"Real"

Durante muito tempo, achei que viver bem era conseguir manter tudo em equilíbrio aos olhos dos outros — parecer serena, parecer forte, parecer certa. Como se a vida fosse, de alguma forma, uma montra onde precisávamos de expor apenas aquilo que era bonito, limpo e aceitável.

Mas a verdade é que a alma cansa-se de viver de aparências.

Cansa esconder o que dói. Cansa fingir tranquilidade quando por dentro existe inquietação. Cansa sustentar versões de nós mesmas que servem aos outros, mas que já não nos pertencem. E foi aí que percebi que, sem dar conta, também eu tinha aprendido a amar as trevas — não porque fossem boas, mas porque nelas era mais fácil esconder as imperfeições.

Nas trevas ninguém vê.

Ninguém questiona.

Ninguém pede mudança.

A luz faz o contrário.

A luz mostra. Expõe. Obriga-nos a olhar para aquilo que evitamos durante anos: o orgulho disfarçado de força, o silêncio que era medo, a permanência onde já só existia desgaste, a necessidade constante de agradar para não desiludir.

E dói, porque a verdade raramente chega de forma confortável.

Por vezes, ainda hoje, continuo a permanecer por pessoas que estimo. Tento mais um pouco, fico mais um pouco, porque não gosto da ideia de magoar quem amo. Há afetos que merecem cuidado, e há despedidas que nunca são simples.

Mas há uma coisa que já não consigo fazer: deixar de ser eu.

Há muitos anos que não uso máscaras. Já não sei vestir personagens nem sustentar aparências só para manter paz à superfície. Tornou-se quase uma incapacidade. Não por frieza, mas porque aprendi que a paz verdadeira nunca nasce da mentira, mesmo quando essa mentira parece mais gentil.

Sou autêntica. Real. E, por vezes, teimosa.

Porque quando se conhece o peso de viver longe de si mesma, torna-se impossível voltar atrás. Já não quero parecer melhor; quero apenas ser verdadeira. Não quero aplausos pela imagem que construo, mas tranquilidade pela vida que vivo.

A luz nem sempre é suave, mas liberta.

E hoje prefiro isso:

a verdade que exige,

à aparência que sufoca.

Prefiro ser inteira na luz

do que perfeita nas trevas.

Porque no fim, Deus nunca nos pediu perfeição.

Pediu-nos apenas verdade.


Este texto foi escrito e partilhado no Facebook a 20/04/2026.

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