"Bento XI — o 194.º Papa da Igreja Católica"
Há aqui uma pequena correcção importante à numeração que vínhamos a utilizar: segundo a lista oficial do Vaticano, Bento XI é o 194.º Papa da Igreja Católica, e não o 192.º. A sequência oficial coloca Celestino V como 192.º, Bonifácio VIII como 193.º e Bento XI como 194.º.
Bento XI foi um papa de transição. O seu pontificado durou apenas cerca de oito meses, mas situa-se num dos momentos mais delicados da história medieval do papado: imediatamente depois da violenta crise entre Bonifácio VIII e o rei francês Filipe IV de França.
Quem era Bento XI?
O seu nome de nascimento era Niccolò di Boccasio, também encontrado como Niccolò Boccasini. Nasceu em Treviso, no norte de Itália, provavelmente por volta de 1240. O próprio Vaticano identifica Treviso como o seu local de nascimento e Niccolò di Boccasio como o seu nome secular.
Pertencia a uma família de condição relativamente modesta e entrou muito jovem na Ordem dos Pregadores, isto é, nos Dominicanos.
A sua formação religiosa e intelectual seria determinante para a sua carreira. Não era um príncipe italiano nem pertencia a uma das grandes famílias aristocráticas que tantas vezes condicionavam a política pontifícia medieval.
Era, sobretudo, um religioso, teólogo e homem de Igreja.
Foi professor, superior dentro da Ordem Dominicana e chegou a ocupar funções de grande responsabilidade. A sua competência intelectual e a sua experiência administrativa fizeram-no subir progressivamente na hierarquia eclesiástica.
A ascensão dentro da Igreja
Niccolò Boccasini desenvolveu uma carreira profundamente ligada aos Dominicanos.
A Ordem dos Pregadores tinha adquirido enorme importância durante os séculos XIII e XIV. Os Dominicanos estavam ligados ao ensino, à pregação, à teologia e à defesa intelectual da fé católica.
Boccasini tornou-se uma figura respeitada dentro da ordem e chegou a ser Mestre-Geral dos Dominicanos.
Este aspecto é particularmente importante para compreender Bento XI.
Ele não chegou ao papado através de uma carreira essencialmente política.
Chegou através de uma carreira religiosa, intelectual e administrativa.
Em 1298, Bonifácio VIII criou-o cardeal.
Dois anos depois, em 1300, tornou-se cardeal-bispo de Óstia, uma das dignidades mais importantes do Colégio Cardinalício.
Assim, quando morreu Bonifácio VIII, Bento XI já era uma das figuras mais importantes da Igreja.
O contexto terrível em que foi eleito
Para compreender Bento XI, é indispensável compreender o que acabara de acontecer.
Bonifácio VIII tinha defendido de maneira extremamente vigorosa a autoridade do papado sobre os poderes seculares.
O conflito com Filipe IV de França tornou-se cada vez mais violento.
A situação atingiu o ponto máximo em 1303, quando agentes ligados ao rei francês participaram da agressão contra Bonifácio VIII em Anagni.
Bonifácio foi capturado e humilhado.
Embora tenha sido libertado pouco depois, a experiência abalou profundamente o pontífice.
Morreu em 11 de Outubro de 1303.
A Igreja encontrava-se então numa situação extremamente delicada.
O novo papa precisava de enfrentar simultaneamente:
- a crise com a monarquia francesa;
- as consequências da agressão contra Bonifácio VIII;
- a divisão dentro do próprio Colégio Cardinalício;
- a questão dos Colonna;
- a autoridade da Santa Sé;
- e o risco de uma ruptura política ainda maior entre França e papado.
É neste cenário que aparece Bento XI.
A eleição
Bento XI foi eleito papa em Outubro de 1303, pouco depois da morte de Bonifácio VIII.
O Vaticano regista o início do pontificado em 22/27 de Outubro de 1303 e o seu término em 7 de Julho de 1304.
Escolheu o nome Bento XI.
E a escolha não significava simplesmente continuidade.
Bento XI tinha sido colaborador de Bonifácio VIII, mas compreendia que a estratégia do seu antecessor tinha deixado a Igreja numa situação extraordinariamente perigosa.
Era necessário encontrar uma saída.
E Bento XI procurou-a através da conciliação.
