"Um dia vais perceber que não precisavas de ter corrido tanto"
Não leias apenas o que escrevo.
Sente.
Lê devagar. Não como quem percorre palavras num ecrã, mas como quem, por alguns minutos, se senta diante da própria vida e tem coragem de olhar para ela sem a pressa habitual.
Porque talvez isto não seja sobre mim.
Talvez seja sobre ti.
Sobre aquilo que tens feito com os teus dias.
Sobre a quantidade de vezes que disseste «depois» quando, no fundo, querias dizer «agora».
Sobre todas as vezes em que te convenceste de que ainda não era o momento.
E talvez seja.
Talvez o momento seja precisamente este.
Corremos muito.
Eu sei.
Mais do que aquilo que admitimos.
Corremos para trabalhar, para pagar, para construir, para garantir, para melhorar, para chegar mais longe. Corremos para que os nossos filhos tenham mais. Para termos uma casa melhor. Para conseguirmos aquela viagem. Para podermos finalmente descansar. Para chegarmos a uma idade em que, supostamente, teremos tempo.
E eu compreendo.
Também tenho responsabilidades.
Também tenho coisas para fazer, contas, preocupações, obrigações e dias em que parece que vinte e quatro horas foram uma brincadeira de mau gosto do calendário.
Não estou a defender uma vida irresponsável, sem trabalho, sem planos ou sem preocupação com o amanhã.
Estou a falar de outra coisa.
Estou a falar daquele momento subtil em que preparar a vida começa a substituir a própria vida.
É aí que precisamos de ter cuidado.
Porque podemos passar anos a construir uma existência maravilhosa para, um dia, descobrirmos que estivemos demasiado ocupados a construí-la para realmente a viver.
Há uma frase que me inquieta particularmente:
Corres para construir um futuro sem sequer saberes se estarás nele.
Pára aqui.
Lê novamente.
Não é pessimismo.
É realidade.
Nós fazemos planos como se tivéssemos recebido uma garantia.
"Quando tiver isto, faço aquilo."
"Quando acabar aquilo, descanso."
"Quando tiver mais dinheiro, viajo."
"Quando tiver mais tempo, estou com os meus."
"Quando os problemas diminuírem, aproveito."
"Quando a vida estiver mais calma, vivo."
E continuamos.
O problema é que a vida raramente fica suficientemente calma para nos autorizar a começar.
Há sempre qualquer coisa.
Sempre.
Uma conta.
Uma consulta.
Um trabalho.
Uma preocupação.
Uma pessoa que precisa de nós.
Uma coisa por arrumar.
Um problema para resolver.
E, quando finalmente terminamos uma coisa, aparece outra.
Se esperarmos que tudo esteja resolvido para viver, podemos morrer com a casa perfeitamente arrumada e a vida por estrear.
Há pessoas que sabem muito bem ganhar dinheiro, mas não sabem usufruir de uma tarde.
Sabem construir património, mas não sabem construir memórias.
Sabem cumprir horários, mas não sabem estar presentes.
Sabem planear cinco anos da vida, mas não conseguem sentar-se vinte minutos sem sentir culpa.
E isto é estranho.
Porque passámos tanto tempo a aprender a produzir que, por vezes, esquecemos uma coisa muito simples:
somos seres humanos, não máquinas de desempenho.
Não fomos feitos apenas para produzir resultados.
Fomos feitos para sentir.
Para amar.
Para criar vínculos.
Para contemplar.
Para rir até nos doer a barriga.
Para conversar sem olhar para o relógio.
Para andar sem destino.
Para ficar em silêncio.
Para rezar.
Para pensar.
Para abraçar.
Para olhar para alguém e perceber que, naquele instante, não precisamos de estar em nenhum outro lugar.
E eu acho que existe uma violência silenciosa na forma como, muitas vezes, nos tratamos.
Somos capazes de compreender que uma criança precisa de descanso.
Que um animal precisa de repouso.
Que uma máquina aquece se trabalhar continuamente.
Mas connosco exigimos o impossível.
Mais.
