"Livre"

 Tudo o que amo, deixo livre.

Que isto não seja lido como renúncia, mas como princípio. Não é afastamento — é elevação. Amar, para mim, tornou-se um acto de soberania interior: não prendo, não retenho, não reduzo. Sustento sem possuir. Acompanho sem invadir. Confio sem vigiar.

Não me pertence o tempo de ninguém.
Não me pertencem os caminhos, nem os desvios, nem as estações íntimas que cada ser humano precisa de atravessar. Amar não é delimitar território; é partilhar horizonte. E horizonte não se fecha — expande-se.

Há uma forma menor de amor que nasce da insegurança. Essa forma exige garantias, contabiliza presenças, mede silêncios. Confunde proximidade com controlo e intensidade com domínio. Mas o amor que necessita de clausura para sobreviver já está fragilizado na sua origem. O que é autêntico não implora grades.

O amor verdadeiro tem estrutura interna.

Não depende de fiscalização emocional. Não se sustenta na ansiedade da perda. Vive da escolha renovada, da consciência lúcida, da liberdade respeitada. Amar alguém é reconhecer-lhe a dignidade da autonomia. É saber que o outro não é extensão do nosso medo, mas realidade inteira, complexa, irrepetível.

Libertar quem se ama é um gesto de radical confiança.

É afirmar, com serenidade firme: “fica se quiseres; parte se precisares; o que for verdadeiro encontrará o seu lugar”. Não há dramatização nesse gesto — há maturidade. Porque aquilo que possui substância não se dissolve com a distância. O que é apenas aparência evapora-se; o que é essência reorganiza-se e regressa com maior clareza.

Existe uma beleza austera na escolha consciente.

Quem permanece porque quer confere ao amor a sua dimensão ética mais elevada. Permanecer por decisão própria é um acto de responsabilidade afectiva. É dizer: “estou aqui porque reconheço valor, não porque temo a ausência”. E essa declaração silenciosa vale mais do que qualquer promessa forçada.

Deixar livre exige densidade interior.
Exige suportar o intervalo entre a presença e a incerteza.
Exige aceitar que não controlamos o curso das relações, apenas a qualidade com que nelas participamos.

Não é passividade — é coragem.

Nem tudo volta.
E nem tudo deve voltar.

Há partidas que revelam a fragilidade do que parecia sólido. Há ausências que expõem a ilusão do que julgávamos vínculo. Mas aquilo que regressa, regressa depurado. Volta porque reconhece, porque sente, porque escolhe. E essa escolha é a forma mais pura de reciprocidade.

Amar sem prender é também um acto de auto-respeito. É recusar a humilhação da insistência. É compreender que a dignidade não se negocia por medo da solidão. Quem ama com liberdade afirma, ainda que em silêncio: “prefiro ser escolhido a ser tolerado; prefiro ser desejado a ser necessário”.

O amor que aprisiona nasce da escassez.
O amor que liberta nasce da abundância interior.

No fim, o que é genuíno não precisa de correntes. O que é verdadeiro encontra sempre o seu modo de permanecer — não por fatalismo, mas por afinidade profunda. O que tem raiz resiste às estações. O que é apenas superfície dispersa-se ao primeiro vento.

Amar assim é viver com o coração aberto, mas não vulnerável à própria anulação. É confiar na essência sem exigir garantias artificiais. É compreender que a liberdade não ameaça o amor — revela-o.

Tudo o que amo, deixo livre.

E o que fica, fica porque reconhece, ao meu lado, um espaço onde pode ser inteiro — e, ainda assim, permanecer.

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