"A minha fé"
Redenção é, no seu sentido mais profundo, a travessia entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser. Não é apenas o perdão de uma falta nem a absolvição de um erro; é um movimento interior, lento e exigente, em que o ser humano se reconhece incompleto e, ainda assim, digno de recomeço. Redimir é libertar do peso do passado sem o apagar, é transformar a queda em aprendizagem, a culpa em consciência, a ferida em lugar de escuta. Na tradição espiritual, a redenção não se apresenta como prémio, mas como relação: não algo que se conquista por mérito, mas algo que se acolhe por abertura. É o espaço onde a fragilidade humana e a misericórdia divina se encontram sem se anularem.
Dito isto, eu não procuro Deus por redenção, nem por salvação, nem por bênção. Sei que Ele redime, salva e abençoa — não por insistência minha, mas por natureza d’Ele. Eu não peço. Eu falo. Desabafo. Agradeço. Fico. Escuto. A minha relação com o divino não nasce da necessidade de ser resgatada, mas do desejo de conhecer. Porque eu quero conhecer para amar, e não amar para ser recompensada. Só isso. O meu equilíbrio mora aí, nesse lugar onde a fé não é uma moeda de troca, mas um espaço de permanência.
Se eu não for salva, é porque assim foi decidido além da minha vontade, e eu aceito. Não como resignação amarga, mas como confiança lúcida: a de que há uma sabedoria que não me pertence, uma justiça que não cabe nos meus critérios, uma visão que ultrapassa os limites da minha compreensão. A minha tarefa não é negociar o destino, é habitar o caminho.
E nesse caminho, tento fazer o que é correcto. Sempre tentei. Não por heroísmo, não por pureza, mas por consciência. Sou pecadora. Sei-o. Vejo-me. Reconheço em mim as contradições, os desvios, as sombras que se infiltram nos gestos mais bem-intencionados. Não me absolvo com facilidade, mas também não me condeno sem esperança. Carrego a lucidez de quem sabe que falha e, ainda assim, insiste.
Percorro esta estrada estranha, que tanto se anuncia limpa como se revela cheia de lama, buracos, desvios, atalhos que prometem e enganam. Às vezes sigo direita, outras vezes torta. Há dias em que avanço de pé, firme, quase confiante. Há outros em que vou de joelhos, cansada, a rebolar por dentro, a tropeçar nas minhas próprias limitações. Mas vou. Sempre vou. Porque parar seria desistir de me tornar.
Não caminho para ser vista. Não caminho para ser validada. Caminho porque existir, para mim, é isto: um movimento contínuo entre aquilo que sou e aquilo que tento ser. Não escondo as mãos sujas de lama. Não disfarço os joelhos marcados. Não maquilho as quedas como se fossem vitórias. Mostro quem sou. Não por coragem exibida, mas por necessidade de verdade.
A minha fé não é um escudo contra o mundo, é uma abertura ao mundo. Não é um refúgio para fugir da realidade, é um lugar para a suportar com mais inteireza. Não me torna melhor do que ninguém, torna-me apenas mais responsável por aquilo que faço com aquilo que sou.
Não busco um Deus que me eleve acima dos outros, mas um Deus que me mantenha ao nível dos outros. Um Deus que me ensine a olhar, a escutar, a esperar, a perdoar sem me anular, a amar sem me perder. Um Deus que não me retire da condição humana, mas que me ajude a habitá-la com mais verdade.
E talvez seja isso, no fim, a minha forma de redenção — não a promessa de um destino final, mas a fidelidade a um processo. Não a certeza de uma chegada, mas a honestidade do caminho. Cair, levantar, reconhecer, tentar de novo. Falar, agradecer, silenciar. Errar, ver, corrigir, avançar.
Eu não me ofereço como exemplo. Ofereço-me como presença. Imperfeita, incompleta, em construção. Alguém que não caminha para ser salva, mas que caminha porque ama. E que, nesse amor — frágil, humano, por vezes incoerente — encontra a única forma de equilíbrio que conhece: continuar a ser, mesmo sem garantias, mesmo sem promessas, mesmo sem máscaras.
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