Mais depressa.
Melhor.
Mais cedo.
Mais perfeito.
Mais produtividade.
Mais resultados.
Mais responsabilidade.
E quando finalmente conseguimos aquilo que queríamos, em vez de dizermos:
«Consegui. Que bom.»
perguntamos:
«E agora, qual é o próximo?»
É assim que podemos passar uma vida inteira a chegar e nunca sentir que chegámos.
Há uma altura em que precisamos de parar de ser a pessoa que está sempre a tentar provar que consegue.
Não precisamos de estar permanentemente a demonstrar força.
Não precisamos de justificar o nosso valor através do cansaço.
E, sobretudo, não precisamos de sentir vergonha por descansar.
Descansar não é desistir.
Parar não significa fracassar.
Ter tempo para nós não significa egoísmo.
Há uma diferença entre abandonar as responsabilidades e reconhecer que também somos uma delas.
Tu também precisas de ti.
E depois existe aquela verdade que custa aceitar:
somos substituíveis.
No emprego, alguém ocupará a nossa cadeira.
Numa função, alguém continuará.
Num projecto, alguém dará seguimento.
Na vida dos outros, as rotinas reorganizar-se-ão.
O mundo tem uma capacidade assustadora de continuar.
E, estranhamente, esta ideia que inicialmente parece triste pode tornar-se libertadora.
Porque significa que não precisas de viver convencido de que tudo depende de ti.
Não precisas de responder a tudo.
Não precisas de estar disponível para todos.
Não precisas de salvar o mundo enquanto deixas a tua própria vida para trás.
O teu lugar pode ser ocupado.
Mas a tua vida não pode ser vivida por outra pessoa.
Essa é a diferença.
Alguém poderá fazer o teu trabalho.
Mas ninguém poderá viver o teu dia por ti.
Ninguém poderá abraçar os teus filhos em teu lugar.
Ninguém poderá sentir exactamente aquilo que sentes diante de uma determinada paisagem.
Ninguém poderá rezar a tua oração.
Ninguém poderá escrever as tuas palavras.
Ninguém poderá recuperar uma tarde que decidiste não viver.
E é aqui que tudo se torna sério.
Porque o tempo não devolve trocos.
Aquilo que passou, passou.
Podemos guardar fotografias.
Podemos guardar mensagens.
Podemos guardar objectos.
Podemos contar histórias.
Podemos voltar aos lugares.
Mas não conseguimos voltar exactamente àquele instante.
Podemos regressar à praia.
Mas não àquela tarde.
Podemos visitar novamente uma cidade.
Mas não àquela viagem.
Podemos abraçar uma pessoa.
Mas não aquele abraço específico.
Podemos ouvir novamente uma música.
Mas não voltar a ouvi-la pela primeira vez.
Há momentos que só existem uma vez.
E nós tratamo-los muitas vezes como se fossem infinitamente renováveis.
Uma criança cresce enquanto estamos a trabalhar.
Os pais envelhecem enquanto estamos ocupados.
Os amigos mudam de vida enquanto adiamos aquele café.
Os casamentos atravessam anos enquanto vamos dizendo:
"Depois temos tempo para nós."
E, um dia, percebemos que não temos fotografias suficientes de determinadas fases.
Não porque não tenhamos estado lá.
Mas porque estivemos lá com a cabeça noutro sítio.
E esta talvez seja uma das maiores perdas da nossa época:
não a falta de tempo, mas a falta de presença.
Estamos fisicamente num lugar e mentalmente a resolver outro.
Estamos a jantar e a pensar no trabalho.
Estamos com os filhos e a responder a mensagens.
Estamos de férias e preocupados com o regresso.
Estamos numa conversa e a pensar naquilo que temos de fazer amanhã.
Até descansamos com culpa.
Como se a nossa consciência tivesse aprendido que estar parado é estar a falhar.
Mas a vida não acontece apenas nos momentos extraordinários.
Aliás, suspeito que, no fim, vamos sentir mais saudades das coisas absolutamente banais.
Do cheiro da casa.
