"Bom dia"

 Tenho dias assim. Dias em que o mundo ainda dorme e eu começo. Os meus horários são estranhos — talvez desalinhados do ritmo comum, mas profundamente coerentes com aquilo que sou. Enquanto bebo o meu café, escrevo. Não por disciplina férrea, nem por um qualquer ideal romantizado de organização; escrevo porque é nesse gesto que me reencontro. Organizar nunca foi um sonho — nem sequer um esboço dele. Há um cansaço subtil em dormir à pressa e acordar cedo demais, como se o corpo fosse constantemente convocado antes de estar pronto. E, ainda assim, há pensamento.

E foi nesse estado — meio suspenso entre o cansaço e a lucidez — que me interroguei: por que razão existe esta tendência tão humana para diminuir o outro? Cruzamo-nos com pessoas, convivemos até, e ainda assim raramente as conhecemos verdadeiramente. No entanto, basta um impulso, uma mágoa mal resolvida, e constrói-se uma narrativa. Não uma história — mas uma caricatura. Uma versão distorcida onde se amplificam defeitos e se silenciam virtudes.

Disso, confesso, compreendo alguma coisa. Um coração magoado não é terreno fértil para reconhecer o bem alheio. Ainda assim, há uma linha que não deveria ser ultrapassada: a da dignidade. Porque quando essa linha se dissolve, não se trata já de interpretação — trata-se de destruição. Destrói-se o que de mais essencial alguém possui: o seu nome.

A minha mãe dizia-me, com uma clareza que o tempo apenas veio confirmar: “A única coisa que verdadeiramente possuímos é o nosso nome. Nunca o desonres.” E eu levo essa máxima comigo, com insistência quase teimosa. Sou honesta. Radicalmente honesta. Sincera.

E é curioso — ou talvez profundamente revelador — que a palavra sincera tenha, na sua origem etimológica, a expressão latina sine cera: “sem cera”. Remonta à prática de certos escultores que, para ocultar imperfeições na pedra, aplicavam cera nas fissuras. Uma peça sine cera era, portanto, uma obra íntegra, sem artifícios, sem ocultações. Ser sincera é isso mesmo: não mascarar, não suavizar com camadas convenientes, não esconder o que é.

Nunca procurei condescendência. Nunca ambicionei validação fácil. O que me inquieta — e por vezes me fere — é essa atitude velada de quem fala comigo como se eu não compreendesse, como se a minha lucidez fosse diminuta, como se a minha presença exigisse tolerância em vez de respeito. Não me imponho, é certo. Mas também não imploro espaço. Existir não deveria ser um acto negociado.

E, inevitavelmente, surge a pergunta que se insinua, persistente: quando alguém se diz meu amigo — ou minha amiga — e permite que o meu nome seja desordenado, que a minha dignidade seja posta em causa, que inverdades circulem sem contraditório… que amizade é essa? O silêncio, nesses casos, não é neutro. O silêncio consente.

Não é necessário alarido. Não é preciso confronto agressivo. Bastaria algo tão simples, tão limpo, quanto isto: “Isso não me diz respeito. Fala com ela.”

Tão fácil. Tão raro.

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