"Boa noite"
Hoje já não era para escrever nada.
Já tinha escrito mais cedo e, honestamente, a minha intenção era deixar o dia acabar sem transformar mais uma coisa da minha vida em palavras. Há dias em que também é pousar a caneta e deixar os pensamentos quietos.
Mas hoje era dia 8.
E este dia é especial.
É o dia da Padroeira da minha terra. O dia de Nossa Senhora.
Fui rezar o terço e, claro, fui à missa.
Quando terminou, fiquei no quintal da paróquia a conversar com algumas amigas que estimo. Daquelas pessoas com quem uma pessoa consegue estar simplesmente ali, sem precisar de grandes cerimónias, porque há afectos que não precisam de explicação nem de legenda.
Uma delas tinha comprado o pack de garrafas de vinho da paróquia e, num daqueles convites que começam inocentemente e acabam sabe-se lá onde, disse:
— Vamos até ao meu quintal beber o vinho e conversar.
E podíamos ficar por aqui.
Podia escrever sobre o vinho, sobre a conversa, sobre o dia, sobre Nossa Senhora, sobre as pessoas que gosto, sobre as pequenas coisas que fazem uma noite valer a pena.
Mas não.
Não é sobre isto que vou escrever.
Vou escrever para a Marisa.
Estranho, não é?
Ou talvez não.
Às vezes passamos tanto tempo a escrever para os outros que nos esquecemos de que também precisamos de nos dizer algumas coisas.
Portanto, Marisa, senta-te aí.
Não muito confortável, que isto não é uma sessão de spa.
Precisamos de conversar.
Muitas vezes já lá fui.
Outras tantas fui mandada e ainda outras meti-me lá por iniciativa própria.
A questão não é quantas vezes lá vais, por erros teus, por questões da vida ou porque alguém injustamente te manda.
A questão é quantas vezes de lá sais.
Te reergues.
Te desintoxicas.
Te renovas.
E te tornas mais capaz de lidar com ela.
Quando te sentes na merda, é quando crias novas soluções para de lá sair.
E aprendes a não voltar lá.
Pelo menos à mesma.
Não te iludas.
Até grandes mestres têm as suas merdas para lidar.
Sejamos humildes, enquanto corajosamente levantamos a cabeça e seguimos em frente.
Quantas vezes forem necessárias até ao nosso fim.
Mas, mulher, se estás na merda, não leves os outros.
E, sobretudo, não fiques.
É isto que quero que percebas.
Há uma diferença enorme entre estar na merda e decidir fazer dela morada.
Uma coisa é a vida dar-te uma valente pancada.
Outra é tu, depois da pancada, dizeres:
“Bom, já que aqui estou, vou aproveitar e mudar a morada fiscal.”
Não.
Não vais.
Vais sair.
Podes demorar.
Podes sair a rastejar.
Podes precisar que alguém te dê a mão.
Podes ter de parar duas vezes pelo caminho.
Podes até sair por uma porta, dar uma volta absurda e perceber que escolheste exactamente o caminho errado.
Não faz mal.
Voltas.
Experimentas outro.
Mas não fiques.
Porque há momentos em que a vida nos tira o chão precisamente para nos obrigar a descobrir que conseguimos construir outro.
É muito bonito dizer isto quando estamos bem.
Quando estamos sentados, descansados, com a cabeça tranquila, parece uma frase excelente.
Quando estamos no meio do caos, dá vontade de responder:
“Sim, sim. Muito bonito. Agora vem cá tu resolver isto.”
Eu sei.
Mas é precisamente aí que começa o trabalho.
Quando tudo corre bem, não precisas de inventar muito.
Quando tudo corre mal, a cabeça começa a trabalhar de outra maneira.
Procuras saídas.
Experimentas.
Questionas.
Recomeças.
Descobres forças que não sabias que tinhas.
E, às vezes, descobres também que algumas das coisas que julgavas indispensáveis eram apenas hábitos muito bem disfarçados de necessidades.
A merda tem essa particularidade desagradável: é uma péssima professora, mas uma excelente reveladora.
Mostra-te pessoas.
Mostra-te a ti.
Mostra-te limites.
Mostra-te dependências.
Mostra-te medos.
Mostra-te aquilo que toleravas quando estavas demasiado confortável para questionar.
E, sobretudo, mostra-te quem és quando já não tens condições para representar.
É aí que tens de prestar atenção.
Não para ficares a contemplar a desgraça, mas para perceberes o que podes fazer diferente.
Porque sair da merda não é simplesmente voltar ao ponto onde estavas.
É sair de lá diferente.
Mais consciente.
Mais esperta.
Mais selectiva.
Mais livre.
E, espero eu, com alguma experiência suficiente para não voltares a entrar pela mesma porta com entusiasmo.
Porque há uma coisa particularmente estúpida em nós, seres humanos:
às vezes aprendemos a sair de um lugar e depois voltamos lá exactamente pelo mesmo caminho.
Como se o problema fosse a paisagem.
Não é.
É o percurso.
Por isso, aprende a reconhecer os sinais.
As pessoas.
Os padrões.
As decisões.
Os silêncios.
As desculpas que dás por outros.
As desculpas que dás a ti própria.
Aquela voz interior que diz:
“Desta vez vai ser diferente.”
Às vezes é.
Mas outras vezes é apenas o teu optimismo a fazer horas extraordinárias.
E não precisas de viver assim.
Não precisas de ser invencível.
Aliás, essa mania de querer parecer sempre forte é uma das maiores farsas que podemos contar a nós próprios.
Há dias em que não estás forte.
Estás cansada.
Estás triste.
Estás irritada.
Estás perdida.
E está tudo bem.
Reconhecer isso não é fraqueza.
Fraqueza seria fingir que está tudo maravilhoso enquanto estás interiormente a fazer uma assembleia geral de emergência.
Pára.
Respira.
Olha.
Percebe.
E depois mexe-te.
A vida resolve-se em movimento.
Nem sempre em grandes movimentos.
Às vezes é só levantar da cama.
Responder a uma mensagem.
Tomar banho.
Sair de casa.
Dar uma caminhada.
Fazer aquilo que tens de fazer.
Dizer não.
Dizer sim.
Pedir ajuda.
Rezar.
Escrever.
Rir.
Comer qualquer coisa que saiba bem.
Beber um copo de vinho com amigas.
E, no dia seguinte, continuar.
Não é preciso uma epifania com luz celestial e música de fundo.
Às vezes a salvação chega com uma coisa muito menos cinematográfica:
“Pronto. Chega. Vou andar.”
E anda.
Não esperes estar completamente curada da vida para começar a vivê-la.
Isso nunca vai acontecer.
A vida não é uma doença da qual um dia recebemos alta.
É uma coisa estranha, maravilhosa, injusta, divertida, dolorosa, imprevisível e completamente incapaz de respeitar os nossos planos.
Por isso, aprende a viver com ela.
Não contra ela.
E não permitas que aquilo que te aconteceu se transforme naquilo que tu és.
Tu não és a queda.
Não és a injustiça.
Não és o erro.
Não és a pessoa que te magoou.
Não és aquilo que perdeste.
E muito menos és o lugar horrível onde estiveste.
És aquela que saiu.
E isso, Marisa, interessa muito mais.
Por isso, mulher, se estás na merda, faz favor de não convidar ninguém para ir morar contigo.
Não organizes jantar.
Não distribuas chaves.
Não faças decoração.
Não compres móveis.
Não cries raízes.
Levanta-te.
Se não conseguires correr, anda.
Se não conseguires andar, rasteja.
Se precisares de parar, pára.
Mas não confundas uma paragem com uma desistência.
E se precisares de alguém, chama.
Porque ninguém é suficientemente forte para fazer tudo sozinho.
Mas quando a mão te ajudar a levantar, agarra-a.
Depois põe os pés no chão.
E continua.
E, sobretudo, não leves os outros contigo.
Não transformes a tua dor numa arma.
Não despejes nos outros aquilo que ainda não conseguiste arrumar dentro de ti.
Não te tornes a pessoa de quem um dia precisaste de te proteger.
Isso seria dar àquilo que te feriu uma vitória demasiado grande.
Sejamos humildes.
Todos temos merdas para resolver.
Os que parecem fortes.
Os que parecem sábios.
Os que ensinam.
Os que aconselham.
Os que rezam.
Os que sorriem.
Os que dizem que está tudo bem.
Todos.
A diferença não está em quem nunca cai.
Está em quem, depois de cair, não transforma o chão em destino.
Portanto, Marisa, fica com isto.
Podes cair.
Podes errar.
Podes ser injustiçada.
Podes ser mandada para onde não querias ir.
Podes, inclusive, ter a brilhante ideia de te meteres lá sozinha.
És humana.
Acontece.
Mas depois levanta-te.
Cria uma solução.
Inventa outra.
Muda de caminho.
Aprende.
Desintoxica.
Renova.
E vive.
Porque ainda há demasiada vida para viver para passares o resto dela a explicar a merda onde estiveste.
E porque, sinceramente...
já lá estiveste vezes suficientes.
Não precisas de fazer turismo.
Vai.
Levanta a cabeça.
E vai viver.
A Nossa Senhora que te acompanhou hoje não te pediu para ficares parada a contemplar os teus problemas.
Rezaste.
Agora anda.
Porque fé também é isto:
pedir força para levantar e depois ter coragem de usar as pernas.
E eu uso. Mais não preciso que ninguém me mande á merda eu vou sozinha e depois saio.
É sempre uma má ideia escrever enquanto se bebe uma taça de vinho.
Uma noite tranquila.
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