"Cansativo, mas, bom"

 Hoje foi um daqueles dias cansativos, daqueles que nos deixam o corpo a pedir descanso e a cabeça a precisar de silêncio. Mas foi também um dia profundamente gratificante, porque há cansaços que não pesam da mesma maneira quando sentimos que, no meio deles, alguma coisa finalmente encontrou o seu lugar.

Acho que hoje o meu filho conseguiu arrumar algumas coisas dentro dele.

Havia sentimentos que estavam guardados, pensamentos que talvez tivesse aprendido a calar, coisas que foi suportando sem saber muito bem onde as colocar. E hoje parece-me que alguma coisa se reorganizou. Como se, finalmente, tivesse conseguido olhar para determinadas situações e perceber aquilo que talvez precisasse de ouvir há muito tempo:

não foi culpa dele.

Não havia nada de errado com ele.

Não fez nada de errado.

Não precisava de carregar culpas que não lhe pertenciam, nem de procurar dentro de si uma explicação para coisas que estavam para além dele.

E há uma diferença enorme entre uma criança ouvir estas palavras e realmente conseguir senti-las como verdade.

Porque podemos dizer muitas vezes a alguém que não tem culpa. Podemos explicar, racionalizar, tranquilizar. Mas há verdades que só chegam verdadeiramente quando alguma coisa dentro de nós está preparada para as receber.

Hoje acho que ele conseguiu receber essa verdade.

E, para uma mãe, há poucas coisas mais importantes do que assistir a esse momento.

Não posso apagar aquilo que ele sentiu.

Não posso voltar atrás e reorganizar acontecimentos.

Não posso proteger os meus filhos de todas as dores, de todas as injustiças ou de todas as incompreensões que a vida inevitavelmente lhes trará.

Mas posso estar presente.

Posso escutá-lo.

Posso ajudá-lo a distinguir culpa de responsabilidade, erro de identidade, aquilo que fez daquilo que lhe fizeram sentir.

E posso lembrá-lo, quantas vezes forem necessárias, de que ele não precisa de se tornar menos ele próprio para caber na interpretação de ninguém.

Talvez seja também isto que tenho aprendido na minha caminhada de fé.

Ser católica não me tornou perfeita — longe disso. Tornou-me, isso sim, mais consciente da necessidade de aprender a amar quando seria muito mais fácil reagir.

Ensinou-me a ser mais tolerante, mais paciente, a respirar antes de responder, a olhar para além da primeira reacção e, sobretudo, a perceber que há momentos em que amar significa escolher aquilo que verdadeiramente importa.

E, para mim, a família está no centro disso.

Não como uma frase bonita, mas como uma escolha diária.

Escolher estar.

Escolher ouvir.

Escolher compreender.

Escolher não transformar cada conflito numa batalha que alguém tem obrigatoriamente de ganhar.

Escolher proteger sem sufocar, orientar sem impor, corrigir sem humilhar e amar sem exigir perfeição.

O amor também é isto: ajudar alguém a devolver a si próprio aquilo que nunca deveria ter perdido — a certeza de que tem valor.

Hoje estou cansada.

Mas é um cansaço bom.

Daqueles que nos fazem perceber que, apesar de tudo o que ainda falta aprender, alguma coisa avançou.

Talvez o meu filho tenha arrumado uma gaveta dentro dele.

E talvez eu tenha arrumado outra dentro de mim.

Porque ser mãe também é aprender continuamente a distinguir aquilo que posso resolver daquilo que apenas posso acompanhar com amor.

E, no fim de um dia assim, percebo novamente que a fé não me ensinou a ter uma vida sem dificuldades.

Ensinou-me outra coisa, muito mais exigente:

ensinou-me a não deixar que as dificuldades me façam esquecer quem amo, aquilo em que acredito e aquilo que realmente importa.

Hoje foi cansativo.

Mas foi um daqueles dias em que o cansaço valeu a pena.

Porque há dias em que não conseguimos mudar o mundo.

Conseguimos apenas ajudar uma pessoa que amamos a perceber que ela nunca foi o problema.

E, às vezes, isso já é uma pequena forma de milagre.

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