"Continuação, estudo"
A Abertura dos Selos — A História Vista à Luz de Deus (Capítulo 6)
Depois de o Cordeiro tomar o livro, inicia-se algo que muitos leitores interpretam como uma sucessão de castigos. Porém, a teologia deste capítulo é muito mais profunda:
não se trata de “previsões do fim”, mas de uma leitura espiritual da história humana tal como ela realmente se desenrola.
Os selos não desencadeiam desgraças novas.
Eles revelam o que já está presente no mundo quando Deus é ignorado.
É uma revelação, não uma condenação arbitrária.
O Primeiro Selo — O Cavalo Branco
Surge um cavaleiro com arco, avançando como vencedor.
Durante séculos houve confusão sobre esta figura.
Não representa Cristo, mas sim o fenómeno das conquistas humanas que prometem salvação histórica.
É o símbolo das ideologias, dos impérios, dos projectos humanos que afirmam:
“Agora será diferente. Agora construiremos o mundo perfeito.”
O cavalo branco é a sedução do poder que se apresenta como redenção.
O Segundo Selo — O Cavalo Vermelho
Outro cavaleiro recebe o poder de tirar a paz da terra.
Aqui aparece a consequência inevitável da lógica de domínio:
a violência.
Sempre que o homem pretende salvar-se pela força,
abre-se espaço para a guerra, para o conflito, para a ruptura.
Não é Deus que envia a espada.
É a humanidade quando absolutiza o poder.
O Terceiro Selo — O Cavalo Negro
O terceiro cavaleiro traz uma balança.
É a imagem das injustiças económicas,
da desigualdade estrutural,
da vida reduzida a cálculo e comércio.
O texto fala de alimentos medidos com rigor enquanto o luxo permanece intocado.
Trata-se de uma crítica espiritual:
quando a sociedade perde o sentido do dom,
tudo passa a ter preço — até a dignidade humana.
O Quarto Selo — O Cavalo Esverdeado
O último cavaleiro chama-se Morte.
Não como evento isolado,
mas como atmosfera que acompanha uma humanidade afastada de Deus.
A morte aqui não é apenas biológica.
É a soma de:
-
violência,
-
injustiça,
-
perda de sentido,
-
ruptura com a vida verdadeira.
O texto mostra que estas forças caminham juntas.
O Significado dos Quatro Cavaleiros
Eles não são enviados para destruir o mundo.
Eles descrevem o mundo quando se organiza sem Deus.
São uma análise teológica da história.
O Apocalipse está a dizer:
o mal não vem do Céu.
Nasce de escolhas humanas que se repetem ao longo dos séculos.
O Quinto Selo — O Clamor dos Justos
A visão muda radicalmente.
Já não vemos forças históricas, mas as vítimas delas:
os justos que sofreram.
Eles clamam:
“Até quando?”
Esta pergunta atravessa toda a Bíblia.
Não é revolta — é oração ferida.
O texto mostra que Deus não é indiferente ao sofrimento inocente.
Ele escuta.
Mas responde com algo inesperado:
pede-lhes que aguardem.
O Tempo de Deus
Aqui entra uma das ideias mais difíceis da teologia bíblica:
Deus não age segundo a impaciência humana.
O mal não é eliminado instantaneamente,
porque a história ainda é espaço de liberdade e conversão.
O silêncio de Deus não é ausência.
É paciência redentora.
O Sexto Selo — O Abalo do Mundo Aparente
Surge então uma linguagem cósmica:
terramotos, sol obscurecido, estrelas a cair.
Não é descrição física do universo.
É linguagem profética clássica para indicar:
o colapso das falsas seguranças humanas.
Tudo aquilo que parecia absoluto —
poder,
riqueza,
prestígio,
estrutura —
revela-se frágil.
O homem confronta-se finalmente com a verdade:
nada criado pode ocupar o lugar de Deus.
A Reacção Humana
Os poderosos escondem-se e dizem:
“Quem poderá manter-se de pé?”
É a descoberta tardia de que a história não lhes pertence.
A pergunta final do capítulo é deixada em aberto,
preparando a resposta do capítulo seguinte:
quem permanece de pé
não é o forte,
mas o fiel.
Síntese Teológica do Capítulo 6
Este capítulo não anuncia desastres futuros.
Revela o drama permanente da humanidade.
Mostra que:
-
a história é campo de liberdade real;
-
o mal nasce quando o homem se fecha à transcendência;
-
Deus não provoca o caos — permite que ele se manifeste para que a verdade apareça;
-
o sofrimento dos justos não é ignorado;
-
todas as falsas seguranças acabarão por ruir.
O Apocalipse ensina-nos a ler o mundo com lucidez:
nem ingenuidade optimista,
nem desespero.
A história é séria.
Mas não está abandonada.
O Cordeiro já abriu o livro —
mesmo quando ainda atravessamos páginas difíceis.
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