Bento XI e Filipe IV
Este foi o grande problema do seu pontificado.
O novo papa procurou restaurar a paz entre a Santa Sé e a monarquia francesa.
Filipe IV de França enviou representantes para felicitar o novo pontífice e apresentar-se novamente como filho obediente da Igreja.
Bento XI percebeu que continuar a política de confronto directo de Bonifácio VIII poderia conduzir a uma crise ainda mais profunda.
Por isso, adoptou uma política de indulgência e reconciliação.
Absolveu Filipe e os seus súbditos das censuras e procurou restituir à França os direitos e privilégios de que tinha sido privada durante o conflito com Bonifácio VIII.
Isto não significava que Bento XI considerasse correcta a agressão contra o seu predecessor.
É justamente aqui que a sua política se torna interessante.
Ele tentou perdoar sem apagar a autoridade da Igreja.
E os responsáveis pela agressão contra Bonifácio?
Bento XI estabeleceu uma distinção.
Foi conciliador com Filipe IV e com determinados membros da família Colonna, mas não concedeu simplesmente uma amnistia universal aos responsáveis pela violência de Anagni.
Entre os principais nomes encontravam-se:
- Guilherme de Nogaret, jurista e conselheiro de Filipe IV;
- Sciarra Colonna, membro da poderosa família Colonna.
Bento XI manteve-os sob censura e convocou-os a responder perante o tribunal pontifício.
Isto revela algo importante sobre o seu pensamento.
Bento XI não pretendia simplesmente dizer:
“Tudo está perdoado.”
Pretendia reconstruir a paz sem transformar a reconciliação numa capitulação da Igreja.
Uma Igreja entre autoridade e diplomacia
O pontificado de Bento XI pode ser compreendido como uma tentativa de equilibrar duas necessidades.
Por um lado:
a Igreja não podia aceitar que um rei atacasse o Papa impunemente.
Por outro:
o papado não podia permanecer eternamente numa guerra política com uma das maiores monarquias da Europa.
Bento XI procurou uma terceira via.
Não abandonou completamente a memória e a autoridade de Bonifácio VIII.
Mas também não quis perpetuar a confrontação.
Esta diferença é fundamental.
Bonifácio VIII tinha representado uma concepção extremamente forte da supremacia pontifícia.
Bento XI representou, pelo menos durante o breve tempo em que governou, uma tentativa de recompor aquilo que a confrontação tinha destruído.
Um papa dominicano
A identidade dominicana de Bento XI também é importante.
Ele pertenceu a uma das grandes ordens intelectuais da Igreja medieval.
Os Dominicanos estavam profundamente ligados à teologia escolástica e à universidade medieval.
A sua formação ajuda a compreender um pontificado marcado menos pela construção de grandes programas políticos e mais pela tentativa de resolver uma crise através da prudência e da negociação.
A tradição atribui-lhe também escritos teológicos e sermões. A Catholic Encyclopedia menciona uma colecção de sermões e comentários relacionados com o Evangelho de São Mateus, os Salmos, o Livro de Job e o Apocalipse.
Um pontificado demasiado curto
Bento XI não teve tempo para concretizar um verdadeiro programa de governo.
O seu pontificado terminou inesperadamente em 7 de Julho de 1304, em Perugia.
Tinha governado a Igreja durante apenas cerca de oito meses.
E aqui aparece um dos episódios mais controversos da sua biografia.
A sua morte repentina deu origem à suspeita de que teria sido envenenado.
Durante séculos circularam acusações segundo as quais agentes ligados a Filipe IV ou a Guilherme de Nogaret poderiam estar envolvidos.
Mas é necessário separar tradição histórica de facto comprovado.
Não existe prova conclusiva de que Bento XI tenha sido assassinado.
Portanto, podemos afirmar que a hipótese de envenenamento surgiu e foi historicamente difundida, mas não deve ser apresentada como facto estabelecido.
A beatificação
Bento XI não foi canonizado, mas foi beatificado em 1773.
É venerado como Beato Bento XI, particularmente na tradição dominicana.
A sua memória litúrgica é celebrada em 7 de Julho, data da sua morte.
A sua figura ficou, assim, associada a uma imagem de religioso culto, prudente e conciliador.
