"Beleza"
A beleza mais pura não nasce onde tudo está resolvido.
Nasce no lugar da dúvida, da fratura, da inquietação que nos obriga a olhar para dentro quando preferíamos desviar o olhar. É no ponto exacto da insegurança — esse território instável — que a identidade começa a ganhar forma.
O mundo, incapaz de lidar com o que não controla, apressa-se a nomear. Rotula para reduzir, classifica para não ter de compreender. “Estranha.” “Esquisita.” “Demasiado.” Mas aquilo que é chamado de excesso raramente o é por falta de medida; é excesso apenas para quem vive contido.
Entramos na vida muitas vezes já marcadas por expectativas alheias, carregando julgamentos que antecedem qualquer gesto nosso. Subimos ao palco com medo, conscientes de que ser autêntica implica risco. No entanto, é precisamente aí que acontece a transformação: quando deixamos de representar, quando recusamos a versão domesticada de nós mesmas.
A autenticidade não garante aplausos imediatos. Garante algo mais raro: coerência interior. E essa coerência alivia. Quem permanece fiel ao que é pode até subir pesado, mas desce leve — porque deixou de sustentar personagens. A leveza não vem da aprovação; vem da integridade.
Mostrar a alma exige coragem, sobretudo quando ela não está inteira. Há uma falsa ideia de que só o que está curado merece ser visto. Mas a verdade é outra: a alma não precisa estar intacta para ser bela. Precisa apenas de ser verdadeira. As fissuras não diminuem a luz; muitas vezes, são por elas que a luz passa.
Nem todos compreenderão. E isso faz parte da condição humana. A verdade nunca é universal no impacto, apenas no valor. Ainda assim, ela encontra sempre o seu caminho — não para todos, mas para quem está disponível para sentir. E quando encontra, não precisa de convencer: toca.
No fim, viver com autenticidade é aceitar o risco de ser vista e, ainda assim, escolher permanecer. É recusar a pressa de agradar em nome da fidelidade a si própria. É compreender que a beleza que resiste ao tempo não é a que se molda, mas a que se mantém.
E essa beleza, silenciosa e indomável,
não pede licença.
Existe.
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