"A culpa foi da sangria"

Eu estive na Suíça.

Mas não é sobre a Suíça que vou escrever hoje.

Ainda não.

Mais tarde levarei todos comigo pelos lugares onde andei, pelas paisagens que vi, pelas estradas que parecem desenhadas por alguém que teve a desfaçatez de tornar a natureza excessivamente bonita. Hei de falar-vos daquele país extraordinário, de uma beleza quase extenuante, dessas paisagens que nos fazem desconfiar da própria fotografia porque parece impossível que a realidade tenha conseguido ser tão meticulosamente composta.

Mas isso fica para depois.

Hoje quero falar-vos de ontem.

Ou, mais rigorosamente, daquilo que acontece quando duas amigas se encontram para lanchar e alguém, algures no percurso, comete o erro estratégico de introduzir sangria na equação.

A minha amiga mora na Suíça e veio ter comigo.

A ideia inicial era absolutamente inocente: conversar um pouco, falar sobre a Suíça, contar-lhe o que achei, o que visitei, trocar impressões e, naturalmente, lanchar.

Nada que pudesse ameaçar a estabilidade emocional da Europa.

Fomos lanchar.

Conversámos.

E as horas começaram a fazer aquilo que as horas fazem quando estamos verdadeiramente bem acompanhados: perder a compostura e deixar de obedecer ao relógio.

A conversa estava boa.

Muito boa.

Daquelas conversas em que ninguém olha para o telemóvel para perceber quanto tempo passou, porque o tempo, por uma vez, deixa de ser uma preocupação.

A certa altura, olhámos uma para a outra.

— Olha, jantamos?

— Pode ser.

E podia.

O problema foi não termos previsto a sangria.

Aqui deixo, portanto, um conselho de utilidade pública:

se estiveres com uma amiga inestimável, numa conversa que flui, em que existe confiança, inteligência, humor e liberdade para falar de tudo, não juntes sangria à equação.

É uma imprudência.

A sangria tem um comportamento socialmente subestimado.

Primeiro torna a conversa melhor.

Depois torna-nos mais desinibidos.

Depois dá-nos a ilusão de que aquilo que estamos prestes a dizer é absolutamente necessário.

E finalmente, quando damos por nós, estamos a discutir metafísica, antropologia religiosa e a natureza da linguagem com pessoas que só tinham perguntado qualquer coisa aparentemente inofensiva.

Ontem estava nublado.

O céu estava cinzento.

O meu cérebro, aparentemente, decidiu acompanhar o cenário.

E eis que, por azar — ou por intervenção directa da Providência, nunca saberemos — uma conhecida pergunta:

— Ainda és católica?

Eu senti quase uma ofensa.

Não pela pergunta em si.

Perguntar é legítimo.

Aliás, perguntar é uma das formas mais nobres de inteligência.

O problema é quando uma pergunta vem embrulhada numa espécie de surpresa perante aquilo que deveria ser perfeitamente normal.

Então olhei para ela e respondi:

— Minha querida, «católico» é uma palavra universal. Deus é um só, uno e trino. Porque não haveria de ser universal? E sim, sou católica.

A minha amiga ria-se.

Eu ainda estava perfeitamente funcional.

Convém salientar isto.

Eu achava-me perfeitamente funcional.

É uma distinção importante.

Porque, passadas umas horas, já éramos mais três ou quatro pessoas a debater o assunto.

A minha amiga continuava a rir.

E eu, aparentemente, tinha assumido a responsabilidade moral de proporcionar àquela esplanada uma formação teológica que ninguém tinha solicitado.

O mais engraçado é que muitas pessoas opinam sobre religião com uma segurança absolutamente desconcertante sem conhecerem sequer os conceitos elementares sobre os quais estão a opinar.

E isto fascina-me.

Não porque eu ache que tenho o monopólio da verdade — Deus nos livre de semelhante arrogância — mas porque há uma diferença entre questionar e afirmar, entre procurar compreender e decretar, entre ter uma opinião e possuir conhecimento suficiente para sustentar essa opinião.

Eu adoro perguntas.

As perguntas fazem-nos crescer.

O que me diverte é aquela confiança quase monumental de quem sabe absolutamente nada e, ainda assim, fala como se tivesse acabado de regressar de um concílio ecuménico.

E ontem, infelizmente, eu estava particularmente disponível para responder.

Não escolhi sequer um vocabulário acessível.

Esse foi o meu erro.

