"Trindade e Mistério de Deus"

Um só Deus em três Pessoas

Há perguntas que a Teologia não inventou para complicar a fé.

Existem porque a própria experiência cristã de Deus as tornou inevitáveis.

Os cristãos afirmam:

Deus é um.

E afirmam:

O Pai é Deus.
O Filho é Deus.
O Espírito Santo é Deus.

Mas também afirmam:

O Pai não é o Filho.
O Filho não é o Espírito Santo.
O Espírito Santo não é o Pai.

Então surge a pergunta inevitável:

Como pode Deus ser um e, simultaneamente, três?

É aqui que entramos no coração da Teologia Trinitária.

E é precisamente aqui que precisamos de abandonar algumas imagens demasiado simplistas.

A Trindade não é:

1 + 1 + 1 = 3 deuses.

Também não é:

1 Deus que aparece ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito.

E também não é:

um Deus dividido em três partes.

A fé cristã afirma algo muito mais preciso:

Um só Deus em três Pessoas divinas, distintas entre si, possuindo uma única e indivisível natureza divina.

É um mistério.

Mas mistério não significa irracionalidade.

Significa uma verdade que podemos conhecer verdadeiramente sem conseguir esgotar intelectualmente.


A primeira afirmação: Deus é um

Antes de falarmos da Trindade, temos de começar pelo monoteísmo.

A fé bíblica afirma categoricamente:

há um só Deus.

Israel confessa:

“O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único.”

O Cristianismo não abandonou esta fé.

O Deus de Jesus Cristo é o Deus de Abraão, Isaac e Jacob.

O Pai não é um deus diferente do Deus do Antigo Testamento.

O Cristianismo nasce dentro da fé monoteísta de Israel.

Por isso, a Trindade não significa a passagem:

do monoteísmo para o politeísmo.

É uma compreensão mais profunda do próprio Deus único que Se revelou na História da Salvação.


Então de onde vem a Trindade?

Não começámos por imaginar três Pessoas.

Começámos por encontrar uma realidade desconcertante na Revelação cristã.

Jesus fala do Pai.

Jesus fala de Si próprio numa relação única com o Pai.

Jesus promete o Espírito Santo.

O Pai envia o Filho.

O Filho envia o Espírito.

O Espírito glorifica o Filho.

E, apesar desta distinção, a fé cristã continua a afirmar:

um só Deus.

A Teologia Trinitária nasceu precisamente da necessidade de manter simultaneamente estas duas verdades.


A experiência apostólica

Os primeiros cristãos não receberam inicialmente um tratado sistemático sobre a Trindade.

Encontraram:

Jesus.

Escutaram-no.

Viram-no.

Seguiram-no.

Experimentaram a sua relação singular com Deus.

Assistiram à sua morte.

Encontraram-se com o Ressuscitado.

Receberam o Espírito Santo.

E começaram a anunciar:

Jesus é Senhor.

Esta afirmação obrigou a Igreja a pensar profundamente sobre quem era Jesus.

Se Jesus fosse simplesmente uma criatura, como poderia ser objecto da fé, da adoração e da salvação?

Se fosse simplesmente Deus Pai disfarçado de homem, como explicar a sua relação real com o Pai?

A questão cristológica conduziu inevitavelmente à questão trinitária.


Cristologia e Trindade

A Trindade não pode ser compreendida sem a Cristologia.

A pergunta:

“Quem é Jesus?”

conduz à pergunta:

“Quem é Deus?”

E a pergunta:

“Quem é o Espírito Santo?”

conduz à mesma realidade.

A Igreja percebeu progressivamente que não podia afirmar:

Jesus é apenas um homem extraordinário.

Mas também não podia dizer:

Jesus é simplesmente o Pai.

Era necessário encontrar uma linguagem capaz de preservar simultaneamente:

a divindade de Cristo;

a sua humanidade;

a sua distinção do Pai;

e a unidade de Deus.


