"Entregar.... Terminado"

 Entrego o dia como quem regressa ao princípio — não ao início cronológico das coisas, mas ao lugar onde tudo ainda é inteiro, antes de ser interpretado, distorcido, nomeado. É um gesto íntimo, quase secreto, onde me desarmo de mim mesma. Não levo máscaras, não levo justificações. Levo apenas o que sou naquele exacto instante: a soma imperfeita de tudo o que fiz, pensei, calei, desejei e falhei.

E entrego.

Entrego como quem sabe que há uma inteligência maior do que a minha a sustentar o fio invisível da existência. Porque, no fundo, viver é caminhar sobre um tecido que não vemos, confiando que não cede. E essa confiança não nasce da ausência de dor, mas da experiência repetida de que, mesmo quando tudo parece ruir, há algo que permanece — silencioso, firme, inexplicável.

Peço discernimento não como quem quer controlar o futuro, mas como quem quer habitar o presente com lucidez. Porque decidir é um acto profundamente solitário. É o instante em que todas as vozes — as herdadas, as impostas, as desejadas — se cruzam dentro de nós, e ainda assim temos de escolher. Escolher é, de certa forma, renunciar. E eu quero renunciar com verdade, não por medo, não por ruído, não por influência disfarçada de cuidado.

Peço protecção. Pelos meus — essa extensão de mim que vive fora do meu corpo, onde qualquer ameaça ganha outra dimensão. Mas peço também para ser guardada do invisível corrosivo: das intenções opacas, das palavras que parecem luz mas transportam sombra, das presenças que não sabem permanecer sem ferir subtilmente o espaço que ocupam. Há violências que não deixam marcas visíveis, mas alteram a respiração da alma. E essas, aprendi, são as mais perigosas.

E, no entanto — no meio desta vigilância serena — algo inesperado acontece.

A vida, com a sua ironia delicada, começa a trazer-me pessoas que não estavam no meu imaginário. Não eram as que eu idealizei, nem as que eu pensava que já tinham compreendido o essencial de mim. Essas, algumas, ficaram para trás — não por ausência de tempo, mas por excesso de ficção. Preferiram versões simplificadas, histórias leves, quase infantis, onde eu cabia melhor enquanto personagem do que enquanto pessoa.

E está tudo bem.

Há uma espécie de revelação silenciosa quando alguém acredita numa mentira sobre nós: não revela quem somos, revela quem o outro precisa que sejamos. E essa necessidade não se combate — observa-se.

O que me desconcerta não é a existência dessas histórias. O ser humano sempre teve esta inclinação para criar narrativas onde organiza o caos do mundo. O que me desconcerta é a forma estética que essas narrativas assumem. Como se alguém decidisse pintar-me sem nunca me ter visto à luz natural. Um retrato construído à pressa, com traços exagerados, sombras densas, uma distorção quase violenta daquilo que é simples.

Um quadro onde não me reconheço.

E, no entanto, há quem o contemple como verdade.

Há quem o compre.

Há quem o leve consigo como se tivesse adquirido uma peça autêntica.

E isso diz mais sobre o olhar do que sobre o objecto observado.

Porque ver não é automático. Ver exige coragem. Exige a disposição de abandonar a primeira impressão, de suspender o julgamento imediato, de aceitar que o outro pode ser mais vasto do que aquilo que conseguimos compreender à primeira. Mas nem todos estão dispostos a esse trabalho interior. É mais fácil aceitar uma versão reduzida — uma caricatura — do que sustentar a complexidade de um ser humano inteiro.

Eu olho para esse quadro — o tal que fizeram de mim — e sinto algo que não é indiferença, mas também não é dor. É uma espécie de clareza tranquila. Como quem percebe que não pode habitar o olhar do outro sem se perder de si.

E eu não me perco.

Não discuto o quadro.

Não tento redesenhá-lo.

Não me esforço por corrigir quem já decidiu não ver.

Porque há uma violência subtil em tentar convencer alguém da nossa verdade quando essa pessoa já escolheu outra versão. É um desgaste inútil, uma erosão silenciosa da dignidade. E eu aprendi — talvez tarde, talvez a tempo — que nem toda a incompreensão merece resposta.

Há silêncios que são actos de integridade.

Há ausências que são formas de presença.

E há uma liberdade profunda em deixar que cada um carregue a sua própria interpretação, mesmo que ela não nos inclua verdadeiramente.

O que me sustenta não é o reconhecimento externo. É essa fidelidade íntima — quase teimosa — a uma verdade que não precisa de aplauso para existir. Uma coerência silenciosa que se constrói nos detalhes invisíveis: nas decisões que ninguém vê, nas renúncias que ninguém celebra, na forma como continuo a ser quando não estou a ser observada.

E talvez seja isso que mais desarma: perceber que não preciso de ser compreendida para ser inteira.

Há histórias antigas que se repetem — não como fatalidade, mas como tendência. Trocam-se verdades por versões mais confortáveis, trocam-se relações reais por interpretações convenientes, trocam-se pessoas por ideias. É um movimento antigo, quase estrutural, inscrito na fragilidade humana.

Mas há sempre uma possibilidade de ruptura.

E essa ruptura não é grandiosa. Não é dramática. Não é visível.

É íntima.

É a decisão silenciosa de não participar.

De não devolver na mesma moeda.

De não permitir que a falsidade alheia contamine a nossa forma de estar no mundo.

De continuar a escolher a verdade — mesmo quando ela não é reconhecida, mesmo quando ela não é compreendida, mesmo quando ela nos deixa aparentemente sós.

E é aqui que volto ao início.

Entrego o dia.

Não como quem desiste, mas como quem confia.

Porque no fim — depois de todas as narrativas, de todos os olhares, de todas as interpretações — há uma instância que não se deixa enganar. Um olhar que vê para além das versões, que lê para além das palavras, que conhece para além das aparências.

E é a esse olhar que eu pertenço.

É a esse olhar que eu regresso, todos os dias.

Inteira.

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