"Bode expiatório"
Há quem diga que a memória é um refúgio; no meu caso, é também um arquivo implacável. Não esquece, não suaviza, não negocia com o tempo. Recorda com a nitidez de quem sabe que a verdade, mesmo quando distorcida pelos outros, deixa sempre vestígios — e eu aprendi a lê-los.
Fui, em momentos distintos, aquilo a que chamam bode expiatório. Não por vocação, mas por conveniência alheia. É sempre mais fácil concentrar a culpa numa só pessoa do que distribuí-la pela complexidade dos factos. Há uma espécie de economia moral nisso: simplifica-se o erro, purifica-se o grupo, sacrifica-se o indivíduo. E assim se constrói uma narrativa confortável, onde a verdade é menos importante do que a estabilidade das aparências. Eu conheço bem esse mecanismo — não o estudei apenas, vivi-o. Senti o peso silencioso de carregar culpas que não eram minhas, e o mais subtil ainda: a expectativa de que o fizesse com discrição, quase com gratidão.
Mas se o bode expiatório é o corpo que absorve a culpa, o gaslighting é a névoa que dissolve a mente. É mais insidioso, mais íntimo, mais corrosivo. Não se limita a acusar — reescreve. Não impõe apenas uma versão dos factos — infiltra-se na própria capacidade de os reconhecer. E é aqui que a minha memória, paradoxalmente, se tornou tanto escudo como campo de batalha. Porque quando alguém insiste, com convicção suficiente, que aquilo que viveste não aconteceu, ou não aconteceu assim, instala-se uma fissura. Pequena ao início, quase imperceptível. Mas persistente.
“Estás a exagerar.”
“Isso nunca foi assim.”
“Tu é que interpretaste mal.”
Frases simples, aparentemente banais, mas que operam como uma erosão lenta. E o mais inquietante é que não atacam frontalmente — insinuam. Plantam dúvida. E a dúvida, quando cultivada com constância, pode tornar-se mais convincente do que a própria evidência.
No entanto, há algo em mim que resistiu. Talvez seja da água — essa matéria que não se fixa, mas também não se perde. O que é líquido adapta-se, contorna, infiltra-se, mas não desaparece. E talvez haja também algo de mais profundo, mais escuro, mais instintivo, que recusa a dissolução total. Uma espécie de intuição quase visceral que diz: “não, isto aconteceu.” Mesmo quando tudo à volta sugere o contrário.
A minha fé teve aqui um papel silencioso, mas decisivo. Não como fuga, mas como eixo. A ideia de verdade — não a verdade conveniente, nem a verdade negociada, mas a verdade em si — tornou-se um ponto de ancoragem. Há algo profundamente libertador em acreditar que a realidade não depende exclusivamente da narrativa de quem a manipula. Que existe um plano onde o que é, é — independentemente de quem o nega.
E, ainda assim, não romantizo a experiência. Há um custo. Há sempre um custo em ver com clareza aquilo que outros insistem em obscurecer. A lucidez, nestes contextos, não é leve. Exige uma vigilância constante sobre o próprio pensamento, uma recusa activa da distorção, uma espécie de disciplina interior que nem sempre é confortável.
Mas há também um ganho. Uma espécie de rigor na forma de olhar o mundo. Uma sensibilidade afinada para detectar incoerências, omissões, subtilezas. Uma inteligência emocional que não nasce de livros, mas de vivências que obrigam a interpretar o não dito, o implícito, o contraditório.
Ser bode expiatório ensinou-me sobre a dinâmica da culpa e da projecção.
Ser alvo de gaslighting ensinou-me sobre a fragilidade — e a resiliência — da percepção.
E, no meio disso tudo, permaneço inteira. Não intacta — isso seria ilusório — mas inteira. Com uma memória que não cede facilmente, uma intuição que não se cala, e uma fé que, discretamente, sustenta o que a razão, por vezes, tem de reconstruir.
Há uma forma de dignidade em não abdicar da própria experiência. Em recusar que a realidade seja completamente reescrita por mãos alheias. E talvez seja isso, no fundo, que resta — e que basta: a capacidade de dizer, com serenidade firme, “eu sei o que vivi.”
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