"Celestino V: o Centésimo Nonagésimo Papa da Igreja Católica"
Após a morte de Nicolau IV, a Igreja permaneceu mais de dois anos sem Papa. As divisões entre os cardeais, agravadas pelas rivalidades políticas italianas, tornaram impossível chegar rapidamente a uma eleição.
Finalmente, em 1294, foi escolhido Celestino V, o centésimo nonagésimo Papa da Igreja Católica.
O seu pontificado durou apenas alguns meses, mas tornou-se um dos episódios mais extraordinários da história do papado, sobretudo porque Celestino V renunciou voluntariamente ao cargo.
Origem e vida religiosa
Celestino V nasceu em 1215, em Sant'Angelo Limosano, no Reino da Sicília.
O seu nome era Pietro Angelerio, também conhecido como Pietro da Morrone.
Desde muito jovem demonstrou uma profunda inclinação para a vida ascética.
Retirou-se para as montanhas e viveu durante longos períodos como eremita, dedicando-se à:
- oração;
- penitência;
- jejum;
- silêncio;
- contemplação;
- pobreza voluntária.
A sua reputação de santidade espalhou-se rapidamente.
Muitos cristãos começaram a procurá-lo em busca de orientação espiritual.
A formação de uma comunidade religiosa
A sua fama levou outros homens a juntarem-se a ele.
Formou-se assim uma comunidade de eremitas que acabou por ser reconhecida pela Igreja.
Esta comunidade daria origem à congregação dos Celestinos, ligada à tradição beneditina.
Pietro pretendia preservar uma vida religiosa austera, centrada na oração e na penitência.
O seu modelo espiritual contrastava fortemente com a complexidade política e administrativa que caracterizava a Igreja do final do século XIII.
A longa crise do papado
Quando:
Nicolau IV
morreu, em 1292, os cardeais ficaram divididos.
Durante mais de dois anos, não conseguiram eleger um novo Papa.
A situação tornou-se cada vez mais grave.
Foi então que Pietro da Morrone enviou uma carta aos cardeais, advertindo-os sobre as consequências espirituais de prolongarem indefinidamente a vacância da Sé de Pedro.
A sua intervenção acabou por ter um efeito inesperado.
Os cardeais começaram a considerar precisamente aquele eremita como possível candidato.
A eleição de um eremita
Em 5 de julho de 1294, Pietro Angelerio foi eleito Papa.
Encontrava-se longe dos grandes centros políticos da Igreja e não era cardeal.
A escolha de um eremita extremamente austero para governar uma instituição complexa como a Igreja Católica foi extraordinária.
Adoptou o nome de Celestino V.
A sua eleição foi recebida por muitos fiéis como a chegada de um homem santo capaz de renovar espiritualmente a Igreja.
O contraste entre o eremita e o Papa
Aqui encontramos uma das grandes ironias históricas do seu pontificado.
Pietro era perfeitamente preparado para:
rezar, meditar, viver na pobreza e orientar espiritualmente pessoas.
Mas o papado exigia também:
diplomacia, administração, direito, finanças, nomeações, relações internacionais e gestão de conflitos políticos.
O mundo para o qual Celestino V foi chamado era radicalmente diferente da sua vida de eremita.
A distância entre essas duas realidades tornou-se rapidamente evidente.
A influência de Carlos II de Nápoles
Celestino V ficou também sob forte influência política de:
Carlos II de Nápoles
O novo Papa deslocou-se para Nápoles e instalou-se no:
Castelo Novo
em vez de permanecer em Roma.
A sua corte rapidamente se tornou alvo de críticas.
Alguns consideravam que pessoas próximas do Papa estavam a aproveitar-se da sua ingenuidade política.
Nomeações e reformas
Celestino V procurou responder à crise da Igreja através de medidas de reforma.
Nomeou numerosos cardeais e tentou reforçar a disciplina eclesiástica.
Também procurou garantir melhores condições para os religiosos que desejavam viver uma vida de maior austeridade.
Contudo, as suas decisões nem sempre foram bem coordenadas.
A administração da Igreja continuava a exigir uma experiência que o antigo eremita não possuía.
O desejo de regressar à vida contemplativa
Pouco depois de ser eleito, Celestino começou a compreender uma realidade dolorosa:
não desejava ser Papa.
A sua vocação continuava a ser a vida contemplativa.