A palavra “Pessoa”

Aqui começa uma das maiores dificuldades.

Quando dizemos:

três Pessoas

não podemos imaginar três indivíduos humanos.

Pai, Filho e Espírito Santo não são três seres separados.

Não existem:

três consciências independentes;

três vontades divinas contraditórias;

três centros de poder;

três substâncias.

Existe:

uma única natureza divina.

A distinção entre as Pessoas encontra-se nas suas relações de origem.


Natureza e pessoa

A distinção clássica pode ser apresentada assim:

natureza responde à pergunta:

“O que é?”

pessoa responde à pergunta:

“Quem é?”

Um ser humano é:

uma pessoa humana com natureza humana.

Na Trindade:

o que?

Uma única natureza divina.

quem?

Pai, Filho e Espírito Santo.

Temos:

um “o quê”

e

três “quem”.

É uma fórmula pedagógica.

Não esgota o Mistério.

Mas ajuda-nos a evitar erros.


Essência

Outro termo fundamental:

essência.

Essência é aquilo que faz com que uma realidade seja aquilo que é.

Na Trindade existe:

uma única essência divina.

O Pai não possui uma essência divina diferente da do Filho.

O Filho não possui uma essência divina diferente da do Espírito.

Todos possuem plenamente:

a mesma divindade.


Consubstancial

O Credo utiliza uma palavra decisiva:

consubstancial.

O Filho é:

consubstancial ao Pai.

Em grego:

homoousios.

Significa que o Filho possui a mesma essência divina do Pai.

Não é:

“parecido com Deus”.

Não é:

“quase Deus”.

Não é:

“um ser divino inferior”.

É Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.


“Gerado, não criado”

O Credo de Niceia utiliza uma expressão fundamental:

“gerado, não criado.”

Esta distinção nasceu de uma controvérsia histórica particularmente importante:

o Arianismo.

Ário defendia que o Filho, embora superior às criaturas, não seria eternamente Deus como o Pai.

A resposta da Igreja foi inequívoca:

o Filho não é criatura.

É eternamente gerado pelo Pai.

Por isso:

“gerado, não criado.”


O Concílio de Niceia

Em 325, o Concílio de Niceia procurou responder precisamente à questão da identidade divina do Filho.

A Igreja confessou que o Filho é:

consubstancial ao Pai.

A questão não era meramente académica.

Se Cristo não fosse verdadeiramente Deus, toda a compreensão cristã da salvação seria profundamente alterada.

A questão:

“Quem é Cristo?”

era simultaneamente uma questão:

“Como somos salvos?”


Se Cristo não é Deus

A lógica teológica é profunda.

Se Cristo fosse apenas uma criatura, mesmo a mais elevada de todas, não poderíamos falar da união plena entre Deus e humanidade realizada na Encarnação da mesma maneira.

A salvação cristã não é simplesmente:

“Deus mandou alguém ensinar-nos a viver.”

É:

Deus entrou na condição humana.

O próprio Verbo assumiu a natureza humana.


O Filho eterno

O Filho não começou a existir em Belém.

Isto é essencial.

Jesus nasceu em Belém.

Mas:

o Filho eterno existe antes da Encarnação.

O prólogo do Evangelho de João exprime isto através da linguagem do:

Logos — o Verbo.

“No princípio era o Verbo.”

Não diz:

“no princípio começou a existir o Verbo”.

Diz:

“era”.

O Filho é eterno.


O Pai não existiu antes do Filho

Esta afirmação pode parecer estranha.

Mas é fundamental.

Se o Pai é eternamente Pai, então nunca houve um momento em que Deus Pai existisse sem o Filho.

O Filho é eternamente Filho.

A relação não começa no tempo.

É eterna.

Não existe:

“primeiro o Pai”

e depois:

“o Filho”.

A geração do Filho é eterna.


O Espírito também é eterno

Da mesma maneira, o Espírito Santo não começou a existir em Pentecostes.

Pentecostes é a manifestação histórica da missão do Espírito.

