"Aprovação... Não"
Não sou uma mulher à procura de aprovação.
Há uma serenidade que nasce quando deixamos de mendigar reconhecimento fora e começamos a habitá-lo dentro. A minha medida não é o aplauso circunstancial, nem a interpretação apressada de quem observa de longe. A minha medida constrói-se no espaço mais exigente e mais verdadeiro que existe: o da convivência diária, onde não há palco, apenas vida.
Em casa não se representam papéis — vive-se.
Os meus filhos e o meu marido não aprovam uma versão idealizada de mim; conhecem a realidade inteira. Conhecem os dias luminosos e os dias difíceis, as palavras certas e os silêncios necessários, as fragilidades que não se exibem e a força que não precisa de ser anunciada. E, ainda assim, permanecem. A aprovação que nasce desse lugar não é julgamento, é vínculo. Não é validação externa, é pertença. Eles não confirmam apenas quem sou: acompanham quem ainda estou a aprender a ser.
Por isso, quando alguém afirma conhecer-me e depois desenha uma personagem que não me corresponde, não sinto necessidade de contrariar. Há equívocos que se esclarecem pelo próprio tempo. Quem verdadeiramente conhece alguém não o reduz a uma narrativa — reconhece-lhe a complexidade, aceita-lhe as contradições, respeita-lhe a evolução.
Não somos iguais para todos, nem devemos ser.
A identidade humana não é uma fotografia fixa; é uma relação. Há quem nos veja de perto e aprenda a ler-nos nas entrelinhas. Há quem apenas nos cruze e leve consigo uma impressão breve. Uns conhecem quase o que somos. Outros recebem apenas a cortesia de uma saudação. Isso não é incoerência; é a natureza plural da existência.
É neste contexto que a imagem do “cheiro de cinzas” se torna tão profundamente humana.
A cinza é o que resta depois do fogo.
Não é destruição — é transformação consumada. Algo ardeu: uma dor, um erro, uma perda, uma etapa que não regressa. Já não há chama, mas permanece o sinal de que houve intensidade, de que houve vida. Culpar alguém pelo cheiro de cinzas é exigir-lhe que nunca tenha atravessado o fogo. É querer uma biografia sem experiência, uma consciência sem memória, uma existência sem aprendizagem.
Mas ninguém amadurece sem combustão.
Há sofrimentos que queimam ilusões, decisões que reduzem certezas a pó, acontecimentos que nos obrigam a reconstruir-nos com outra matéria. A cinza, nesse sentido, não é prova de falha; é testemunho de travessia. Só quem viveu sabe que aquilo que arde também ilumina, e que muitas vezes é no rescaldo que começamos verdadeiramente a compreender-nos.
A psicologia ensina-nos que a culpa mais profunda raramente vem do exterior. Ela nasce dentro, na consciência que revê, questiona, tenta reconciliar-se consigo própria. Antes de qualquer acusação, já existe um diálogo íntimo. O verdadeiro peso não é o que os outros dizem — é o que cada um faz com aquilo que viveu.
Educar-se, no sentido mais amplo da palavra, é aprender a integrar essas cinzas sem permitir que nos definam. É reconhecer o passado sem se aprisionar a ele. É transformar memória em consciência, e consciência em responsabilidade viva.
Quem olha apenas para as cinzas vê fim.
Quem compreende o processo vê continuidade.
Não preciso de provar quem sou a quem escolhe olhar de fora. A minha identidade não se constrói na defesa, mas na coerência silenciosa dos dias: no cuidado dado, na presença mantida, na fidelidade ao que acredito, na capacidade de recomeçar sem negar o que ficou para trás.
A aprovação que verdadeiramente importa não é ruidosa.
Não se declara — reconhece-se.
Não exige — acompanha.
Não julga — sustenta.
E essa aprovação, felizmente, não a procuro.
Vivo dentro dela.
Comentários
Enviar um comentário