O peso administrativo, político e espiritual do cargo tornou-se cada vez mais difícil para ele.
Começou então a considerar a possibilidade de renunciar.
A consulta aos canonistas
Celestino consultou especialistas em direito canónico sobre a possibilidade de um Papa abdicar.
A questão era extremamente delicada.
Embora existissem precedentes de renúncias de bispos e outras autoridades eclesiásticas, a renúncia de um Papa levantava uma questão fundamental:
pode aquele que ocupa a Sé de Pedro deixar voluntariamente o cargo?
A resposta foi considerada afirmativa.
A renúncia
Em 13 de dezembro de 1294, Celestino V promulgou formalmente a sua renúncia.
O documento apresentava razões relacionadas com:
- humildade;
- fraqueza pessoal;
- desejo de regressar à vida contemplativa;
- incapacidade de desempenhar adequadamente as responsabilidades do cargo.
Assim, depois de aproximadamente cinco meses, deixou de ser Papa.
É um dos casos mais famosos de renúncia papal na história.
O sucessor: Bonifácio VIII
Depois da renúncia, foi eleito:
Bonifácio VIII
A relação entre os dois tornar-se-ia complicada.
Bonifácio temia que os partidários de Celestino utilizassem a sua figura para questionar a legitimidade da nova eleição.
Por isso, decidiu manter Celestino sob vigilância.
A prisão de Celestino
Celestino tentou regressar à vida eremítica.
Contudo, acabou por ser capturado e colocado sob custódia.
Foi levado para o:
Castelo de Fumone
onde permaneceu até à morte.
Viveu ali em condições bastante austeras.
Continuou a rezar e a levar uma vida semelhante à que tinha levado antes de ser Papa.
Morte
Celestino V morreu em 19 de maio de 1296, no Castelo de Fumone.
Tinha cerca de 80 anos.
Foi sepultado inicialmente na:
Basílica de Santa Maria di Collemaggio
onde já existia uma forte ligação entre a sua figura e a espiritualidade celestina.
Canonização
A fama de santidade de Celestino cresceu rapidamente.
Foi canonizado em 1313 pelo Papa Clemente V.
Passou a ser conhecido como São Pedro Celestino.
A sua festa litúrgica é celebrada a 19 de maio.
Dante e a famosa referência
Celestino V aparece também na:
Divina Comédia
de Dante Alighieri.
No Inferno, Dante apresenta uma personagem que muitos estudiosos identificam com Celestino como aquele que fez a "grande recusa".
A identificação não é absolutamente consensual, mas tradicionalmente esta passagem foi associada à renúncia de Celestino.
O significado histórico da sua renúncia
A renúncia de Celestino V estabeleceu um precedente extraordinariamente importante.
Demonstrou que, em determinadas circunstâncias, um Papa poderia renunciar validamente ao ministério petrino.
Séculos mais tarde, a questão voltaria a ganhar enorme relevância com outras renúncias papais.
A mais conhecida na época contemporânea seria a de:
Bento XVI
em 2013.
Um Papa santo que descobriu que não era a sua vocação
Talvez a característica mais humana da história de Celestino V esteja precisamente aqui.
Ele não procurou o papado.
Não construiu uma carreira para chegar à Sé de Pedro.
Não era um cardeal ambicioso nem um grande diplomata.
Era um eremita.
Quando a Igreja o colocou no centro do seu poder, descobriu que a sua vocação pessoal não correspondia à função institucional que lhe tinha sido confiada.
E teve a coragem — ou, segundo os seus críticos, a incapacidade — de reconhecer isso.
Conclusão
Assim, o centésimo nonagésimo Papa da Igreja Católica foi Celestino V, o eremita que chegou à Sé de Pedro e, poucos meses depois, decidiu abandoná-la.
A sua história é extraordinária porque coloca diante de nós uma questão profundamente humana e espiritual: nem sempre aquilo que os outros consideram uma honra corresponde à vocação daquele que a recebe.
Celestino V procurou regressar ao silêncio, à oração e à vida contemplativa que conhecia. A sua renúncia tornou-se um precedente histórico para o papado e a sua posterior canonização confirmou que, para a Igreja, abandonar o poder não significava necessariamente abandonar a santidade.
O próximo Papa será Bonifácio VIII, uma figura completamente diferente — poderoso, ambicioso, profundamente envolvido na política europeia e protagonista de um dos maiores confrontos entre papado e poder secular da Idade Média.
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