Não é o nascimento do Espírito.

O Espírito é eternamente Deus.

A sua missão na História começa a revelar aquilo que Ele eternamente é na vida divina.


Imanência e economia

Chegamos a dois termos teológicos fundamentais:

Trindade imanente

e

Trindade económica.

A Trindade imanente refere-se a Deus tal como é eternamente em Si mesmo.

A Trindade económica refere-se à forma como Deus Se manifesta e age na História da Salvação.

Podemos dizer:

quem Deus é em Si mesmo

e

como Deus age na História.


A economia da salvação

A palavra:

economia

vem do grego oikonomía.

Está relacionada com administração ou organização de uma casa.

Na Teologia, passou a designar o modo como Deus conduz e realiza o seu plano de salvação na História.

Criação.

Aliança.

Encarnação.

Paixão.

Morte.

Ressurreição.

Pentecostes.

Igreja.

Sacramentos.

Parusia.

Tudo isto pertence à:

economia da salvação.


As missões divinas

O Pai envia o Filho.

O Pai e o Filho enviam o Espírito.

Chamamos a isto:

missões divinas.

A missão temporal revela as relações eternas.

Mas existe aqui uma regra importante:

Deus não se divide para actuar.

Quando Deus age fora de Si mesmo, age o único Deus.

A criação é obra do Pai, do Filho e do Espírito.

A Encarnação é obra trinitária, embora seja o Filho quem assume a natureza humana.

A santificação é obra trinitária, embora seja particularmente atribuída ao Espírito.


Apropriações

A Teologia utiliza o conceito de:

apropriação.

Certas obras são atribuídas particularmente a uma Pessoa divina para nos ajudar a compreender a especificidade da sua missão.

Por exemplo:

criação → Pai

redenção → Filho

santificação → Espírito Santo

Mas isto não significa que apenas uma Pessoa participe daquela obra.

O Deus uno e trino age sempre como Deus.


As relações divinas

Agora chegamos ao núcleo da linguagem trinitária.

As Pessoas divinas distinguem-se pelas:

relações.

O Pai é Pai em relação ao Filho.

O Filho é Filho em relação ao Pai.

O Espírito Santo possui a sua própria relação de origem.

Não temos três essências.

Temos:

uma essência divina e relações pessoais realmente distintas.


O Pai

O Pai é:

não gerado.

É a origem sem origem na linguagem teológica clássica.

Mas isto não significa que seja “mais Deus” do que o Filho ou o Espírito.

O Pai é plenamente Deus.

O Filho é plenamente Deus.

O Espírito é plenamente Deus.

Não existe hierarquia de divindade.


O Filho

O Filho é:

eternamente gerado pelo Pai.

Esta geração não é física.

Não é temporal.

Não implica mudança.

Não implica diminuição.

O Pai não perde nada ao gerar o Filho.

O Filho recebe eternamente do Pai a mesma natureza divina.

É uma relação eterna de origem.


O Espírito Santo

O Espírito Santo procede eternamente.

Na tradição latina, afirma-se que procede:

do Pai e do Filho.

Na tradição oriental, a linguagem enfatiza a procedência do Pai enquanto fonte da divindade.

Esta questão está relacionada com o já mencionado:

Filioque.

É uma das questões mais complexas da história da Teologia Trinitária.


Perichoresis

Existe ainda um termo grego extraordinariamente rico:

perichōrēsis.

É frequentemente traduzido por:

circumincessão ou mútua habitação.

Designa a profunda comunhão das Pessoas divinas.

O Pai está no Filho.

O Filho está no Pai.

O Espírito está em comunhão com ambos.

Não como três seres que ocupam o mesmo espaço.

Mas numa comunhão perfeita de vida divina.


Deus não é solidão

Esta dimensão possui enormes consequências.

O Cristianismo não concebe Deus como uma solidão absoluta.

Deus é comunhão.

É relação.

É amor.

Não significa que Deus “precise” das criaturas para amar.

