"O que ela me disse junto ao Tejo"
Fomos caminhar até à praia sem sabermos, talvez, que aquela caminhada acabaria por nos levar a lugares muito mais interiores do que aqueles que os nossos pés percorriam.
Há conversas que começam enquanto caminhamos e que parecem, à primeira vista, apenas conversas.
Falamos de coisas pequenas. Da vida. De pessoas. De acontecimentos. Rimos de qualquer coisa. Paramos por momentos. Retomamos o caminho.
E depois, sem aviso, alguém diz uma frase que muda a natureza inteira da conversa.
Foi o que aconteceu quando ela me disse:
— Sinto falta do toque.
Não foi a primeira vez que ouvi aquelas palavras.
Anos antes, outra pessoa tinha-me dito exactamente a mesma coisa.
E talvez seja estranho dizer isto, mas naquele momento pensei nessa coincidência.
A mesma frase.
Outra pessoa.
Outro tempo.
E eu, agora, diferente daquela mulher que tinha escutado a mesma confissão no passado.
Porque há coisas que a vida nos repete não para que voltemos ao mesmo lugar, mas para percebermos que já não somos capazes de as ouvir da mesma maneira.
Na primeira vez, talvez eu tivesse escutado a frase.
Desta vez, escutei a pessoa.
E isso mudou tudo.
Continuámos a caminhar.
Não respondi imediatamente.
Não senti aquela necessidade quase automática de preencher a vulnerabilidade do outro com palavras. Não lhe ofereci uma teoria, uma explicação, um conselho ou uma solução pronta.
Deixei-a falar.
E ela falou.
Falou daquela falta que é difícil de explicar porque não cabe inteiramente na palavra «toque».
Às vezes uma pessoa diz que sente falta do toque quando, na realidade, sente falta de muito mais.
Sente falta de ser envolvida.
De repousar.
De sentir outro corpo próximo sem precisar de estar permanentemente alerta.
De receber uma carícia que não peça nada em troca.
De ter alguém suficientemente perto para que, durante alguns instantes, o corpo possa deixar de cumprir aquela tarefa cansativa de se proteger.
Há necessidades que não aprendemos a nomear.
Aprendemos primeiro a escondê-las.
Desde muito cedo somos ensinados, de maneiras que quase nunca percebemos, a distinguir aquilo que podemos pedir daquilo que devemos suportar calados.
Aprendemos a não incomodar.
A não depender.
A não parecer frágeis.
A resolver.
A aguentar.
A dizer «está tudo bem» antes sequer de sabermos se está.
E crescemos.
Tornamo-nos adultos.
Pagamos contas, tomamos decisões, trabalhamos, cuidamos de outros, atravessamos perdas, deceções e recomeços.
E, por baixo dessa arquitectura inteira de autonomia, continua a existir uma criatura profundamente sensível que ainda sabe reconhecer a diferença entre ser tocada e ser acolhida.
Talvez seja isso que nos esquecemos de ensinar uns aos outros:
que autonomia não significa ausência de necessidade.
Uma pessoa pode saber viver sozinha e continuar a precisar de afecto.
Pode não aceitar qualquer companhia e sentir profundamente a falta de intimidade.
Pode ser inteira e, ainda assim, desejar colo.
Pode não querer depender de ninguém e desejar, de vez em quando, simplesmente encostar a cabeça a alguém.
Não há contradição nisso.
Há humanidade.
Quando chegámos à praia, sentámo-nos num banco.
À nossa frente estava o Tejo.
O rio estendia-se diante de nós com aquela tranquilidade que os rios possuem, como se não tivessem necessidade de demonstrar a profundidade que carregam.
Havia pássaros.
O som das ondas chegava-nos aos ouvidos de forma irregular, misturado com o vento.
E durante alguns segundos nenhuma de nós falou.
Foi bonito.
Porque há lugares que parecem saber ficar calados connosco.
Ela retomou a conversa.
E eu continuei a ouvi-la.
Agora sentadas, sem a obrigação de chegar a lado nenhum.
Talvez isso tenha permitido que as palavras chegassem mais longe.
