"Continuação, estudo"
O Sétimo Selo e o Silêncio do Céu (Capítulo 8)
no Apocalipse
Depois da visão consoladora da multidão salva, o texto regressa à abertura dos selos.
Mas o que acontece agora é inesperado — quase desconcertante.
Quando o Cordeiro abre o sétimo selo, não surge imediatamente nenhuma acção.
“Fez-se silêncio no Céu, cerca de meia hora.”
Este versículo é um dos mais densos de toda a Escritura.
O Silêncio: Não é Vazio, é Plenitude
Na Bíblia, o silêncio não significa ausência.
Significa presença tão intensa que as palavras já não conseguem contê-la.
É o silêncio da adoração,
o silêncio diante do mistério,
o silêncio que antecede uma revelação decisiva.
Depois de tantas imagens e vozes, o Céu cala-se.
Porque o sentido último da história não se explica —
contempla-se.
A tradição espiritual sempre viu aqui o modelo da oração profunda:
quando a alma deixa de falar para simplesmente estar diante de Deus.
A Oração dos Santos Sobe como Incenso
Surge então um anjo junto do altar, segurando um turíbulo de ouro.
Recebe incenso para o oferecer com as orações dos fiéis.
A imagem vem directamente da liturgia do Templo de Jerusalém:
o incenso que sobe simboliza a oração que chega a Deus.
O Apocalipse revela algo essencial:
as orações humanas fazem parte do desenrolar da história.
Nada do que é rezado com verdade se perde.
A oração participa misteriosamente da acção divina.
O Fogo do Altar Lançado à Terra
Depois, o anjo enche o turíbulo com fogo do altar e lança-o sobre a terra.
Este gesto une dois movimentos:
-
a oração sobe ao Céu;
-
a resposta de Deus desce à história.
O fogo não é destruição arbitrária.
É purificação, julgamento, transformação.
Deus não age fora da história.
Age através dela.
As Sete Trombetas
Sete anjos recebem trombetas.
Na tradição bíblica, a trombeta nunca é apenas som.
É chamada à conversão.
Evoca:
-
o Sinai,
-
os profetas,
-
o anúncio de que Deus intervém.
As trombetas não anunciam o fim,
mas despertam a consciência humana.
As Primeiras Quatro Trombetas: A Criação Ferida
Os primeiros toques atingem elementos da natureza:
terra, mar, rios, astros.
Não se trata de catástrofes literais.
O texto usa linguagem simbólica para mostrar que o pecado humano tem dimensão cósmica.
Quando o homem rompe com Deus,
rompe também a harmonia com a criação.
A natureza reflecte o drama espiritual da humanidade.
O Apocalipse antecipa, de forma impressionante, uma verdade que hoje compreendemos melhor:
a desordem moral gera também desordem no mundo criado.
O Limite do Juízo: Apenas “Um Terço”
Repetidamente aparece a expressão:
“foi atingido um terço”.
Nunca a totalidade.
Isto mostra que os acontecimentos não são aniquilação.
São advertências.
Chamamentos.
Sinais pedagógicos.
Deus não destrói.
Corrige para salvar.
O juízo bíblico é sempre medicinal antes de ser definitivo.
O Grito da Águia
Antes de continuar, surge uma águia que clama:
“Ai, ai, ai dos habitantes da terra.”
A águia, símbolo de visão elevada, anuncia que os acontecimentos seguintes serão ainda mais interiores e espirituais.
O drama vai deslocar-se:
do exterior para o coração humano.
Sentido Teológico do Capítulo 8
Este capítulo ensina algo muito profundo:
a história é atravessada por sinais de Deus,
mas eles não são imposições.
São convites.
O silêncio inicial mostra que tudo nasce da contemplação.
As trombetas mostram que Deus continua a chamar o homem à conversão.
Os abalos mostram as consequências de uma liberdade mal orientada.
O Apocalipse não descreve um Deus irado.
Descreve um Deus que insiste em despertar a humanidade.
Mensagem Espiritual
O momento central não é o ruído das trombetas.
É o silêncio que as precede.
Antes de Deus transformar o mundo,
convida-o a escutar.
A verdadeira mudança começa sempre assim:
num silêncio onde a consciência desperta.
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