Deus não cria porque lhe falta alguma coisa.

Deus é plenitude.

A criação nasce da liberdade e da bondade divinas.


Deus é amor

Quando a Primeira Carta de João afirma:

“Deus é amor”

esta afirmação pode ser compreendida de modo profundamente trinitário.

O amor não é apenas algo que Deus começa a fazer quando cria o mundo.

Deus é eternamente comunhão.

A vida trinitária é eterna relação.

O Pai ama o Filho.

O Filho está eternamente voltado para o Pai.

O Espírito Santo participa desta comunhão divina.


Não são três deuses

Precisamos regressar frequentemente a esta questão porque a linguagem pode induzir-nos ao erro.

Não temos:

Deus Pai + Deus Filho + Deus Espírito Santo = três deuses.

Temos:

um único ser divino.

As Pessoas não dividem a divindade.

Cada Pessoa é plenamente Deus.

Mas não existe uma essência divina multiplicada três vezes.


Não são três partes de Deus

Também não podemos dizer:

“o Pai é um terço de Deus”.

“O Filho é outro terço.”

“O Espírito é o último terço.”

Isso destruiria a fé cristã.

Cada Pessoa é:

plenamente Deus.

O Pai não possui 33% da divindade.

O Filho não possui 33%.

O Espírito não possui 33%.

Existe uma única divindade indivisível.


Não é modalismo

Outro erro histórico foi o:

modalismo.

Segundo esta visão, Deus seria uma única Pessoa que apareceria de três modos diferentes:

como Pai;

como Filho;

como Espírito.

Mas isso não corresponde à fé cristã.

O Pai envia o Filho.

O Filho reza ao Pai.

O Espírito é enviado.

Existe relação real.

Não são simplesmente três “personagens” representados pelo mesmo actor.


Não é triteísmo

O erro contrário é:

triteísmo.

Aqui temos praticamente três deuses.

A Igreja rejeita igualmente esta posição.

O Cristianismo é:

monoteísta e trinitário.

A dificuldade está precisamente em manter simultaneamente:

unidade da essência

e

distinção das Pessoas.


A analogia de Santo Agostinho

Santo Agostinho procurou compreender o mistério através de analogias.

Uma das mais conhecidas encontra-se na estrutura:

memória → inteligência → vontade.

A pessoa humana possui uma unidade interior com dimensões distintas.

Agostinho procurava encontrar uma imagem que ajudasse a pensar a Trindade.

Mas ele próprio reconhecia:

nenhuma analogia humana consegue representar perfeitamente Deus.


O problema das analogias

É tentador dizer:

água, gelo e vapor.

Ou:

sol, luz e calor.

Ou:

ovo com casca, clara e gema.

Mas todas estas comparações possuem limitações graves.

A água em três estados não é uma boa representação da Trindade porque sugere diferentes modos de manifestação.

Um ovo sugere partes.

O sol pode sugerir fonte, instrumento e efeito.

As analogias podem ajudar pedagogicamente.

Mas podem também induzir erros teológicos.


O mistério permanece

A Teologia não pretende transformar Deus num problema matemático.

Pretende falar verdadeiramente de Deus sabendo que a linguagem humana é limitada.

Quando dizemos:

“Deus é Pai”

não queremos dizer que Deus seja pai biológico.

Quando dizemos:

“Deus é amor”

não queremos reduzir Deus à emoção humana.

Quando dizemos:

“Deus é Pessoa”

não queremos dizer que Deus seja uma pessoa humana ampliada infinitamente.

A linguagem sobre Deus é:

analógica.


Analogia

A analogia permite afirmar que existe uma verdadeira semelhança entre Criador e criatura, mas também uma diferença infinitamente maior.

Conhecemos:

amor humano.

Relação humana.

Paternidade humana.

Inteligência humana.

Bondade humana.

E podemos utilizar essas realidades para falar de Deus.

Mas Deus não é simplesmente um ser humano perfeito.