Ela falou da falta de contacto, da ausência de proximidade, da sensação de passar demasiado tempo sem aquele gesto simples que parece insignificante até desaparecer.
E eu fui percebendo que o corpo também possui memória.
Não uma memória feita apenas de acontecimentos.
Uma memória feita de sensações.
Há coisas que o corpo reconhece antes de a consciência as organizar.
A temperatura de alguém.
O peso de uma cabeça sobre o ombro.
Uma mão entrelaçada noutra.
Um abraço que dura mais alguns segundos.
A maneira como uma pessoa nos toca quando já aprendeu aquilo de que gostamos e aquilo que nos tranquiliza.
São coisas pequenas.
Mas o pequeno não é necessariamente superficial.
Às vezes, é precisamente no pequeno que a nossa existência se sente mais profundamente reconhecida.
Ela dizia que sentia falta do toque.
E eu pensei que talvez o que lhe faltasse não fosse apenas contacto físico.
Talvez lhe faltasse a experiência de poder existir durante algum tempo sem precisar de se defender.
Porque existe uma diferença brutal entre estar sozinho e estar permanentemente obrigado a ser auto-suficiente.
A solidão não é apenas a ausência de pessoas.
Às vezes é a ausência daquele lugar relacional onde podemos pousar uma parte do peso que carregamos.
E há pessoas que se habituam tanto a carregar tudo sozinhas que, quando finalmente alguém lhes oferece um ombro, nem sabem inicialmente o que fazer com ele.
Talvez porque receber também exige confiança.
Dar é, muitas vezes, mais fácil.
Dar atenção.
Dar ajuda.
Dar afecto.
Dar tempo.
Dar respostas.
Dar-nos aos outros pode até fazer-nos sentir necessários.
Receber é diferente.
Receber obriga-nos a admitir que não somos suficientes para tudo.
E essa admissão, para algumas pessoas, é quase uma nudez.
Ela continuava a falar.
Eu não a interrompi.
Não porque não tivesse nada para dizer.
Mas porque, naquele momento, dizer menos era compreender mais.
Há uma forma de violência muito subtil que cometemos uns com os outros quando tentamos transformar imediatamente toda a vulnerabilidade numa questão racional.
«Isso acontece porque...»
«Tens de...»
«O que precisas é de...»
Como se compreender alguém significasse necessariamente explicar essa pessoa.
Eu já não acredito nisso.
Há momentos em que explicar demasiado é afastarmo-nos precisamente daquilo que deveríamos estar a tocar.
A experiência humana não é um problema matemático.
Não tem sempre uma incógnita que, depois de encontrada, resolve a equação.
Às vezes alguém sofre e precisa primeiro de saber que pode sofrer diante de nós sem ser corrigido.
Foi isso que tentei fazer.
Escutá-la.
Validar.
Dar-lhe espaço.
Não concordar necessariamente com todas as interpretações que ela pudesse fazer da própria vida, mas reconhecer a legitimidade daquilo que sentia.
Porque uma emoção não precisa de ser logicamente conveniente para ser verdadeira.
E talvez essa distinção seja uma das coisas mais importantes que aprendemos tarde.
Podemos sentir algo intensamente e, ainda assim, estar enganados sobre a sua causa.
Mas não estamos enganados por sentirmos.
O sentimento existe.
O que fazemos dele é que exige reflexão.
Por isso não lhe disse que era apenas carência.
Essa palavra é demasiado pequena para uma experiência tão complexa.
Às vezes chamamos «carência» à necessidade legítima de afecto porque temos medo de admitir quanto somos dependentes uns dos outros.
Nenhum de nós se constrói sozinho.
Passamos a vida a aprender com o olhar dos outros, com a forma como nos seguraram, com aquilo que nos deram e com aquilo que nos recusaram.
Até aquilo que consideramos exclusivamente «nosso» foi, em alguma medida, aprendido em relação.
Aprendemos a amar porque alguém nos ensinou, consciente ou inconscientemente, alguma linguagem do amor.
Aprendemos a desconfiar porque alguém nos mostrou que nem toda a proximidade é segura.
Aprendemos a pedir ou a não pedir.
A aproximar-nos ou a fugir.
A confiar ou a controlar.
