"Perguntas"

 Por vezes perguntam-me como consigo estar há tantos anos com o meu marido, se o amor continua igual.

E eu sorrio sempre, porque a verdade é simples: não, não é igual.

É maior.

Não tem a intensidade apressada do início, nem a urgência bonita dos primeiros encontros. Não vive de surpresas constantes nem da ilusão de perfeição. Hoje é mais profundo do que isso. É mais calmo, mais consciente, mais verdadeiro.

É um amor que aprendeu a ficar.

Um amor que já atravessou dias bons e dias difíceis, silêncios, cansaços, medos e recomeços. Um amor que já viu a versão mais bonita e também a mais frágil um do outro — e ainda assim escolheu permanecer.

Porque amar alguém a sério não é apaixonarmo-nos apenas pela luz. É saber sentar-nos ao lado das sombras sem fugir.

É conhecer as falhas, os medos, as imperfeições e, mesmo assim, continuar a escolher a mesma pessoa, todos os dias, sem aplausos e sem espetáculo.

Talvez seja por isso que também me perguntam como consigo ter tantas amizades verdadeiras, tantas pessoas que me procuram, que gostam de falar comigo, que permanecem.

E a resposta talvez esteja no mesmo lugar: eu nunca soube viver pela superfície.

Não sei construir relações vazias, nem vestir personagens para ser aceite. Há muitos anos que deixei de usar máscaras. Não sei ser metade, nem presença conveniente. Sou inteira. Por vezes teimosa, quase sempre intensa, mas sempre verdadeira.

E as pessoas sentem isso.

Porque no fundo, todos nós estamos cansados de aparências. Cansados de relações bonitas por fora e vazias por dentro. Cansados de afetos que brilham muito e duram pouco.

A pele engana.

A pele arrepia-se depressa, confunde desejo com amor, atenção com cuidado, intensidade com profundidade. Um beijo pode iludir, um olhar pode incendiar, mas nem tudo o que toca o corpo sabe tocar a alma.

E é aí que tudo muda.

Fique com quem lhe beija a alma.

Com quem a vê quando já não há espetáculo. Quando o cansaço substitui a beleza, quando o silêncio pesa mais do que as palavras, quando as feridas falam mais alto do que os sorrisos.

Fique com quem não ama apenas a sua luz, mas que sabe permanecer nas suas sombras sem medo de as conhecer.

Com quem não precisa que seja perfeita para a escolher.

Com quem percebe que amar não é um ato de paixão, mas um ato de presença.

É ficar.

É cuidar.

É ouvir o que nunca foi dito.

É reconhecer o peso escondido atrás de um “está tudo bem”.

É dar paz onde a vida já trouxe demasiado ruído.

Qualquer pessoa pode desejar a sua pele.

Poucas sabem proteger a sua paz.

Qualquer pessoa pode prometer intensidade.

Raríssimas sabem oferecer tranquilidade.

E no fim, é isso que fica.

Não a pressa.

Não o encanto superficial.

Não a paixão barulhenta que chega depressa e parte ainda mais depressa.

Mas aquela presença serena de quem escolhe amar sem metades.

A pele envelhece.

Os corpos mudam.

O tempo transforma tudo.

Mas quem soube tocar a sua essência, quem alcançou a parte mais profunda de si, quem beijou a sua alma com verdade — esse permanece.

Talvez seja por isso que o amor cresce.

Talvez seja por isso que algumas pessoas ficam.

Porque, no fundo, todos procuramos o mesmo:

alguém que não nos admire apenas pela beleza,

mas que nos reconheça como casa.

E quando isso acontece, já não é apenas amor.

É pertença.


Escrito e partilhado no Facebook a 21/04/2026

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