O significado histórico de Bento XI
À primeira vista, Bento XI poderia parecer um papa secundário.
Afinal, governou a Igreja durante apenas oito meses.
Mas historicamente isso seria um erro.
O seu pontificado encontra-se precisamente numa dobradiça da História.
Antes dele:
Bonifácio VIII → confronto com a França → Anagni → crise da autoridade pontifícia.
Depois dele:
Clemente V → crescente influência francesa → transferência da residência pontifícia para Avinhão.
Por isso, Bento XI é uma espécie de ponte entre duas épocas.
Tentou impedir que a ruptura entre papado e França se aprofundasse.
Não conseguiu resolver definitivamente o problema.
E depois da sua morte, a situação evoluiu para uma transformação gigantesca da história da Igreja.
A morte de Bento XI e o caminho para Avinhão
Depois da morte de Bento XI, os cardeais tiveram novamente dificuldades em chegar a um acordo.
O conclave prolongou-se.
Finalmente, em 1305, seria eleito Clemente V, originalmente Bertrand de Got, arcebispo de Bordéus.
A eleição de Clemente V abriria uma nova etapa.
O novo papa acabaria por estabelecer a residência pontifícia em Avinhão, dando início ao período que a historiografia tradicionalmente chama Papado de Avinhão.
Por isso, Bento XI pode ser visto como o último momento em que ainda se tentou recuperar o equilíbrio anterior à grande transformação do século XIV.
O que distingue Bento XI de Bonifácio VIII?
A comparação é inevitável.
| Bonifácio VIII | Bento XI |
|---|---|
| Forte afirmação da autoridade pontifícia | Procura de reconciliação |
| Confronto com Filipe IV | Diplomacia com Filipe IV |
| Linguagem política e jurídica muito forte | Prudência e moderação |
| Unam Sanctam | Política de pacificação |
| Conflito crescente | Tentativa de reparar a ruptura |
| Pontificado de quase nove anos | Pontificado de cerca de oito meses |
Mas seria injusto transformar Bento XI simplesmente no “anti-Bonifácio”.
Ele não repudiou a dignidade do papado.
O que mudou foi sobretudo a estratégia para defender essa dignidade.
Uma leitura teológica
Existe aqui uma questão profundamente interessante.
A autoridade da Igreja não se manifesta apenas através da capacidade de impor.
Também pode manifestar-se através da capacidade de reconciliar.
Bento XI encontrou uma Igreja ferida.
Tinha diante de si uma questão que não era apenas política.
Era também eclesiológica:
Como pode a Igreja defender a sua autoridade sem transformar a autoridade numa guerra permanente?
A resposta de Bento XI foi procurar a paz.
Mas essa paz tinha limites.
Perdoar Filipe IV não significava declarar legítima a agressão contra Bonifácio VIII.
E punir determinados responsáveis não significava continuar indefinidamente a guerra.
Esta tensão entre justiça, autoridade, misericórdia e reconciliação atravessa toda a história da Igreja.
Legado
Bento XI deixou uma marca muito diferente da do seu predecessor.
Não ficou conhecido por grandes bulas ou por uma afirmação espectacular do poder pontifício.
Ficou conhecido sobretudo pela tentativa de reparar uma ruptura.
Foi:
- dominicano;
- teólogo;
- cardeal;
- bispo de Óstia;
- papa;
- homem de reconciliação;
- e uma figura de transição entre Bonifácio VIII e a crise que conduziria ao Papado de Avinhão.
O Vaticano confirma oficialmente que Bento XI foi o 194.º Papa, com pontificado de 22/27 de Outubro de 1303 a 7 de Julho de 1304.
Conclusão
Bento XI foi um papa que teve pouquíssimo tempo para governar e um problema enorme para resolver.
Recebeu uma Igreja politicamente ferida, uma relação profundamente deteriorada com a monarquia francesa e as consequências de um ataque sem precedentes contra o seu predecessor.
Escolheu a reconciliação.
Não teve tempo de saber se a sua estratégia conseguiria realmente restaurar a autoridade da Santa Sé.
Morreu antes de poder concluir a obra.
E a História seguiu por outro caminho.
Depois de Bento XI virá Clemente V — e com ele entraremos num dos capítulos mais controversos e decisivos da história do papado: a deslocação da sede pontifícia para Avinhão.
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