"Momento"
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Há um momento — não datável, não mensurável — em que o olhar deixa de ser ingénuo. Não é um instante dramático, não há anúncio, não há ruptura visível. Há, apenas, uma acumulação silenciosa de experiências que, pouco a pouco, vão desvelando aquilo que antes se tolerava por desconhecimento ou, talvez, por necessidade de pertença.
E, nesse momento, algo se desloca.
A observação deixa de ser superficial e torna-se penetrante. Já não se vê apenas o gesto — vê-se a intenção. Já não se ouve apenas a palavra — escuta-se o que nela falha. Já não se aceita o comportamento como dado — interroga-se a sua origem.
E é aqui que começa o isolamento. Não como fuga, mas como consequência.
Porque quanto mais se vê, menos se suporta.
O ser humano — e importa dizê-lo sem romantismos — não é uma entidade moralmente estável. É, antes, uma possibilidade. Uma estrutura aberta, capaz tanto do mais elevado como do mais abjecto. A ideia de uma bondade intrínseca, constante e universal é, no mínimo, uma simplificação confortável.
Todos somos tudo.
Não como afirmação provocatória, mas como constatação ontológica. Dentro de cada um habita a capacidade de cuidar e de destruir, de proteger e de ferir, de dizer a verdade e de a manipular. O que nos distingue não é a ausência de certas possibilidades — é a escolha de não as concretizar.
E essa escolha não é garantida. É circunstancial, é testada, é frágil.
Com as condições certas — ou erradas — qualquer ser humano pode atravessar limites que, em circunstâncias normais, consideraria intransponíveis. Não é confortável admitir isto. Mas é intelectualmente desonesto negá-lo.
Eu sei.
Não por teoria, mas por contacto com a realidade — interna e externa.
Nunca tirei uma vida. Mas não me iludo ao ponto de acreditar que estou fora da condição humana. O que me diferencia não é uma natureza superior — é um percurso que me obrigou a desenvolver resistência.
E essa resistência tem um custo.
Há em mim uma capacidade de suportar dor que não é natural. Não nasceu de equilíbrio, mas de repetição. De exposição continuada a situações onde não havia alternativa senão aguentar.
Morrer — metaforicamente — deixou de ser um evento excepcional. Tornou-se um processo.
Morre-se quando se é traída por quem se acreditava seguro.
Morre-se quando o vazio se instala onde deveria haver presença.
Morre-se quando se é atacada antes mesmo de se compreender o que está a acontecer.
E, ainda assim, vive-se.
Não por mérito, mas por insistência. Por uma espécie de teimosia existencial que recusa a dissolução total.
É neste ponto que a escolha se torna decisiva.
Perante a dor prolongada, há duas possibilidades: endurecer ou transformar.
Endurecer é fácil. É quase automático. É fechar, afastar, desconfiar, reduzir o outro a uma ameaça potencial.
Transformar é infinitamente mais exigente. Implica reconhecer a dor sem se identificar totalmente com ela. Implica recusar que o sofrimento se torne a lente única através da qual se vê o mundo.
Eu escolhi — talvez contra toda a lógica — ver beleza.
Não uma beleza ingénua, decorativa, superficial. Mas uma beleza que se impõe como acto de resistência. Ver beleza quando ela não é evidente é uma forma de afirmar que a realidade não se esgota no sofrimento.
E essa escolha não anula a dor — mas impede que ela se torne absoluta.
Com o tempo, outra dimensão emerge: o amor.
Não como conceito abstracto, mas como concretização. O amor que ganha corpo nos filhos, no companheiro, na família que se constrói e se sustenta.
E aqui surge um paradoxo: o amor fortalece e fragiliza simultaneamente.
Fortalece porque dá sentido, estrutura, continuidade.
Fragiliza porque amplia a vulnerabilidade.
Quem ama não sofre apenas por si — sofre pelo outro. E essa duplicação da experiência emocional exige uma maturidade que não é dada, é construída.
Foi nesse lugar — entre a dor já conhecida e o amor que se expande — que nasceu em mim uma inquietação fundamental: a necessidade de evolução.
Não uma evolução estética, nem social, mas ética.
Ser melhor não como imagem, mas como prática.
Ser exemplo não como imposição, mas como coerência.
Ensinar não apenas com palavras, mas com escolhas.
E, no entanto, essa consciência traz consigo uma consequência inevitável: a intolerância ao vazio.
Depois de atravessar o essencial, o superficial torna-se insuportável.
A falta de conteúdo não é apenas aborrecida — é corrosiva.
A falsidade não é apenas irritante — é desestabilizadora.
A incoerência repetida não é apenas falha — é desgaste.
Há momentos em que a presença física não corresponde à presença interior. Em que o discurso do outro continua, mas em mim instala-se um silêncio denso, quase exausto.
“Estão a falar… e eu estou a morrer.”
Não é hipérbole. É uma forma de descrever o colapso da paciência perante aquilo que não tem substância.
E é aqui que a selecção se impõe definitivamente.
Não se trata de excluir por vaidade, mas de preservar por necessidade.
Porque viver exposto ao vazio, depois de ter conhecido a densidade, é uma forma de regressão.
E eu não regresso.
Não depois de tudo.
Não depois de ter compreendido que a vida não se mede pela ausência de dor, mas pela capacidade de a transformar em consciência.
Não depois de ter escolhido, repetidamente, não me tornar aquilo que me feriu.
Sou mulher.
Sou produto das minhas experiências — mas, sobretudo, das minhas escolhas perante elas.
E se isso me torna mais só, mais selectiva, mais exigente — então que assim seja.
Porque há uma solidão que empobrece…
e há outra que protege.
E eu aprendi — com o custo que isso implica — a distinguir as duas.
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