“Juventude em manutenção”

 Sabemos que estamos oficialmente a entrar naquela fase delicada da vida chamada “juventude em manutenção” quando vamos para os Passadiços do Paiva com entusiasmo de influencer fitness… e ao fim de dez escadas já estamos a reconsiderar todas as decisões que nos trouxeram ali. 

Fui com a minha amiga.
A amiga das energias. Dos cristais. Dos incensos. A mulher que acredita genuinamente que uma pedra retirada do interior da Terra consegue equilibrar chakras, afastar más vibrações e abrir caminhos espirituais… mas que nem com três ametistas e um quartzo rosa conseguiu abrir os pulmões naquela subida. 

Ela aparece sempre preparada para tudo.
Mochila minimalista. Água alcalina. Cristal “para proteção energética”. Spray de lavanda “para ansiedade”.
Parecia pronta para uma peregrinação espiritual no Tibete.
Coitada. Nem sabia que ia apenas subir escadas até entrar em contacto direto com Jesus Cristo. 

E lá fomos nós. Todas felizes.
Outfit pensado ao detalhe como duas pessoas completamente iludidas pela própria autoestima.
Leggings que apertavam onde deviam apertar.
Óculos de sol de mulher descansada com estabilidade emocional.
Ténis novos, porque claramente acreditávamos que o problema da resistência física estava no calçado e não na idade. 

Telemóvel carregado a 100%, porque sofrer sem fazer stories hoje em dia é praticamente cardio desperdiçado.

Nos primeiros cinco minutos ainda íamos fortes.
Conversávamos. Ríamos. Tirávamos fotos ao rio.
Parecíamos aquelas mulheres dos anúncios de turismo sustentável: leves, serenas, hidratadas e conectadas com a natureza.

Depois apareceu a primeira escadaria.

Amigo… aquilo não eram escadas.
Era uma auditoria física.

Ao décimo degrau já começámos naquele silêncio estranho de quem está a poupar oxigénio para sobreviver. 
Ao vigésimo, os joelhos começaram a fazer sons novos. Sons que claramente não existiam em 2012.
Ao trigésimo, já respirávamos como duas senhoras que acabaram de carregar uma máquina de lavar até ao terceiro andar sem elevador.

E o mais humilhante é que tentávamos manter a dignidade.

Parávamos constantemente, mãos na cintura, a olhar para a paisagem, a fingir contemplação profunda:
“Uau… que vista linda…”
MENTIRA.
Ninguém estava a admirar nada.
Estávamos só a evitar desmaiar junto ao corrimão. 

A certa altura passou por nós um casal alemão com cerca de 74 anos.
A subir aquilo como quem vai comprar pão.
Sem respirar alto.
Sem parar.
Sem sequer suar.

Eu olhei para a minha amiga.
Ela olhou para mim.
E naquele momento percebemos as duas que já pertencíamos ao grupo etário “jovem por dentro, ortopedicamente preocupante por fora”. 

Mas o auge aconteceu quando a minha amiga decidiu sacar de um cristal no meio da subida.
Juro.
Parou no degrau, tirou uma pedra lilás da mochila e disse, ofegante:
“Isto ajuda muito no equilíbrio energético…”

Minha querida… naquele momento o único equilíbrio que nos interessava era não cair pelas escadas abaixo e aparecer no telejornal local. 

E quanto mais subíamos, mais o corpo começava a enviar notificações.

As pernas tremiam.
As costas queimavam.
Os pulmões pareciam dois sacos do Pingo Doce cheios de gatos aflitos.
O coração batia tão rápido que já nem parecia exercício físico — parecia fuga fiscal. 

Havia pessoas a ultrapassar-nos com uma facilidade ofensiva.
Crianças.
Idosos.
Um senhor de sandálias.
UM SENHOR DE SANDÁLIAS.
Aquilo destruiu-me psicologicamente. 

E depois existe aquele momento específico dos Passadiços do Paiva em que olhas para cima e percebes que ainda faltam aproximadamente 472 mil degraus.

Nesse instante deixas de ser turista.
Deixas de ser mulher moderna.
Deixas de ter vaidade.

Passas apenas a ser matéria orgânica a lutar pela sobrevivência. 

Antigamente aguentávamos noitadas até às seis da manhã.
Dormíamos duas horas e ainda íamos trabalhar como se nada fosse.
Comíamos kebabs às quatro da manhã sem consequências físicas nem espirituais.

Agora fazemos um percurso pedonal e passamos três dias a sentar devagar na sanita, a fazer barulhos de obra sempre que nos levantamos da cama. 

No dia seguinte acordei com músculos em sítios onde nem sabia que tinha estrutura óssea.
Descer escadas em casa transformou-se num evento de risco.
Sentei-me no sofá uma vez e comecei imediatamente a fazer cálculos sobre quantas tentativas precisaria para me levantar outra vez. 

Mas apesar de tudo… foi maravilhoso.

Porque há qualquer coisa profundamente bonita nestas amizades adultas.
Nesta capacidade de rir da decadência física enquanto fingimos equilíbrio emocional.
Nesta união feminina baseada em apoio moral, gargalhadas e anti-inflamatórios ocasionais. 

E no fim resumiu-se exatamente a isto:

Lindas nas fotografias.
Destruídas na subida.
Abafadas por dentro.
E absolutamente convencidas de que, daqui a uns meses, vamos repetir tudo outra vez. 

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