Durante tanto tempo tenho andado cuidadosamente a escolher palavras coloquiais para que toda a gente perceba aquilo que escrevo.

Tenho feito um esforço consciente para não transformar cada texto numa prova de acesso ao ensino superior.

Pois bem.

Ontem bebi sangria e o meu cérebro decidiu recuperar todo o léxico que eu tinha passado meses a tentar manter civilizado.

Foi extraordinário.

Eu dizia uma palavra.

Alguém perguntava:

— O que é que isso quer dizer?

Eu explicava.

E introduzia outra.

— E isso?

Explicava novamente.

E introduzia outra.

A determinada altura percebi que estava a fazer aquilo que qualquer pessoa sensata evitaria numa noite de sangria:

estava a dar uma aula espontânea de teologia numa esplanada.

E não era sequer uma aula de introdução.

Não.

Eu tinha saltado directamente para o vocabulário que normalmente se utiliza quando se quer garantir que pelo menos três pessoas abandonam discretamente a sala.

A minha amiga ria-se.

Eu continuava.

E quanto mais perguntavam, mais eu explicava.

Não por arrogância.

É pior.

Por entusiasmo.

Esse é o meu verdadeiro perigo.

Dêem-me uma pergunta interessante e eu esqueço-me completamente de que há pessoas que não querem uma conferência de duas horas sobre o assunto.

Os meus amigos já sabem.

Quando começo a falar de uma coisa que me interessa, não passo pelo assunto.

Percorro-o.

Analiso.

Desmonto.

Relaciono.

Vou buscar a origem.

Faço pontes.

Volto atrás.

Introduzo uma distinção.

Faço uma ressalva.

Dou um exemplo.

E, quando finalmente parece que terminei, lembro-me de mais uma coisa.

Ontem, com sangria, isto atingiu níveis preocupantes.

Eu estava simplesmente feliz.

Essa é a verdade.

Estava tranquila.

Estava segura.

Estava em boa companhia.

E quando nos sentimos verdadeiramente seguros com alguém, acontece uma coisa bonita: deixamos de policiar excessivamente aquilo que somos.

Não precisamos de calcular cada frase.

Não estamos permanentemente a medir o efeito das nossas palavras.

Não estamos a tentar parecer interessantes.

Não estamos a representar inteligência.

Estamos simplesmente a conversar.

E eu gosto profundamente dessas pessoas com quem podemos passar do assunto mais banal para o mais complexo sem sentir que estamos a cometer uma transgressão.

Pessoas com quem podemos rir e, cinco minutos depois, discutir uma questão séria.

Pessoas com quem podemos dizer uma barbaridade e rir dela.

Pessoas diante das quais podemos mudar de registo sem precisar de pedir licença.

A minha amiga conhece-me.

Por isso ria.

Provavelmente já tinha percebido que aquela conversa tinha deixado de ser um jantar há algum tempo.

Tinha-se transformado numa espécie de congresso internacional improvisado.

Só faltavam credenciais.

E talvez uma mesa-redonda.

O mais curioso é que, por baixo do humor, existe uma coisa que levo muito a sério.

A necessidade de conhecer antes de julgar.

Não precisamos de concordar com uma crença para procurar compreendê-la.

Não precisamos de pertencer a uma tradição para estudar aquilo que ela afirma.

E não precisamos de acreditar em Deus para perceber que a teologia, a religião e a experiência religiosa construíram uma parte gigantesca da história intelectual, artística, moral e cultural da humanidade.

Podemos discordar.

Podemos questionar.

Podemos abandonar.

Podemos procurar.

Podemos duvidar.

Mas há uma diferença entre tudo isso e falar sobre aquilo que desconhecemos como se o desconhecimento fosse uma credencial.

Eu não quero convencer ninguém.

Quero compreender.

E talvez seja essa a diferença fundamental.

A fé, para mim, não é uma desculpa para deixar de pensar.

Muito pelo contrário.

Quanto mais estudo, mais perguntas encontro.

E quanto mais perguntas encontro, menos me interessa fingir que tenho respostas fáceis.

Mas ontem, aparentemente, essa humildade epistemológica foi temporariamente suspensa pela sangria.

Eu tinha perguntas.

Tinha respostas.

Tinha distinções conceptuais.

Tinha vocabulário.

Tinha entusiasmo.

E, aparentemente, tinha público.

Uma combinação perigosa.

A certa altura, alguém devia ter-me tirado o copo da mão e dito:

— Marisa, já chega.

Mas ninguém o fez.

A minha amiga ria-se.

Eu continuei.