É infinitamente transcendente.


Transcendência e imanência

Deus é:

transcendente.

Ultrapassa toda a criação.

Mas também é:

imanente.

Está presente na criação e age nela.

O Cristianismo mantém ambas as dimensões.

Deus não é o mundo.

Isto seria panteísmo.

Mas também não está ausente do mundo.

A criação depende continuamente de Deus.


Criação e Trindade

A criação não é necessária para Deus.

Deus não precisava de criar para ser Deus.

Se nunca tivesse existido o universo, Deus continuaria sendo:

Pai, Filho e Espírito Santo.

Isto é importantíssimo.

A Trindade não depende da criação.

A criação depende da Trindade.


O ser humano à imagem de Deus

O Génesis afirma que o ser humano é criado:

à imagem e semelhança de Deus.

A Teologia cristã vê aqui uma base profunda para compreender a dignidade humana.

Se Deus é comunhão, então a pessoa humana também não encontra a sua realização plena no isolamento absoluto.

Somos seres relacionais.

Precisamos de:

amor;

comunhão;

amizade;

família;

sociedade;

responsabilidade;

alteridade.


A Trindade e a antropologia

Aqui entramos novamente na:

Antropologia Teológica.

A pessoa humana não é simplesmente um indivíduo isolado.

É um ser chamado à relação.

A Trindade não significa que:

“Deus é uma família.”

Isso seria demasiado antropomórfico.

Mas significa que a comunhão pertence ao próprio modo de existência de Deus.

E isso ilumina profundamente a vocação humana para a comunhão.


A Trindade e a Igreja

Também a:

Eclesiologia

é trinitária.

A Igreja nasce do desígnio do Pai.

É fundada no acontecimento de Cristo.

É vivificada pelo Espírito.

Por isso a Igreja não pode ser compreendida apenas como associação religiosa.

É:

Povo de Deus.

Corpo de Cristo.

Templo do Espírito Santo.

Estas três imagens não competem.

Complementam-se.


A Trindade e a Liturgia

Toda a Liturgia possui estrutura trinitária.

Rezamos:

ao Pai

por Cristo

no Espírito Santo.

A doxologia litúrgica exprime esta dinâmica.

A Liturgia não é simplesmente uma reunião de pessoas que falam sobre Deus.

É participação sacramental na vida do Deus Trino.


O sinal da cruz

Talvez tenhamos diante de nós a fórmula trinitária mais repetida pelos cristãos:

“Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”

Reparemos no singular:

“em nome”.

Não diz:

“em nomes”.

É:

um nome.

Mas:

Pai, Filho e Espírito Santo.

A fórmula baptismal de Mateus está na raiz desta linguagem.


A oração cristã

A estrutura normal da oração cristã também é trinitária.

Dirigimo-nos:

ao Pai.

Por meio:

do Filho.

No poder e comunhão:

do Espírito Santo.

Isto não significa que seja proibido rezar directamente a Cristo ou invocar o Espírito.

Significa que toda a oração cristã participa da dinâmica trinitária.


O Pai-Nosso

Jesus ensina-nos:

“Pai nosso.”

Não começamos por:

“meu Deus distante”.

Começamos por:

Pai.

A oração cristã nasce da relação filial.

E essa filiação é possível porque participamos, pela graça, da filiação do próprio Cristo.

O Espírito torna possível esta relação.

São Paulo fala do Espírito que nos permite clamar:

“Abbá, Pai.”


A graça como participação

A graça não é simplesmente:

“Deus gosta de nós.”

É muito mais.

A graça é participação na vida divina.

O ser humano é chamado a entrar numa comunhão que ultrapassa aquilo que poderia alcançar pelas suas próprias forças.

A salvação cristã é, portanto:

comunhão com Deus.


Theosis

Na tradição cristã oriental existe um termo extraordinariamente importante:

theosis.

Pode ser traduzido por:

divinização ou deificação.

Não significa que o ser humano se torne Deus por natureza.

