"Quantas..."
Quantas vezes vesti um sorriso como quem veste uma armadura invisível — não para celebrar, mas para sobreviver?
Não um sorriso espontâneo, mas um artefacto cuidadosamente construído, ajustado ao contexto, polido para não levantar suspeitas. Um gesto mínimo, socialmente aceite, que encobre aquilo que não encontra linguagem imediata. Porque há dores que não cabem em conversas leves. Há estados internos que não se traduzem sem se desfigurarem. E então sorrimos — não porque estamos bem, mas porque ainda não encontramos um espaço onde seja seguro não estar.
Eu sei o que é dizer “está tudo bem” como quem fecha uma porta por dentro.
Sei o que é sustentar uma normalidade aparente enquanto, no interior, tudo pede interrupção. Não um colapso dramático, mas uma pausa verdadeira. Um lugar onde a dor possa existir sem ser apressadamente resolvida, minimizada ou, pior ainda, invalidada.
Porque há uma forma subtil de violência que consiste em ensinar-nos a reprimir aquilo que sentimos para sermos mais aceitáveis.
E eu aprendi — como tantas de nós aprendem — a conter.
A conter a tristeza para não incomodar.
A conter a angústia para não parecer frágil.
A conter o cansaço para não ser vista como insuficiente.
Mas conter não é resolver.
Conter é adiar.
E tudo o que se adia no domínio emocional não desaparece — transforma-se. Ganha densidade, infiltra-se, acumula-se em zonas menos visíveis da consciência, até que um dia emerge com uma força desproporcional ao momento presente. Não porque seja novo, mas porque foi ignorado durante demasiado tempo.
Reprimir é uma forma lenta de inflamação interna.
E eu já ardi por dentro em silêncio suficiente para compreender que não há dignidade em negar aquilo que dói.
Reconhecer a dor não é fraqueza — é precisão. É um acto de lucidez emocional que exige mais coragem do que qualquer encenação de força. Porque é muito mais fácil performar estabilidade do que sustentar vulnerabilidade com consciência.
Disseram-nos, muitas vezes, que sentir demasiado nos diminuía.
Mentiram.
Sentir profundamente não é excesso — é capacidade. O que nos fragiliza não é a intensidade da emoção, mas a ausência de espaço para a integrar. E esse espaço, na maioria das vezes, não nos é dado. Temos de o construir. Deliberadamente. Com rigor. Com escolha.
Eu construí o meu.
Um lugar onde posso retirar a máscara sem receio de desmoronar. Onde a minha dor não precisa de ser justificada para existir. Onde o sofrimento não é interpretado como falha, mas como linguagem. Linguagem do corpo, da história, daquilo que em mim ainda pede escuta.
Porque não há verdadeira superação sem escuta.
Não se vence o que se ignora.
Não se transforma o que se reprime.
Não se cura o que se silencia.
Tirar a máscara, nesse sentido, não é um gesto de exposição gratuita. É um acto de integridade. É alinhar o que se mostra com o que se sente. É recusar a duplicidade exaustiva entre o exterior e o interior.
E isso — isso sim — exige coragem.
A fragilidade, quando assumida, deixa de ser fragilidade. Torna-se transparência. Torna-se verdade. Torna-se, paradoxalmente, força estrutural. Porque só aquilo que é reconhecido pode ser sustentado sem ruptura.
Eu sou uma mulher que já fingiu estar inteira quando estava fragmentada.
Mas também sou a mulher que decidiu deixar de fingir.
Não para dramatizar a dor, mas para a compreender. Não para se definir por ela, mas para a integrar. Porque há uma diferença fundamental entre viver ferida e viver consciente da ferida.
A primeira aprisiona.
A segunda liberta.
E nesse processo de libertação, compreendi algo que alterou definitivamente a forma como me posiciono no mundo: eu não mereço migalhas emocionais.
Não mereço afectos intermitentes.
Não mereço presenças convenientes.
Não mereço palavras que surgem apenas quando é fácil.
Eu não estou aqui para “dar jeito”.
Essa lógica — silenciosa, socialmente normalizada — é profundamente desumanizante. Reduz-nos a função, a utilidade, a circunstância. E eu recuso ser circunstancial na vida de alguém enquanto me pedem que trate o outro como essencial.
Eu sou essencial para mim.
E isso não é egoísmo — é responsabilidade.
Responsabilidade de não me abandonar novamente. De não aceitar menos do que aquilo que sei, com clareza conquistada, que mereço. De não confundir atenção com cuidado, intensidade com profundidade, presença com compromisso.
Eu fico onde há reciprocidade.
Fico onde a minha voz não é tolerada, mas escutada.
Fico onde a minha vulnerabilidade não é explorada, mas acolhida.
Fico onde o afecto não é uma concessão, mas uma escolha contínua.
E, sobretudo, fico onde posso ser inteira — sem fragmentar partes de mim para caber.
As dores, sim, podem quebrar.
Podem desorganizar, desorientar, deixar marcas que não desaparecem. Mas, quando atravessadas com consciência, tornam-se nós — não de bloqueio, mas de estrutura. Pontos de resistência interna que sustentam aquilo que, antes, colapsaria.
Eu sou feita desses nós.
Não como rigidez, mas como firmeza.
E é por isso que hoje digo, com uma serenidade que já não precisa de validação externa: eu amo-me.
Amo-me não como ideal, mas como compromisso.
Amo-me nas partes que ainda estão em reconstrução.
Amo-me nas fragilidades que já não escondo.
Amo-me o suficiente para não aceitar menos.
E esse amor — exigente, lúcido, indiscutível — redefine tudo.
Redefine o que aceito.
Redefine o que recuso.
Redefine onde fico.
Porque, no fim, não se trata apenas de sobreviver à dor.
Trata-se de não se abandonar no processo.
E eu — finalmente — fiquei comigo.
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