E agora, olhando para trás, acho isto extraordinariamente divertido.

Porque passei tanto tempo a escolher palavras simples para que aquilo que escrevo possa chegar às pessoas sem criar uma barreira desnecessária e, ontem, bastou-me beber sangria para me transformar numa espécie de dicionário ambulante com pretensões de concílio.

É a isto que chamo coerência pessoal.

Ou falta dela.

Ainda estou a decidir.

E há outra coisa que me parece bonita nesta história.

Eu podia ter ficado ofendida com a pergunta.

Podia ter encerrado a conversa.

Podia ter entendido aquela frase como uma provocação.

Mas preferi falar.

Porque conversar é também uma forma de convivência.

E talvez devêssemos recuperar a capacidade de discutir ideias sem transformar imediatamente uma divergência numa guerra de identidades.

Eu posso ser católica e conversar contigo.

Tu podes não ser.

Podes duvidar.

Podes discordar.

Podes achar tudo isto absurdo.

E ainda assim podemos sentar-nos à mesma mesa.

Podemos comer.

Podemos rir.

Podemos perguntar.

Podemos dizer «não percebi».

Podemos até mudar de opinião.

Que conceito revolucionário.

O mundo talvez ficasse consideravelmente mais civilizado se percebêssemos que uma conversa não é um combate em que alguém tem obrigatoriamente de ganhar.

Ontem ninguém ganhou.

Eu também não.

Apenas conseguimos transformar um jantar numa pequena assembleia teológica, com sangria e público involuntário.

E, para ser absolutamente honesta, diverti-me imenso.

Porque estava entre pessoas com quem podia ser exactamente aquilo que sou.

E isso é uma espécie de luxo.

Não o luxo material.

O outro.

O raro.

O de poder falar sem estar constantemente a editar a própria personalidade.

O de poder ser séria e ridícula na mesma noite.

O de poder discutir Deus e, cinco minutos depois, rir-me de mim própria.

O de poder dizer uma coisa complexa e, quando alguém pergunta «o que significa isso?», explicar sem superioridade.

Porque conhecer alguma coisa não nos torna superiores a quem não conhece.

Apenas nos dá a responsabilidade de explicar bem.

Ou, pelo menos, era essa a minha intenção.

Até à sangria.

A sangria tinha outros planos.

Por isso, meus caros, fica aqui a minha recomendação oficial:

não bebam sangria quando estiverem em excelente companhia.

É perigoso.

A conversa prolonga-se.

As horas desaparecem.

A intimidade aumenta.

A censura lexical diminui.

E, quando dão por vocês, estão numa esplanada qualquer a explicar conceitos filosófico-teológicos a pessoas que só queriam saber se ainda somos católicos. 

E no dia seguinte?

No dia seguinte há uma coisa chamada ressaca.

E há outra, muito pior:

a memória.

Porque o álcool pode desinibir a pessoa.

Mas não apaga a capacidade dos outros de se lembrarem exactamente do que dissemos.

E eu já estou a imaginar a minha amiga:

— Lembras-te de ontem?

Eu:

— Não completamente.

Ela:

— Falaste durante horas.

Eu:

— Sobre quê?

Ela:

— Deus.

Eu:

— Ah.

Silêncio.

— E usaste palavras que eu nem sabia que existiam.

E eu, provavelmente, vou responder com a dignidade possível:

— Era vocabulário técnico.

Ela vai rir-se.

E eu também.

Porque, no fundo, foi uma noite bonita.

Daquelas que começam com um lanche e acabam sabe Deus onde.

E talvez seja precisamente isto que acontece quando estamos em boa companhia: perdemos a noção das horas, esquecemo-nos de vigiar o relógio e, ocasionalmente, até nos esquecemos de que tínhamos decidido comportar-nos normalmente.

Ontem não fui à Suíça.

Não vos levei pelas montanhas, pelos lagos, pelas cidades ou pelas paisagens que ainda hei de vos mostrar.

Ontem fiquei por cá.

Numa mesa.

Com uma amiga.

A falar.

A rir.

A pensar.

A responder.

A exagerar no vocabulário.

E, sobretudo, a descobrir que aparentemente existe uma versão minha que, depois de alguma sangria, considera perfeitamente razoável transformar uma pergunta sobre religião numa conferência improvisada.

A essa mulher tenho apenas uma coisa a dizer:

da próxima vez bebe água.

A Suíça fica para depois.

A teologia também.

E, pelo amor de Deus, afastem-me a sangria.

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