"Quem"
Quem não gosta de ser alguém para alguém?
Todos gostamos.
Eu também.
Gosto de saber que sou importante para os meus filhos, que me incluem, que me procuram, que existe um lugar na vida deles que é meu. Gosto de saber que tenho um marido com quem partilho uma vida inteira, não apenas os grandes acontecimentos, mas sobretudo aquela matéria de que a vida é verdadeiramente feita: os dias comuns, as preocupações, as conversas, o cansaço, as gargalhadas, as pequenas decisões e tudo aquilo que não precisa de testemunhas para ter importância.
Gosto dos meus amigos. E tenho uma coisa de que gosto particularmente: ainda tenho amizades do tempo da escola. Pessoas que me conhecem há décadas. Pessoas que tiveram tempo suficiente para assistir às minhas várias versões, às mudanças, aos erros, às fases menos brilhantes e, apesar disso, continuam aqui. É uma forma bastante séria de afecto. Afinal, quem nos conhece desde a adolescência já teve acesso a material suficiente para nos poder chantagear emocionalmente para o resto da vida.
Também tenho colegas de trabalho que me estimam e pessoas com quem partilho a fé, caminhos, conversas e afectos.
Portanto, não tenho qualquer dificuldade em admitir que gosto de pertencer.
O que já não quero é depender da pertença para saber quem sou.
E esta diferença mudou muita coisa em mim.
Porque pertença e dependência podem parecer próximas, mas vivem em lugares completamente diferentes.
A dependência diz:
“Preciso que me escolhas para me sentir alguém.”
A pertença diz:
“Eu sei quem sou e, ainda assim, escolho estar contigo.”
A dependência tem medo de perder porque acredita que, ao perder o outro, perde uma parte de si.
A pertença conhece a dor da perda, mas não confunde essa dor com a própria inexistência.
É uma diferença enorme.
Uma pessoa dependente pergunta:
“O que preciso de fazer para não me deixares?”
Uma pessoa que pertence pode perguntar:
“Podemos continuar juntos sem que eu tenha de deixar de ser eu?”
E talvez esta seja uma das perguntas mais importantes numa relação.
Porque há relações em que somos aceites, mas apenas dentro de determinadas condições.
Podes ser tu, desde que não incomodes.
Podes falar, desde que não discordes.
Podes ter limites, desde que não afectem ninguém.
Podes ser independente, desde que a tua independência não ameace a necessidade que o outro tem de se sentir indispensável.
Podes ser inteira, desde que retires algumas partes.
Isso não é pertença.
É adaptação.
E adaptar-nos constantemente para conservar um lugar pode parecer amor durante algum tempo, mas acaba por nos cobrar uma factura muito alta: a nossa própria identidade.
Eu não quero isso.
Talvez precisamente porque sempre fui independente.
Gosto de ser independente.
Gosto de saber que consigo caminhar sozinha, decidir por mim, pensar por mim, resolver o que consigo resolver e assumir as consequências das minhas escolhas.
Mas ser independente nunca significou não precisar de ninguém.
Essa é outra confusão muito comum.
A independência não é dizer:
“Eu não preciso de ninguém.”
Isso, muitas vezes, nem é força. Pode ser apenas uma forma sofisticada de defesa.
A verdadeira independência é conseguir dizer:
“Eu consigo existir sem ti, mas gosto de existir contigo.”
E há uma diferença extraordinária entre estas duas frases.
Na primeira, o outro é dispensável.
Na segunda, o outro é escolhido.
E ser escolhido é muito mais bonito do que ser necessário.
Eu não quero que os meus filhos estejam comigo porque não conseguem viver sem mim.
Quero que cresçam, ganhem asas, construam a vida deles e, mesmo assim, continuem a querer a mãe por perto.
Não quero que o meu marido esteja comigo porque não consegue estar sozinho.
Quero que esteja porque, podendo escolher, continua a escolher partilhar a vida comigo.
Não quero amigos que precisem de mim permanentemente.
Quero amigos que tenham a própria vida, os próprios caminhos, as próprias pessoas e que, apesar disso, continuem a reservar um espaço para mim.
Isso é pertença.
Não é aprisionamento.
É liberdade acompanhada.
E talvez seja uma das formas mais maduras de amar: não precisar de prender aquilo que queremos conservar.
Quando dependemos emocionalmente de alguém, o medo pode começar a tomar decisões por nós.
Medo de desiludir.
Medo de ser rejeitado.
Medo de perder.
Medo de ficar sozinho.
Medo de alguém descobrir que não somos exactamente aquilo que imaginou.
E, por causa desse medo, começamos a negociar pedaços de nós.
Primeiro uma opinião.
Depois um limite.
Depois uma necessidade.
Depois uma parte da nossa personalidade.
Até chegarmos ao ponto absurdo em que conseguimos manter a relação e, simultaneamente, perder-nos dentro dela.
