"Entregar"

 Entrego o dia como quem deposita o coração num altar invisível, ainda quente das horas que o atravessaram. Não faço triagem. Não separo o ouro do pó. Vai tudo — o que brilhou e o que falhou, o gesto certo e a palavra torta, a coragem e o cansaço. Há em mim essa necessidade quase visceral de não reter nada, como se guardar fosse uma forma subtil de corrupção da alma. Entrego, porque sei que só mãos maiores do que as minhas conseguem ler o que em mim ainda é ilegível.

Peço discernimento como quem pede olhos novos. Não olhos que vejam mais, mas olhos que vejam melhor. Porque o mundo está cheio de evidências enganosas, de certezas apressadas, de narrativas que se colam à pele sem pedir licença. E eu não quero viver de reflexos. Quero tocar o real, mesmo quando ele não é confortável, mesmo quando desmonta a imagem que eu própria construí de mim.

Peço protecção — pelos meus, pelos que amo com essa ternura indizível que me desarma. Mas também peço para ser guardada daquilo que não tem nome claro: das cópias que imitam sem compreender, das presenças que sorriem mas não permanecem, das intenções que se vestem de proximidade para melhor se aproximarem do que não lhes pertence. Há uma violência silenciosa na falsidade — não grita, não quebra, mas desgasta. E eu aprendi a reconhecê-la no detalhe, no excesso de coincidência, no eco vazio.

E, no entanto, há algo que me espanta — quase me desconcerta.

Têm chegado pessoas extraordinárias à minha vida. Não aquelas que eu imaginei, não as que eu pensei que já me tinham decifrado, que conheciam o mapa inteiro do que sou ou poderia vir a ser. Essas, algumas, ficaram presas a histórias frágeis como papel molhado. Narrativas pequenas, quase infantis, que não resistiriam a um sopro de verdade — mas que, ainda assim, escolheram acreditar. E está tudo certo. Há escolhas que não se discutem; revelam-se.

O que me intriga não é que inventem histórias. O ser humano sempre teve essa vocação para a ficção — às vezes por medo, outras por tédio, muitas por incapacidade de sustentar a complexidade do outro. O que me intriga é a forma como me pintam.

Como se eu fosse uma tela disponível.

Pegam em traços soltos, ampliam sombras, ignoram luzes, distorcem proporções. Criam um retrato que não é retrato, mas projecção — uma colagem de medos alheios, de inseguranças que não me pertencem, de fantasmas que nunca habitei. Um quadro inquietante, quase grotesco, onde o meu rosto serve apenas de pretexto para a imaginação de quem nunca me olhou verdadeiramente.

E depois — compram-no.

É isso que me surpreende: a facilidade com que se adquire uma versão falsa de alguém, como se a verdade fosse um luxo dispensável. Há uma espécie de economia emocional onde a mentira, quando conveniente, circula com mais fluidez do que a realidade. E quem compra sabe, no fundo, que há algo ali que não encaixa. Mas aceita. Porque dá jeito. Porque confirma. Porque simplifica.

Eu olho para esse quadro — o meu suposto retrato — e não sinto tristeza. Nem revolta. Sinto distância.

Como quem observa uma peça de teatro onde, por algum erro de produção, lhe atribuíram um papel que nunca ensaiou.

Não entro em cena.

Não discuto o guião.

Não reivindico o palco.

Porque há uma liberdade imensa em não precisar de corrigir a percepção dos outros. Em não disputar versões. Em não lutar por um lugar na narrativa de quem já decidiu não me ver. Há uma paz estranha, quase escandalosa, em deixar que cada um carregue a imagem que escolheu — mesmo que essa imagem nada tenha que ver comigo.

Talvez porque aprendi que ver é um acto moral.

Nem todos querem ver. Ver implica responsabilidade. Implica suspender o julgamento, atravessar o incómodo, admitir que o outro é mais do que aquilo que cabe numa história curta. É mais fácil reduzir. Recortar. Catalogar. É mais fácil transformar um ser humano numa ideia.

Mas eu recuso ser uma ideia.

Sou processo. Sou contradição. Sou falha e tentativa, queda e recomeço. Sou feita de nuances que não cabem em narrativas rápidas. E quem não tem paciência para isso, também não tem lugar onde me encontrar.

Há histórias que se repetem ao longo do tempo — não porque o mundo não mude, mas porque o coração humano insiste em atalhos. Trocam-se verdades por versões mais confortáveis, trocam-se pessoas por personagens, trocam-se encontros por interpretações. É antigo. É quase inevitável.

Mas não é obrigatório.

E é aqui que escolho — com uma firmeza tranquila que me surpreende até a mim.

Não quero fazer parte dessa repetição. Não quero endurecer. Não quero aprender a desconfiar de tudo, a olhar sempre por cima do ombro, a medir cada palavra como quem se defende de um ataque iminente. Não quero que a falsidade dos outros me ensine a ser menos inteira.

Continuo a entregar.

Todos os dias.

Como quem insiste num gesto que o mundo não compreende totalmente, mas que, ainda assim, sustenta tudo o resto. Porque, no fim, o que me define não é o quadro que pintam de mim — é a fidelidade com que continuo a ser, mesmo quando não sou reconhecida.

E isso basta.

Basta de uma forma absoluta, quase sagrada.

Porque há uma verdade que não precisa de plateia — apenas de permanência.

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