"Leve"
Tenho um apreço quase visceral pelo que é simples. Não pela simplicidade ingénua que ignora a complexidade do mundo, mas por aquela que nasce depois de a complexidade ter sido compreendida. A simplicidade que permanece após o excesso ter sido descartado. Como escreveu Leonardo da Vinci, “A simplicidade é o último grau de sofisticação.” E talvez seja isso que procuro: não o rudimentar, mas o depurado.
Vivemos numa era em que a aparência ganhou estatuto de substância. Contudo, continuo a admirar quem não precisa de se ampliar para ser visto. Há uma grandeza silenciosa em quem é exactamente o que é. Sócrates lembrava que “a vida não examinada não merece ser vivida.” Eu diria que a vida exagerada para impressionar também não merece ser representada. A autenticidade é mais rara do que o talento; mais valiosa do que o aplauso.
Gosto de quem sente sem cálculo. Num mundo onde até os afectos podem ser estratégicos, encontrar alguém que torce genuinamente pelo bem do outro é quase um milagre ético. Aristóteles afirmava que “a amizade é uma alma que habita em dois corpos.” Mas essa alma só existe onde não há inveja disfarçada, nem competição latente. Só existe onde há maturidade emocional suficiente para celebrar o crescimento alheio como se fosse próprio.
Aprendi que a leveza não é superficialidade; é profundidade resolvida. Friedrich Nietzsche escreveu: “É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.” Talvez as pessoas verdadeiramente leves sejam aquelas que atravessaram o seu caos, mas não o transformaram em identidade permanente. Escolheram a luz, não por ignorância da sombra, mas por consciência dela.
Há presenças que transformam qualquer espaço em casa. Não pela decoração, nem pela circunstância, mas pela qualidade da sua atenção. Martin Buber falava da relação Eu-Tu como encontro autêntico, onde o outro não é objecto, mas presença inteira. É disso que falo: pessoas que nos encontram — não que nos utilizam. Pessoas que escutam como se a nossa palavra tivesse peso ontológico.
Num mundo acelerado, onde o tempo é moeda e a produtividade critério de valor, conversar sem pressa tornou-se um acto de resistência. Hannah Arendt recordava que o espaço público deveria ser o lugar da palavra e do encontro. Hoje, esse espaço encolheu. Por isso, valorizo quem ainda sabe permanecer. Permanecer é um verbo revolucionário.
A beleza da vida não está nos cenários extraordinários, mas na densidade das relações que os habitam. Saint Augustine escreveu: “Ama e faz o que quiseres.” Porque quando o amor é autêntico, ele regula as intenções, purifica as motivações e orienta as escolhas. O amor verdadeiro não é exibição; é coerência.
Enquanto mulher, valorizo relações que não competem, que não disputam palco, que não vivem da comparação constante. Relações onde há admiração serena, reciprocidade madura, silêncio confortável. Simone de Beauvoir lembrava que não se nasce mulher, torna-se. E eu acrescentaria: não se nasce inteira, constrói-se. E essa construção é profundamente influenciada por quem escolhemos manter por perto.
Há pessoas que funcionam como espelhos benevolentes. Reflectem-nos numa versão mais consciente de nós mesmas. Carl Jung dizia que “o encontro de duas personalidades é como o contacto de duas substâncias químicas: se houver reacção, ambas se transformam.” As melhores presenças são as que nos transformam sem nos violentar. As que nos elevam sem nos diminuir.
Tudo ganha outro brilho quando estamos rodeadas de quem desperta o melhor em nós. Não porque nos elogie constantemente, mas porque nos responsabiliza com ternura. A verdadeira influência não domina; inspira. Não impõe; convida.
Talvez por isso continue a escolher o essencial. Porque é no essencial que a vida encontra densidade ontológica. É na simplicidade partilhada que o coração repousa.
Se há uma convicção que amadureceu comigo é esta:
os lugares não são extraordinários por si.
São as pessoas que os tornam memoráveis.
E quando essas pessoas nos ajudam a ser mais conscientes, mais íntegras, mais humanas,
a existência deixa de ser apenas cronologia — torna-se sentido.
Como escreveu Viktor Frankl, “Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.”
Eu diria: quem tem as pessoas certas ao lado encontra sempre um porquê suficientemente forte para continuar.
E talvez a verdadeira sofisticação da vida
não esteja no que acumulamos,
mas na qualidade das almas que escolhemos conservar junto do coração.
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