Significa participar, pela graça, da vida divina.

É uma das expressões mais profundas da finalidade da salvação:

Deus torna-nos participantes da sua própria vida.


A graça não elimina a criatura

A divinização não significa:

“deixo de ser humano e torno-me Deus.”

Isso seria impossível.

O Criador permanece Criador.

A criatura permanece criatura.

Mas a criatura pode participar realmente da vida divina pela graça.

É uma relação de participação, não de identidade ontológica.


A Trindade e a salvação

Agora podemos compreender a salvação de forma mais completa.

O Pai envia o Filho.

O Filho assume a nossa humanidade.

Cristo realiza a redenção.

O Espírito aplica e comunica essa graça.

Somos incorporados em Cristo.

Recebemos o Espírito.

Somos conduzidos ao Pai.

A salvação possui, portanto, uma estrutura:

do Pai → pelo Filho → no Espírito → para o Pai.


A Páscoa é trinitária

A morte e ressurreição de Cristo não podem ser isoladas da Trindade.

O Filho oferece-Se ao Pai.

O Pai ressuscita o Filho.

O Espírito é o Espírito da vida.

A Ressurreição revela o triunfo da vida divina.

A Páscoa é o centro da economia da salvação.

E o centro da economia é trinitário.


A Eucaristia

Na Eucaristia:

o Pai é glorificado;

o Filho torna presente sacramentalmente o seu Mistério Pascal;

o Espírito Santo é invocado;

a Igreja oferece a Deus a sua acção de graças em Cristo.

A Eucaristia é, portanto, uma das expressões mais perfeitas da vida trinitária da Igreja.


A Trindade e os sacramentos

Os sacramentos são celebrados:

em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O Baptismo introduz na vida trinitária.

A Confirmação comunica o Espírito.

A Eucaristia une-nos a Cristo.

A Reconciliação restaura a comunhão.

Toda a economia sacramental possui uma estrutura trinitária.


O destino final do ser humano

E finalmente chegamos à:

Escatologia.

Para onde caminhamos?

Para a comunhão definitiva com Deus.

A vida eterna não é simplesmente:

“existir para sempre.”

Uma existência eterna sem amor poderia ser uma eternidade vazia.

A esperança cristã é:

participar eternamente na vida de Deus.


O Céu

O Céu, na perspectiva cristã, é:

comunhão plena com Deus.

A tradição chama-lhe:

visão beatífica.

É contemplar Deus.

Conhecê-Lo.

Amá-Lo.

Participar da sua vida.

Não significa tornar-se Deus por natureza.

Significa entrar, pela graça, na comunhão para a qual fomos criados.


O Mistério diante do qual a inteligência se ajoelha

A Teologia pode:

definir conceitos;

estudar textos;

comparar concílios;

analisar termos gregos e latinos;

examinar controvérsias;

reconstruir desenvolvimentos históricos;

formular distinções.

Mas existe um ponto em que o intelecto reconhece:

não consegue abarcar Deus.

E isso não é fracasso.

É precisamente o reconhecimento da transcendência.


Fé e inteligência

A verdadeira fé não tem medo das perguntas.

Perguntar:

“Como?”

“Porquê?”

“O que significa?”

“De onde vem esta doutrina?”

não é falta de fé.

Pode ser precisamente o início de uma fé intelectualmente adulta.

A tradição católica nunca reduziu a fé à ausência de pensamento.

Pelo contrário:

a fé procura compreender.


Conhecer para amar

E chegamos novamente ao princípio que orienta todo este percurso.

Para amar, temos de conhecer.

Conhecer Deus não significa transformar Deus num objecto que possuímos intelectualmente.

Significa aproximarmo-nos do Mistério com:

razão;

humildade;

estudo;

oração;

silêncio;

fé.

A ignorância religiosa pode produzir uma fé vulnerável à superstição.

O sentimentalismo pode produzir uma fé dependente exclusivamente da emoção.

