"Estudo, superficial"
A Liturgia do Céu — O Trono de Deus (Capítulo 4)
no Apocalipse
Depois das cartas às sete Igrejas — que constituem um apelo à conversão histórica — o texto muda abruptamente de horizonte. Já não estamos na terra, nas comunidades concretas, nas suas fragilidades. João é agora introduzido numa visão que ultrapassa o tempo.
“Depois disto, vi uma porta aberta no Céu…”
A imagem da porta aberta é profundamente simbólica:
não é o homem que sobe ao mistério; é Deus que o deixa entrever.
A revelação não é conquista intelectual — é dom.
A Subida “em Espírito”
João diz:
“Fui arrebatado em espírito.”
Este arrebatamento não é fuga do mundo, mas participação momentânea na realidade divina. A tradição teológica chama a isto visão profética: ver a história a partir de Deus, e não Deus a partir da história.
Aqui começa uma mudança essencial de perspectiva:
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Na terra, tudo parece confuso.
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No Céu, tudo tem centro.
O Apocalipse quer ensinar que o sentido da história só é compreensível a partir da adoração.
O Trono: Centro Absoluto da Realidade
A primeira coisa que João vê não é um acontecimento, nem anjos, nem catástrofes futuras.
Ele vê um trono.
“E no trono estava Alguém sentado.”
A Escritura nem descreve directamente Deus. Apenas sugere:
jaspe, cornalina, arco-íris, luz.
Deus não é representado — é indicado.
Teologicamente isto é decisivo:
Deus não é objecto de observação.
É Mistério que sustenta tudo.
O trono simboliza soberania.
O universo não está entregue ao acaso, nem à violência humana, nem à sucessão cega dos acontecimentos.
Há um centro.
E esse centro é Deus.
O Arco-Íris: A Memória da Aliança
À volta do trono aparece um arco-íris.
Na tradição bíblica, o arco-íris é o sinal da Aliança após o dilúvio.
Ou seja: mesmo no juízo, Deus recorda a misericórdia.
Antes de qualquer anúncio escatológico, o Apocalipse afirma:
A justiça divina nunca está separada da fidelidade amorosa.
Os Vinte e Quatro Anciãos
João vê vinte e quatro anciãos vestidos de branco, com coroas.
O número é simbólico:
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12 tribos de Israel
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12 Apóstolos
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Representam a totalidade do Povo de Deus — Antiga e Nova Aliança unidas.
A história da salvação não é fragmentada; é uma única economia divina.
Eles não governam.
Eles adoram.
E depõem as coroas diante do trono.
Ou seja:
toda a autoridade humana é relativa.
Toda a glória criada regressa à sua fonte.
Relâmpagos, Vozes e Trovões
Do trono saem relâmpagos e trovões.
Não são sinais de destruição.
São imagens clássicas da manifestação divina no Sinai.
O Apocalipse quer mostrar:
o Deus que agora reina em glória é o mesmo que falou na história.
Não há dois deuses — o do Antigo Testamento e o do Novo.
Há uma única presença fiel.
Os Sete Espíritos Ardentes
Diante do trono ardem sete lâmpadas.
O número sete, na linguagem bíblica, significa plenitude.
Trata-se da totalidade da acção do Espírito de Deus:
luz que ilumina a história,
fogo que purifica,
presença que vivifica.
O “Mar de Cristal”
Há também “um mar transparente como cristal”.
Na mentalidade bíblica, o mar simboliza o caos, o imprevisível, o que ameaça a vida.
Mas aqui o mar está imóvel, como vidro.
O caos foi dominado.
O mal não tem a última palavra.
O universo encontra-se pacificado diante de Deus.
Os Quatro Seres Vivos
Quatro seres rodeiam o trono:
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um semelhante a leão
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um a novilho
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um com rosto humano
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um como águia em voo
Representam toda a criação:
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o selvagem (leão),
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o doméstico (novilho),
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o humano,
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o cósmico (águia).
Toda a criação participa da liturgia celeste.
O universo não é apenas matéria.
É vocação à adoração.
O Cântico Incessante
Eles proclamam sem cessar:
“Santo, Santo, Santo…”
Este louvor contínuo indica que a adoração não é um momento.
É o próprio ritmo do ser.
A existência encontra a sua verdade quando reconhece a origem em Deus.
O Sentido Profundo desta Visão
O capítulo 4 não fala ainda do fim dos tempos.
Não fala de castigos.
Não fala de tragédias.
Fala de algo anterior a tudo isso:
Deus reina.
Antes de mostrar as crises da história,
o Apocalipse mostra que a história já está sustentada.
A esperança cristã não nasce de previsões optimistas.
Nasce da contemplação.
Quem vê o trono não desespera diante do mundo.
Síntese Teológica
Este capítulo é uma catequese sobre o sentido último da realidade:
-
O universo tem um centro pessoal.
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A história não é absurda.
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O mal é real, mas não soberano.
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A criação inteira está orientada para Deus.
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A Igreja, ao rezar, participa já desta liturgia eterna.
O Apocalipse ensina-nos que a verdadeira interpretação do mundo não é política nem sociológica.
É litúrgica.
Só quem aprende a adorar aprende a compreender.
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