Da voz de alguém.
De uma gargalhada na cozinha.
De uma ida ao supermercado.
Daquela conversa absurda que tivemos no carro.
De uma criança a chamar-nos.
Do café tomado sem pressa.
Da pessoa que se sentava ao nosso lado no sofá.
Da rotina que tantas vezes desejámos abandonar.
E talvez um dia percebamos:
era aquilo.
Não era a grande viagem.
Não era o carro.
Não era o dinheiro.
Não era o reconhecimento.
Não era a fotografia perfeita.
Era aquela terça-feira banal em que todos estavam em casa.
Era aquela noite em que ninguém tinha nada de especial para fazer.
Era aquele abraço.
Era aquela conversa.
Era aquela pessoa.
Era a vida.
Tudo o que possuímos é temporário.
E eu não digo isto para retirar valor às coisas.
Muito pelo contrário.
Digo-o para que lhes demos o valor certo.
Uma casa é maravilhosa.
Um carro pode ser maravilhoso.
Uma viagem pode ser inesquecível.
Um emprego pode dar-nos dignidade e segurança.
O dinheiro pode proporcionar liberdade.
As conquistas podem dar-nos orgulho.
Mas nada disso nos pertence para sempre.
Somos apenas guardiões temporários de quase tudo aquilo a que chamamos meu.
Até o nosso próprio corpo nos é emprestado pelo tempo.
Um dia fomos crianças.
Depois adolescentes.
Depois adultos.
E quase sem percebermos, estamos a olhar para fotografias antigas e a perguntar:
«Como é que isto passou tão depressa?»
Passou porque o tempo não pede licença.
Por isso, talvez seja necessário aprender uma coisa muito difícil:
usufruir sem esperar que tudo esteja perfeito.
Não esperes pelo dia perfeito para fazer aquela viagem.
Não esperes pelo momento perfeito para telefonar.
Não esperes ter dinheiro suficiente para todas as experiências.
Não esperes que a casa esteja impecável para receber quem amas.
Não esperes perder cinco quilos para gostares de uma fotografia.
Não esperes ter menos trabalho para brincar.
Não esperes estar completamente descansado para viver.
Porque a perfeição é uma excelente desculpa para a procrastinação.
E a vida não é perfeita.
Nunca foi.
Nunca será.
É precisamente essa imperfeição que a torna vida.
Há ainda outra coisa que aprendi:
não é preciso ter muito para viver muito.
Há experiências que custam dinheiro.
Claro que sim.
Mas muitas das coisas que ficam connosco não custaram absolutamente nada.
Uma caminhada.
Um mergulho.
Uma conversa.
Uma gargalhada.
Uma oração.
Uma tarde com quem amamos.
Um pôr-do-sol.
Um livro.
Uma fotografia.
Um abraço demorado.
Uma mesa com pessoas à volta.
Uma criança feliz.
Um amigo que aparece.
Um marido que nos abraça.
Há uma riqueza que não aparece em extractos bancários.
E talvez seja uma das mais importantes.
Também não precisamos de ter uma vida extraordinária para ter uma vida bonita.
Precisamos de estar atentos.
Porque há pessoas que atravessam continentes e não vêem nada.
E há pessoas que caminham pela própria rua e descobrem o mundo.
A diferença está no olhar.
A felicidade, muitas vezes, não exige uma mudança radical de vida.
Exige uma mudança radical de atenção.
Começar a reparar.
Na luz.
No cheiro.
Na voz.
Na pessoa que está ao nosso lado.
Naquilo que antes passava despercebido.
Naquilo que julgávamos garantido.
E talvez seja aqui que eu encontro a parte mais bonita de tudo isto.
Não quero apenas ter vivido muito. Quero ter estado presente enquanto vivi.
Quero lembrar-me.
Quero sentir.
Quero ter histórias para contar.
Quero fotografias, mas também quero memória.
Quero conquistas, mas também quero pessoas.
Quero trabalhar, mas também quero usufruir do resultado do meu trabalho enquanto tenho vida para o fazer.
