"É isto..."

 Ao longo da vida acumulamos encontros como quem atravessa estações sucessivas. Rostos, nomes, conversas, promessas — alguns ficam apenas como vestígios na memória; outros cumprem um papel preciso, quase funcional, e seguem o seu percurso. A maioria pertence ao tempo. Poucos pertencem à permanência.

Há pessoas que entram por acaso, como coincidências que a vida ensaia. Outras surgem por necessidade, quando somos ainda incapazes de atravessar sozinhos determinados territórios. Mas existem aquelas — raras e silenciosamente decisivas — que permanecem por escolha consciente. E permanecer, no mundo de hoje, é talvez o gesto mais revolucionário.

Essas pessoas não se prendem à estabilidade das circunstâncias. Caminham connosco quando o trajecto se redefine, quando o ritmo abranda, quando as certezas que julgávamos estruturais se revelam provisórias. Não se aproximam apenas da luz; ficam quando atravessamos sombra. E isso não é romantismo — é maturidade afectiva.

A verdadeira presença não é invasiva, nem ruidosa. É firme. Não exige validação constante nem se alimenta de dramatizações. É discreta como uma promessa antiga que não precisa de ser repetida para ser honrada. Há vínculos que não dependem da frequência, mas da fidelidade interior.

São pessoas que nos atravessam sem nos reduzir. Não exigem versões aperfeiçoadas de nós próprios. Não solicitam entusiasmo quando estamos cansados, nem clareza quando estamos em processo. Entendem que o silêncio não é afastamento, mas, muitas vezes, reconstrução. Respeitam o tempo do outro como quem respeita uma obra em curso.

Num mundo onde tantas relações são negociadas por conveniência, estatuto ou utilidade emocional, esses vínculos sobrevivem porque não assentam no que temos para oferecer, mas no que somos quando nada temos para dar. Não dependem dos dias fáceis, nem se dissolvem perante falhas inevitáveis. Adaptam-se às mudanças, absorvem as transformações, permanecem mesmo quando o cenário se altera.

E quando tudo muda — porque tudo muda — elas continuam a ser casa.

Casa não enquanto lugar físico, mas como estado de reconhecimento. Casa é o espaço onde não precisamos justificar o cansaço, onde não somos avaliados pela performance, onde a nossa humanidade não é condicionada à perfeição. Casa é onde a imperfeição não ameaça o vínculo.

Há amizades que são companhia.
Outras são aliança.

As primeiras acompanham fases.
As segundas acompanham essência.

E é por essas alianças silenciosas que hoje elevo a minha gratidão.

Obrigado, Deus, por essas presenças que não competem, não exigem, não abandonam. Por essas pessoas que caminham ao nosso lado e, mais do que isso, permanecem do nosso lado. Porque, no fim, a verdadeira lealdade não se proclama — vive-se.

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