"Palavras "

 Há palavras que passam por nós como luz sobre água — tocam, brilham por um instante e dissipam-se sem deixar rasto. Outras, porém, entram como lâmina fina, silenciosa, e permanecem. Não porque sejam mais verdadeiras, mas porque encontram em nós um terreno antigo, preparado ao longo de milénios para reconhecer o perigo antes de acolher a beleza.

O cérebro humano não é neutro; é vigilante. Foi moldado num tempo em que sobreviver dependia menos da celebração do que da antecipação da ameaça. Nesse contexto, o elogio nunca foi urgente — mas o insulto, a crítica, o sinal de rejeição, esses podiam significar exclusão, risco, vulnerabilidade. E o que era risco precisava de ser lembrado.

Assim se construiu esta assimetria silenciosa: o negativo fixa-se, o positivo escorre.

Uma palavra dura não é apenas ouvida — é registada, analisada, arquivada com um cuidado quase obsessivo. Ativa zonas profundas, emocionais, instintivas, como se ainda estivéssemos à mercê de perigos invisíveis. Já o elogio, por mais sincero que seja, não convoca o mesmo estado de alerta. Não exige defesa, não pede reacção. E, por isso, passa.

Mas esta herança, embora útil noutros tempos, pode tornar-se um desequilíbrio no presente.

Porque o que hoje chamamos de crítica nem sempre é ameaça real. E o que ignoramos como elogio poderia ser matéria-prima para construir uma identidade mais sólida, mais justa, mais inteira. No entanto, deixamos que a memória se incline — acumulando sombras e descartando luz.

E assim, pouco a pouco, vamos habitando uma narrativa distorcida de nós mesmos.

Não porque o mundo seja apenas duro, mas porque a nossa mente aprendeu a amplificar o que fere e a minimizar o que sustenta. Guardamos a frase que nos diminuiu, repetimo-la em silêncio, revisitamo-la com uma fidelidade quase ritual. E esquecemos, com a mesma facilidade, as palavras que nos reconheceram, que nos validaram, que nos viram.

É um paradoxo inquietante: damos permanência ao que nos fragiliza e transitoriedade ao que nos poderia fortalecer.

Mas compreender este mecanismo é abrir uma fissura na sua inevitabilidade.

A consciência interrompe o automatismo. Permite-nos questionar: por que razão esta crítica ocupa tanto espaço? Por que motivo este elogio não encontrou lugar? E, mais importante, o que escolho fazer com isso?

Treinar a mente não é negar o impacto do negativo — é reequilibrar a balança. É dar ao positivo o tempo que nunca lhe demos. É revisitar um elogio com a mesma atenção com que revisitamos uma crítica. É permitir que o reconhecimento se instale, que crie raízes, que se torne também memória duradoura.

Porque a memória emocional não é apenas um arquivo; é um território em constante construção.

E cada vez que escolhemos onde pousar a atenção, estamos, na verdade, a decidir que versão de nós próprios queremos consolidar.

Talvez a verdadeira maturidade esteja aqui: não em eliminar o negativo — isso seria ilusório — mas em recusar que ele seja a única voz persistente dentro de nós.

Há palavras que ferem, sim. Mas há outras que curam — e essas também merecem permanecer.


Texto escrito e partilhado no WordPress a 23/04/2026

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