Quero pensar no amanhã, mas não quero entregar-lhe todos os meus dias de hoje.
Quero chegar longe.
Mas quero olhar para trás e reconhecer o caminho.
Quero construir.
Mas também quero habitar.
Quero cuidar dos outros.
Mas não quero desaparecer de mim.
Quero envelhecer.
Mas não quero descobrir, aos sessenta ou aos oitenta anos, que passei a juventude inteira a esperar pela autorização para viver.
E se amanhã chegar?
Óptimo.
Que me encontre preparada.
Mas que não me encontre arrependida de ter desperdiçado hoje.
Que encontre uma pessoa que trabalhou, sim, mas que também amou.
Que encontrou tempo.
Que abraçou.
Que viajou quando pôde.
Que riu.
Que chorou.
Que rezou.
Que escreveu.
Que teve medo.
Que tentou.
Que falhou.
Que voltou a tentar.
Que se permitiu descansar.
Que disse «não» quando precisava.
Que disse «amo-te» quando sentiu.
Que não deixou todas as palavras importantes para depois.
Porque o depois é uma palavra perigosíssima.
Depois telefono.
Depois vou.
Depois faço.
Depois descanso.
Depois conversamos.
Depois viajamos.
Depois aproveito.
Depois escrevo.
Depois rezo.
Depois tenho tempo.
E um dia percebemos que passámos anos a construir uma ponte para um lugar chamado depois.
E ninguém nos garantiu que a ponte chegaria lá.
Por isso, se estás cansada, descansa.
Se amas alguém, diz.
Se tens saudades, procura.
Se podes viajar, viaja.
Se não podes, encontra beleza onde estás.
Se tens filhos, está verdadeiramente com eles.
Se tens pais, escuta-os.
Se tens amigos, aparece.
Se tens um companheiro, não deixes que a rotina transforme a presença dele em mobília emocional.
Se tens um sonho, começa.
Mesmo pequeno.
Mesmo imperfeito.
Se precisas de silêncio, procura-o.
Se precisas de oração, reza.
Se precisas de escrever, escreve.
Se precisas de chorar, chora.
E se hoje não consegues fazer nada disso, pelo menos pára alguns minutos e respira.
Não tens de conquistar o mundo todos os dias.
Alguns dias basta não te perderes de ti.
E talvez amanhã seja tarde.
Ou talvez não seja.
Não sabemos.
Essa é precisamente a questão.
Não sabemos.
E é por não sabermos que hoje importa tanto.
Não para vivermos aterrorizados com a morte, mas para deixarmos de tratar a vida como um ensaio.
Não estamos a ensaiar.
Isto é a vida.
Esta conversa.
Este dia.
Esta casa.
Estas pessoas.
Este corpo.
Este momento.
Esta oportunidade.
Este amor.
Esta saudade.
Esta fotografia.
Esta lágrima.
Esta gargalhada.
Este texto que estás agora a ler.
Tudo isto está a acontecer uma única vez.
E talvez, daqui a muitos anos, tenhas saudades precisamente deste dia.
Mesmo com os problemas.
Mesmo com as preocupações.
Mesmo com aquilo que hoje gostarias de mudar.
Porque um dia vais olhar para trás e perceber que também eras feliz em momentos que não sabias que eram felicidade.
E é por isso que hoje te digo:
não esperes perder alguma coisa para perceber que a tinhas.
Olha agora.
Repara.
Agradece.
Ama.
Vive.
E continua a construir o amanhã, claro.
Mas, enquanto colocas tijolo sobre tijolo, lembra-te de uma coisa:
não estás a construir uma vida para um dia começares a viver.
Já estás dentro dela.
E talvez a pergunta mais importante não seja:
"O que ainda me falta para ter a vida que quero?"
Talvez seja:
"O que tenho hoje que um dia daria tudo para poder viver novamente?"
Pensa nisso.
Devagar.
Porque, às vezes, a resposta está mesmo à nossa frente.
E nós, ocupadas demais a olhar para amanhã,
não a vemos.
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