"Improvável"
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Há qualquer coisa de quase sagrado neste cruzamento improvável: o tempo da Páscoa — feito de silêncio, reencontros e memórias — e este pequeno milagre quotidiano de ver crescer, sem alarde, as visualizações do meu blog. Enquanto o mundo abranda para caber
à volta da mesa, eu descubro, com uma espécie de espanto sereno, que as minhas palavras continuam a viajar.
Sou, antes de mais, alguém que gosta de aprender. Não por obrigação, nem por vaidade, mas por uma curiosidade profunda, quase indisciplinada, que me leva a procurar sentido nas coisas mais simples. E além de terapia, foi essa inquietação que me trouxe à escrita — não como palco, mas como refúgio; não como exibição, mas como exercício íntimo de compreensão. Escrevo porque preciso de organizar o mundo dentro de mim. E, no entanto, eis que esse gesto tão pessoal encontra eco fora de mim.
Olho para estes números — estas curvas que sobem, que respiram, que se recusam a desaparecer mesmo num fim de semana em que tudo convida à pausa — e sinto uma gratidão difícil de traduzir. Não é apenas orgulho, embora ele exista, discreto e legítimo. É sobretudo uma espécie de reconhecimento silencioso: há alguém desse lado. Há tempo oferecido, atenção concedida, curiosidade partilhada.
Cada visualização é, para mim, quase um encontro. Imagino-a: alguém que, no meio de conversas familiares, de risos, de pratos que passam de mão em mão, decide, por um instante, entrar no meu universo. Talvez por acaso. Talvez por necessidade. Talvez porque também procura — como eu — aprender, compreender, sentir. E nesse gesto há uma beleza que nenhuma estatística consegue medir.
Escrever nem sempre foi o meu hobby, mas é um hobby que se leva a sério — como se levam a sério as coisas que nos definem sem fazer barulho. Não escrevo para agradar, mas também não escrevo no vazio. Escrevo porque acredito que as palavras têm peso, têm ritmo, têm capacidade de criar pontes invisíveis entre pessoas que nunca se viram, mas que, por instantes, pensam juntas.
E há aqui um detalhe que me enternece particularmente: este crescimento não depende de circunstâncias ideais. Não espera pelo “momento certo”, pela ausência de distrações, pelo silêncio absoluto. Pelo contrário — acontece no meio da vida real, com tudo o que ela traz: o barulho, as interrupções, as festas, os afectos. Como se a escrita encontrasse sempre maneira de se insinuar, de permanecer, de dizer: “Estou aqui.”
Confesso que há também um sorriso — um leve, cúmplice — quando penso que, enquanto tantos se dedicam ao chocolate e às sobremesas (com toda a legitimidade, diga-se), há quem, algures, escolha alimentar-se de palavras. E isso, de certa forma, faz-me sentir menos sozinha nesta estranha e maravilhosa inclinação para pensar, escrever, aprender.
Esta é, portanto, a minha reflexão: não sobre números, mas sobre continuidade. Sobre o valor de persistir num gesto que começou pequeno, quase tímido, e que hoje se afirma com uma força tranquila. Sobre a alegria de descobrir que aquilo que faço por gosto pode, afinal, tocar alguém.
Agradeço — com sinceridade e um certo deslumbramento ainda intacto — a quem lê, a quem regressa, a quem, mesmo em silêncio, faz parte deste percurso. E agradeço-me também a mim, num raro momento de indulgência, por não ter desistido quando era fácil fazê-lo.
No fim, talvez seja isto: escrever é o meu modo de estar no mundo. E saber que, mesmo em dias de festa e de distração, esse modo encontra resposta… é um presente que não cabe em nenhuma estatística — mas que, curiosamente, começou por lá.
Desejo a todos uma Santa Páscoa.
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário