"Carta aberta"
Para que não exista interpretações erradas, mal entendidos e histórias rocambolescas.
Despeço-me.
Exma. Senhora Professora Teresa, à sua família ou a quem, porventura, vier a ler estas palavras,
Não sei, na verdade, quem irá ler este e-mail. E talvez seja precisamente por isso que começo desta forma.
Há momentos em que já nem sabemos exactamente para quem estamos a falar. Se para a pessoa directamente envolvida, para o esposo, para o filho, para alguém que acompanhou esta história de perto ou até para alguém que desconheço. Talvez, no fundo, esteja também a escrever para mim própria, porque há coisas que o tempo não apaga, mas ajuda-nos a compreender de outra maneira.
O passado é exactamente isso: passado. E lamento que o passado esteja a ressuscitar.
E hoje consigo olhar para aquilo que aconteceu com uma distância que, na altura, não tinha.
Sei que inicialmente a culpei. Seria desonesto da minha parte fingir que não. Foi complicado conseguir retirar-lhe a totalidade da culpa e reconhecer que eu também fui culpada em determinadas coisas. Não digo isto para apagar o que senti, nem para alterar aquilo que aconteceu. Digo-o porque hoje consigo reconhecer a minha parte sem precisar de colocar toda a responsabilidade sobre outra pessoa.
Nesta história não existe uma vilã ou uma heroína.
Existem pessoas.
Existem duas pessoas que, em determinado momento, ficaram magoadas e constrangidas, cada uma a partir do seu lugar, daquilo que sentia e daquilo que conseguia compreender naquele momento.
Eu própria fiz coisas que hoje consigo olhar de outra maneira.
Troquei horários e caminhos para não passar pela senhora. Não porque a culpasse de alguma coisa, nem porque quisesse criar qualquer espécie de hostilidade. Fi-lo porque reparei que a minha presença a deixava constrangida e percebi que estava magoada.
Tal como eu.
E achei que afastar-me seria, a forma mais respeitosa de não aumentar o desconforto.
Também omiti.
Também menti.
E quero assumir isso.
Hoje percebo que o fiz porque, naquela altura, tinha colocado a senhora parcialmente no lugar de vilã dentro da história que eu própria estava a viver. Não foi justo e lamento-o.
Não procuro justificar aquilo que fiz. Apenas reconhecê-lo.
Porque há uma diferença entre querer ter razão e querer ser justa, entre razão e ter paz. E hoje, sinceramente, prefiro ser justa e ter paz.
Quero também que saibam — porque não sei quem estará a ler estas palavras — que desejo genuinamente que todas as interações entre o Agrupamento, a escola e as famílias com esperança possam decorrer tranquilamente.
Por mais que a minha presença em determinados contextos me preenchesse e por mais que gostasse de participar, percebi que, se a minha presença pudesse marcar negativamente ou provocar algum constrangimento, então o mais correcto seria eu afastar-me.
E foi isso que fiz.
Não sou presença nas famílias com esperança. Não faço voluntariado na paróquia. Praticamente não falo com a senhora professora Paula e raramente levo o meu educando ao Gaio, precisamente para que não exista qualquer constrangimento.
Não o faço por ressentimento.
Faço-o por respeito.
E faço-o também porque não quero que nenhuma das pessoas que lidam comigo seja lesada, de alguma forma, por uma situação que pertence ao passado.
Quero deixar igualmente muito claro que não existem conversas da minha parte a respeito da senhora.
Não alimento comentários, não procuro versões, não tenho interesse em prolongar histórias e não quero que aquilo que aconteceu entre duas pessoas se transforme num assunto para outras.
Também nunca coloquei em causa a sua metodologia de ensino.
Sei que é uma boa professora, capacitada e competente para desenvolver e desempenhar a sua profissão da melhor forma. Uma dificuldade entre duas pessoas não me dá o direito de confundir essa dificuldade com a competência profissional de alguém.
E existe uma coisa que, acima de tudo, quero agradecer.
Agradeço imenso cada gesto de cuidado e carinho para com o meu filho.
Ele divertiu-se.
Ele sorriu.
E isso nada vai mudar.
Por muito que a vida tenha posteriormente colocado outras coisas no caminho, ninguém me pode retirar a memória dos momentos em que o meu filho esteve bem, se divertiu, sorriu e se sentiu acolhido.
É isso que escolho guardar.
Agradeço cada momento e cada conversa. E guardarei sempre estima e consideração pela senhora e pela sua família, porque acolheram o meu filho e fizeram parte de uma etapa da vida dele.
Há coisas que o tempo não apaga.
E também há coisas que não se pagam.
Um gesto de cuidado para com uma criança é uma dessas coisas.
Por isso, independentemente de quem estiver a ler este e-mail, queria que ficasse uma coisa muito clara: da minha parte não existe qualquer desejo de conflito, de exposição ou de prejudicar alguém.
Existe apenas a vontade de deixar o passado no lugar a que pertence.
Não precisam de responder.
Não escrevo à espera de uma resposta, de uma explicação ou de uma conversa. Talvez algumas coisas simplesmente precisem de ser ditas uma vez, com serenidade, para depois poderem descansar.
E se, em algum momento, chegar até vocês algum ruído, algum comentário ou alguma versão sobre mim, não respondam.
Não vale a pena.
Por vezes, o humor ajuda-nos a perceber o absurdo de determinadas situações. Outras vezes, saber quem somos é resposta suficiente.
Ninguém é definido por um erro.
E ninguém é apenas luz.
Todos somos capazes de errar, de interpretar mal, de reagir a partir da mágoa e de fazer coisas que, mais tarde, gostaríamos de ter feito de outra maneira.
O que fazemos quando conseguimos reconhecer isso também diz muito sobre nós.
Eu reconheço a minha parte.
Sem precisar de transformar a senhora numa vilã.
Sem precisar de me transformar numa heroína.
Sem negar aquilo que senti.
Sem apagar aquilo que aconteceu.
E, sobretudo, sem querer que o passado continue a prejudicar o presente de ninguém.
Fica comigo a gratidão pelo que foi bom.
Fica a memória de uma criança que sorriu.
Fica o respeito pela profissional que sei que é.
E fica a consideração pela família que, em determinado momento, acolheu o meu filho.
Talvez esta seja apenas uma forma simples de dizer que, apesar de tudo, não quero que uma história difícil seja a única coisa que permaneça quando penso nessa etapa.
Porque há histórias que não precisam de ser reescritas.
Precisam apenas de ser finalmente colocadas no lugar certo.
Com os melhores cumprimentos,
T.C
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