"Onde me sentaria eu?"
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Há perguntas que não são apenas perguntas — são espelhos.
E este é um desses casos.
Onde me sentaria eu?
Numa mesa impecável, onde tudo parece certo, onde as palavras são medidas, os gestos controlados, as falhas escondidas sob uma estética de perfeição?
Ou numa mesa imperfeita, onde há tropeços assumidos, culpas reconhecidas, verdades ditas ainda que com voz trémula?
A resposta não é apenas uma escolha moral.
É uma posição existencial.
Durante muito tempo, ensinaram-nos — de forma subtil, mas persistente — que a santidade se mede pelo que se vê. Pela forma como se fala, como se veste, como se comporta. Construímos, quase sem dar conta, uma ideia de pureza que se aproxima mais de um cenário do que de uma realidade interior.
E, no entanto, quanto mais observo, mais compreendo que a aparência pode ser o lugar mais sofisticado da ilusão.
Porque Deus — esse olhar que não se deixa impressionar por superfícies — não habita vitrines. Ele atravessa-as. Não se detém no gesto ensaiado, nem na palavra bem construída. Ele procura o coração. E o coração, quando é verdadeiro, raramente é impecável.
É humano.
É contraditório.
É, tantas vezes, ferido e em reconstrução.
Jesus Cristo compreendeu isto de uma forma que continua a desestabilizar. E talvez por isso tenha sido tão incompreendido pelos que mais investiam na aparência da rectidão.
Ele não se sentava onde tudo estava “certo”.
Sentava-se onde tudo precisava de ser transformado.
E isso incomodava.
Incomodava porque desmontava a ideia de mérito como condição para o encontro.
Incomodava porque aproximava quem era considerado “indigno”.
Incomodava porque revelava que a verdadeira distância não estava no erro… mas na incapacidade de o reconhecer.
As mesas dos chamados justos estavam cheias de regras, de critérios, de olhares que avaliavam e classificavam. Mas, tantas vezes, estavam vazias de misericórdia — essa capacidade profunda de ver o outro para além da sua falha.
E há algo de profundamente estéril numa perfeição que não acolhe.
Prefiro — escolho — a mesa onde há verdade.
Não porque celebre o erro, mas porque reconheço que só a verdade tem potência transformadora. O erro escondido apodrece. O erro assumido pode ser trabalhado, compreendido, redimido.
E falo como mulher, como alguém que conhece a própria imperfeição não em teoria, mas em experiência.
Sei o que é falhar.
Sei o que é escolher mal.
Sei o que é, em certos momentos, não estar à altura daquilo que acredito.
Mas sei, também, o que é reconhecer.
O que é parar.
O que é, com humildade, dizer: “aqui não fui quem deveria ser.”
E esse lugar — que à primeira vista parece fragilidade — é, na verdade, o início de toda a reconstrução.
Porque quem se fecha na imagem de si mesmo, fecha-se à mudança.
Mas quem aceita a própria imperfeição, abre espaço para algo maior do que si.
A diferença entre o santo de fachada e o pecador arrependido não está no erro — está na postura perante ele.
Um esconde.
O outro revela.
Um protege a imagem.
O outro trabalha a verdade.
E Deus — que vê o invisível — não se deixa enganar por discursos alinhados nem por comportamentos ensaiados. Ele reconhece o movimento interior, o esforço silencioso, a luta que não se exibe.
Por isso, escolho a mesa da transparência.
Prefiro sentar-me ao lado de quem não tem medo de ser visto na sua humanidade. De quem luta — às vezes em silêncio, às vezes em queda — mas não abdica de se levantar. De quem não usa a perfeição como máscara, mas a verdade como caminho.
Há uma dignidade imensa em quem luta de joelhos — não por submissão, mas por consciência.
E talvez seja essa a forma mais autêntica de santidade:
não a ausência de falha,
mas a recusa em permanecer nela.
No fim, a pergunta regressa — não como julgamento, mas como convite íntimo:
onde procuro o meu lugar?
Na mesa onde se aponta o dedo… ou na mesa onde se estende a mão?
Porque o único verdadeiramente Santo não escolheu os irrepreensíveis.
Escolheu os disponíveis.
E talvez seja isso que ainda hoje nos é pedido:
não perfeição…
mas verdade.
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