Eu não quero ser amada dessa maneira.
Não quero que alguém goste de mim porque aprendi a ser exactamente aquilo que lhe convém.
Quero poder chegar inteira.
Com as minhas qualidades.
Com os meus defeitos.
Com aquilo que ainda estou a aprender.
Com a minha independência.
Com a minha teimosia, quando ela aparece — e aparece.
Com a minha maneira de pensar.
Com os meus silêncios.
Com as minhas convicções.
Com as minhas fragilidades.
Com tudo aquilo que faz de mim uma pessoa real e não uma versão optimizada para consumo emocional.
Porque pertença verdadeira não exige perfeição.
Exige presença.
Exige reconhecimento.
Exige a possibilidade de existir sem estar permanentemente a fazer prova de valor.
E isto também mudou a minha relação com a rejeição.
Já não penso que, se alguém não me escolher, isso significa que há alguma coisa de errado comigo.
Às vezes não somos a pessoa certa para alguém.
Às vezes não gostamos uns dos outros.
Às vezes as relações terminam.
Às vezes descobrimos que determinado lugar não era nosso.
E isso pode doer sem precisar de destruir-nos.
Porque eu não deposito a minha identidade nas mãos de quem me aceita ou rejeita.
A minha identidade não é uma votação.
Não preciso de maioria absoluta.
Não preciso de aprovação parlamentar.
Não preciso que o mundo inteiro confirme que sou suficientemente boa para continuar a ser eu.
Tenho pessoas que me conhecem.
E é aí que a diferença entre pertença e dependência se torna ainda mais clara.
Eu pertenço aos meus.
À minha família.
Aos meus filhos.
Ao meu marido.
Aos meus amigos.
Àquelas pessoas que me conhecem há muito tempo.
Àquelas que foram chegando e demonstraram, com actos, que havia espaço para mim.
Às pessoas com quem partilho fé e caminho.
Mas não lhes entrego a responsabilidade de me dizerem quem sou.
Eu pertenço-lhes sem lhes pertencer como propriedade.
E eles pertencem-me nesse sentido bonito em que duas pessoas podem dizer “somos nossos” sem que nenhuma delas deixe de ser livre.
É uma pertença que não algema.
É uma pertença que dá raízes sem cortar asas.
É saber que existe um lugar para onde podemos voltar sem que isso signifique que não sabemos caminhar sozinhos.
E talvez seja por isso que hoje já não tenho a mesma necessidade de ser “alguém” para toda a gente.
Eu não preciso de ocupar todos os lugares.
Não preciso de ser indispensável.
Não preciso de ser admirada.
Não preciso de ser escolhida por quem não me reconhece.
E não preciso de transformar cada afastamento numa crise de identidade.
Se não sou nada para alguém, está tudo bem.
Não é uma tragédia.
Não é uma humilhação.
Não significa que eu valha menos.
Significa apenas que não pertencemos um ao outro.
E há uma enorme paz em aceitar isso.
Porque quando sabemos onde pertencemos, deixamos de implorar entrada onde não há lugar para nós.
Eu não quero pertencer a toda a gente.
Quero pertencer onde posso ser inteira.
Onde não preciso de medir cada palavra.
Onde posso rir alto.
Onde posso estar cansada.
Onde posso discordar.
Onde posso errar.
Onde posso dizer não.
Onde posso ser forte sem que isso incomode e vulnerável sem que isso me diminua.
Onde não tenho de representar para conservar o meu lugar.
É aí que eu reconheço a verdadeira pertença.
Não é precisar.
É escolher.
Não é agarrar.
É permanecer livre.
Não é medo de perder.
É gratidão por ter.
Não é dizer “sem ti não sou nada.”
É conseguir dizer:
“Eu sou eu. Tu és tu. E, entre duas pessoas inteiras, existe um nós.”
Talvez esta seja uma das coisas mais bonitas que aprendi.
Eu sempre fui independente.
E continuo a gostar de ser.
Mas hoje sei que independência não é viver sem vínculos.
É poder escolher os vínculos que merecem a nossa entrega.
Não quero pertencer a todos.
Não quero ser de todos.
Não quero ser necessária a todos.
Quero ser livre para reconhecer os meus.
E quando olho para a minha vida, percebo que os encontrei.
São aqueles que não precisam que eu seja menos para conseguirem gostar de mim.
São aqueles diante de quem não tenho de negociar a minha identidade.
São aqueles que me recebem inteira.
E é por isso que hoje posso dizer, sem contradição:
eu não preciso de pertencer a todos.
Eu pertenço aos meus.
E talvez a verdadeira liberdade não seja não pertencer a ninguém.
Seja saber que podemos caminhar sozinhos, mas que, entre todas as pessoas do mundo, há algumas junto das quais não precisamos de deixar de ser livres para finalmente nos sentirmos em casa.
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