. 
E, para terminar o dia, escola da fé.

A vida adulta é isto: num espaço de poucas horas tanto podes estar a refletir sobre a eternidade num velório como a cantar parabéns desafinados enquanto alguém abre espumante demasiado perto do bolo.

Mas o momento verdadeiramente interessante do dia aconteceu no meio da correria.

Cruzei-me com uma pessoa que me pergunta, muito naturalmente:
“Então… tens visto a tua tia?”

Eu parei.
Olhei para ela.
E perguntei com genuína confusão:
“Qual tia?”

E ela responde o nome da senhora em questão.

Fiquei alguns segundos em silêncio.
Porque, sinceramente, até me tinha esquecido da existência daquela criatura. 

“Essa senhora, que eu saiba, não é minha tia.”

A pessoa ficou surpreendida.
“Então… mas o que pensas dela?”

E foi aí que percebi uma coisa curiosa.

Nós vivemos numa sociedade profundamente convencida de que temos obrigação emocional de continuar ligados a toda a gente que passou pela nossa vida. Como se o simples facto de existir um laço antigo obrigasse a uma permanência sentimental eterna.

Mas não obriga.

Olhei para o relógio.
Tinha uma mensagem do meu filho a perguntar quando chegava a casa.
Prioridades. Reais. Concretas. Vivas.

Despedi-me educadamente e fui embora.
Mas a reflexão ficou comigo.

E a verdade é esta:
quando Deus afasta certas pessoas da minha vida, eu aceito com uma serenidade impressionante.

Sem ódio.
Sem raiva.
Sem necessidade de vingança emocional.

Mas também sem nostalgia artificial.

Porque sinceramente… eu não penso nelas.

Não penso mesmo.

As pessoas acham sempre que por trás do silêncio existe uma mágoa escondida, uma revolta profunda ou um ressentimento secreto. Como se o afastamento tivesse obrigatoriamente de continuar emocionalmente ativo.

Nem sempre.

Há pessoas que simplesmente deixam de existir dentro de nós.
Não por crueldade.
Não por maldade.
Mas porque a vida avançou.

E quando alguém já não faz parte do teu quotidiano, dos teus afetos, das tuas preocupações, das tuas alegrias, dos teus dias difíceis ou das tuas conquistas… chega um momento em que deixa também de ocupar espaço mental.

E isso não é frieza.
É paz.

Eu não acordo de manhã a pensar naquela senhora.
Não analiso a vida dela.
Não imagino se está bem ou mal.
Não construo diálogos imaginários.
Não tenho curiosidade.
Não sinto saudade.

Nada.

Absolutamente nada.

E talvez a maturidade esteja precisamente aqui:
na capacidade de perceber que nem todas as pessoas são eternas dentro de nós.

Algumas foram importantes numa determinada fase.
Outras nunca deviam ter entrado.
E outras simplesmente perderam o lugar que ocupavam.

Sem drama.
Sem discursos agressivos.
Sem necessidade de anunciar rupturas ao mundo.

Apenas silêncio.

Porque há relações que acabam de forma tão completa que deixam de gerar até reflexão.
Se ninguém mencionasse o nome daquela senhora hoje, eu provavelmente continuaria meses — talvez anos — sem sequer me lembrar que existe.

E está tudo bem nisso.

Nem toda a ausência dói.
Algumas apenas deixam espaço.

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