O intelectualismo pode produzir conhecimento sem conversão.

Precisamos das duas dimensões:

verdade e amor.


Uma Teologia verdadeiramente cristã

É por isso que estes textos devem ser construídos com rigor.

Não para transformar a fé numa competição intelectual.

Nem para demonstrar que sabemos mais do que os outros.

Mas para fazer aquilo que a própria tradição cristã sempre procurou fazer:

compreender aquilo em que acredita.

A fé merece estudo.

A fé merece rigor.

A fé merece perguntas.

A fé merece linguagem precisa.

E, acima de tudo, merece respeito.

Cada texto deve procurar distinguir:

doutrina;

opinião teológica;

Tradição;

interpretação;

história;

experiência devocional;

superstição.

Porque nem tudo aquilo que se diz “religioso” é necessariamente doutrina cristã.


Síntese final

Podemos agora reunir tudo numa única estrutura:

Deus é um.

Deus é Trindade.

O Pai é Deus.

O Filho é Deus.

O Espírito Santo é Deus.

O Pai não é o Filho.

O Filho não é o Espírito.

O Espírito não é o Pai.

Existe uma única essência divina.

Existem três Pessoas divinas.

As Pessoas distinguem-se pelas relações de origem.

O Filho é eternamente gerado pelo Pai.

O Espírito Santo procede eternamente.

As Pessoas divinas são eternamente inseparáveis na sua única vida divina.

Deus cria.

O Filho redime.

O Espírito santifica.

Mas:

Pai, Filho e Espírito Santo agem como o único Deus.


A grande síntese

A Trindade não é um problema matemático.

É o coração do Mistério cristão.

Não diz:

três deuses.

Não diz:

um Deus com três máscaras.

Não diz:

um Deus dividido em três partes.

Afirma:

Um único Deus em três Pessoas divinas, eternamente distintas e eternamente unidas na mesma natureza e essência divina.

O Pai envia o Filho.

O Filho realiza a salvação.

O Espírito torna presente e eficaz essa salvação.

A Igreja nasce desta economia.

Os sacramentos comunicam a graça.

A Liturgia celebra o Mistério.

A vida cristã participa dele.

E a esperança última é a comunhão plena com Deus.

Por isso, a Trindade não é uma doutrina colocada numa prateleira da Teologia.

É a estrutura profunda da própria fé cristã.

Quando dizemos:

“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”

não estamos simplesmente a terminar uma oração.

Estamos a confessar aquilo que está no centro de toda a existência cristã:

viemos do amor de Deus, somos chamados à comunhão com Deus e caminhamos para a plenitude da vida em Deus.

E talvez seja precisamente aqui que compreendamos melhor porque estudar religião com seriedade não diminui a fé.

A inteligência não é inimiga da fé.

Pode ser uma das suas formas mais nobres de serviço.

Porque uma fé que ama verdadeiramente não se contenta em repetir palavras que não compreende.

Pergunta.

Estuda.

Investiga.

Discernе.

E depois, diante daquilo que finalmente não consegue dominar, não desiste.

Adora.

Porque o objectivo último da Teologia não é fazer-nos donos de Deus.

É ensinar-nos a falar de Deus com verdade suficiente para não O deformarmos e com humildade suficiente para reconhecermos que o Mistério será sempre infinitamente maior do que aquilo que conseguimos dizer sobre Ele.

Para amar, temos de conhecer.

E quanto mais profundamente conhecemos, mais percebemos que conhecer Deus não é chegar ao fim do caminho.

É começar a entrar nele.

Próximo: Teologia da Criação — Deus, o mundo, o ser humano e o problema do mal

Vamos estudar criação ex nihilo, criaturas, providência, liberdade, imagem de Deus, finalidade da criação, relação entre fé e ciência, evolução, pecado, sofrimento e o problema filosófico e teológico do mal, distinguindo cuidadosamente aquilo que pertence à Revelação, à Filosofia e às interpretações científicas.

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