"Continuação do estudo"
O Livro Selado e o Mistério do Cordeiro (Capítulo 5)
Se o capítulo anterior nos mostrou o trono, isto é, Deus como centro da realidade, agora surge a pergunta decisiva:
Se Deus reina, porque continua a história marcada por dor, injustiça e silêncio?
Quem pode abrir o sentido do que vivemos?
É a grande interrogação humana:
a história tem significado — mas quem o revela?
O Livro Selado: O Mistério da História
O vidente contempla, na mão direita d’Aquele que está no trono, um livro escrito por dentro e por fora, fechado com sete selos.
Na linguagem simbólica bíblica, este livro representa:
➡ o desígnio de Deus sobre o mundo,
➡ o sentido total da história humana,
➡ o “porquê” último do sofrimento e da redenção.
O facto de estar escrito “por dentro e por fora” indica plenitude:
nada falta, nada é acrescentado — tudo já está contido na sabedoria divina.
Mas há um problema dramático:
O livro está selado.
Isto significa que o homem, por si só, não consegue interpretar a própria existência.
A razão é grande, mas não basta.
A experiência é rica, mas permanece fragmentária.
O sentido último da vida não é algo que se descobre — é algo que precisa de ser revelado.
A Busca por Alguém Digno
Um anjo proclama com voz forte:
“Quem é digno de abrir o livro?”
Não pergunta quem é capaz.
Pergunta quem é digno.
A questão não é de poder, mas de autoridade moral e espiritual.
Segue-se um silêncio cósmico:
ninguém no céu, nem na terra, nem sob a terra consegue abrir o livro.
Nenhum sábio.
Nenhum império.
Nenhuma filosofia.
Nenhuma força humana.
A humanidade inteira aparece aqui representada na sua incapacidade de se salvar a si mesma.
O Pranto Humano
O vidente começa a chorar intensamente.
Este choro é profundamente teológico.
Não é emoção individual — é o lamento da humanidade diante de uma história que parece não se explicar.
Se ninguém pode abrir o livro:
-
o sofrimento não tem resposta,
-
a justiça não tem fundamento,
-
a esperança seria ilusão.
O pranto representa o drama existencial do homem que procura sentido e não o encontra sozinho.
A Revelação Inesperada
Um dos anciãos diz:
“Não chores.”
Esta é uma das frases mais importantes de todo o texto.
A esperança entra na história não como ideia, mas como presença.
É anunciado Alguém que venceu.
Mas quando o vidente olha, espera ver um leão — símbolo de força, poder, triunfo.
E vê… um Cordeiro.
O Paradoxo do Cordeiro Imolado
O Cordeiro está de pé, mas traz sinais de ter sido morto.
Aqui está o centro de toda a teologia cristã:
> A vitória de Deus não acontece pela violência,
mas pelo amor levado até ao sacrifício.
O Cordeiro não apaga a ferida — transforma-a em glória.
A imagem diz algo absolutamente revolucionário:
O sentido da história não se revela pelo poder que domina,
mas pela entrega que salva.
Os Sete Chifres e os Sete Olhos
O Cordeiro possui sete chifres (plenitude de poder) e sete olhos (plenitude de conhecimento).
Isto mostra que:
-
a mansidão não é fraqueza,
-
o amor não é impotente,
-
o sacrifício é, paradoxalmente, a forma suprema de soberania.
O Apocalipse redefine completamente a ideia de poder.
A Abertura do Livro
O Cordeiro aproxima-Se e toma o livro.
Este gesto é decisivo:
Ele não recebe permissão — Ele é reconhecido.
Só quem ama até ao fim pode interpretar a história humana.
Porque só o amor conhece verdadeiramente o homem.
O sentido do mundo só se compreende à luz da entrega.
O Cântico Novo
Toda a criação explode em adoração:
“Digno és de receber o livro e abrir os seus selos,
porque foste imolado.”
Surge aqui o chamado “cântico novo” — novo não no tempo, mas na profundidade.
A novidade não é cronológica.
É ontológica: algo mudou na estrutura do universo.
A redenção introduziu uma lógica irreversível de graça.
A Dimensão Universal da Salvação
O texto afirma que foram resgatados homens:
de toda a tribo, língua, povo e nação.
A salvação não pertence a uma cultura nem a uma época.
Tem alcance universal.
A história inteira é chamada a entrar nesta redenção.
Um Reino de Sacerdotes
Os redimidos tornam-se:
“um reino e sacerdotes.”
Isto significa que a humanidade não é apenas salva individualmente — é transformada numa comunhão que participa da própria vida de Deus.
A salvação não é fuga do mundo.
É transfiguração da existência.
Síntese Teológica do Capítulo 5
Este capítulo responde à grande pergunta humana:
Quem dá sentido à história?
A resposta não é:
-
a força,
-
o progresso,
-
a inteligência,
-
o domínio.
A resposta é:
o amor que se entrega.
O livro da história abre-se apenas nas mãos do Cordeiro,
porque só o amor é capaz de atravessar a morte sem se destruir.
Mensagem Espiritual
O Apocalipse ensina que o mundo não será salvo por estratégias,
mas por santidade.
Não será compreendido por teorias,
mas por comunhão.
O centro do universo não é a força.
É o dom.
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