E depois chamamos personalidade a muitas coisas que começaram, na realidade, muito antes de termos idade para escolher.
Talvez por isso uma mulher possa passar anos a dizer que não precisa de ninguém e, um dia, descobrir que aquilo que julgava independência era, em parte, uma armadura tão bem construída que já não sabia como a tirar.
Não digo isto sobre ela.
Digo isto sobre todos nós.
Sobre a maneira como nos tornamos.
Sobre a estranha educação afectiva que recebemos sem sequer percebermos que estamos a ser educados.
E enquanto ela falava, o Tejo continuava diante de nós.
Os pássaros atravessavam o espaço.
As ondas chegavam e recuavam.
O mundo não tinha parado para aquela conversa.
E talvez fosse precisamente isso que a tornava tão verdadeira.
Não havia música de fundo.
Não havia uma grande cena.
Não havia nenhuma iluminação perfeita.
Havia duas mulheres sentadas num banco diante de um rio, enquanto uma delas dizia aquilo que talvez tivesse demorado muito tempo a conseguir dizer.
E eu pensei que as coisas mais importantes da vida raramente acontecem com a solenidade que lhes atribuímos depois.
Acontecem assim.
Num banco.
Numa caminhada.
Entre uma frase e outra.
Quando alguém finalmente baixa a guarda.
A certa altura, perguntei-lhe:
— Queres um abraço apertadinho?
Ela não respondeu com palavras.
Aproximou-se.
Pousou a cabeça no meu ombro.
E eu abracei-a.
Fiquei em silêncio.
Comecei simplesmente a afagar-lhe os cabelos.
Devagar.
Sem pressa.
Sem querer que aquele gesto significasse mais do que aquilo que era.
E, naquele instante, percebi qualquer coisa que talvez nenhuma explicação conseguisse transmitir.
O toque também pode ser uma forma de linguagem.
Mas há uma condição:
tem de ser livre.
Livre de exigência.
Livre de expectativa.
Livre daquela espécie de contrato invisível em que um gesto de ternura passa imediatamente a significar qualquer coisa que o outro fica obrigado a devolver.
Aquele abraço não pedia nada.
Não prometia nada.
Não resolvia nada.
Não ocupava o lugar de ninguém.
Não pretendia substituir uma ausência.
Era apenas um pequeno território de descanso.
Ela tinha dito que sentia falta do toque.
E eu não lhe dei aquilo que lhe faltava.
Não poderia.
Ninguém pode oferecer a outra pessoa aquilo que pertence à história íntima dela.
Mas podia oferecer-lhe, naquele momento, uma experiência diferente da falta.
Podia mostrar-lhe que um corpo próximo também pode ser um lugar de segurança.
Que uma mão pode tocar sem reclamar.
Que um abraço pode existir sem possuir.
Que a ternura não precisa de ser uma antecâmara do desejo.
E isso parece-me uma distinção cada vez mais rara.
Vivemos num mundo que confunde facilmente proximidade com disponibilidade, desejo com direito e intimidade com posse.
Mas tocar alguém verdadeiramente é reconhecer que aquela pessoa continua a pertencer a si própria.
Talvez seja por isso que o toque mais profundo seja, paradoxalmente, aquele que não tenta ficar com nada.
A minha mão continuava nos cabelos dela.
E eu fiquei a pensar na outra pessoa, anos antes.
Naquela primeira vez.
Naquela frase que então ouvi e que agora regressava.
Talvez eu não tivesse percebido completamente naquele momento.
Ou talvez tivesse percebido apenas com os recursos interiores que possuía.
Não somos obrigados a compreender tudo à primeira.
Há coisas que só conseguimos entender depois de as atravessarmos.
Depois de conhecermos melhor a solidão.
A perda.
A espera.
A ternura.
O medo.
A necessidade.
A fragilidade.
Depois de aprendermos que há dores que não querem conselhos e pessoas que não querem ser salvas.
Querem apenas, por alguns minutos, não estar sozinhas dentro daquilo que sentem.
Foi então que compreendi que talvez a maturidade não seja saber sempre o que dizer.
Talvez seja saber quando não dizer.
Saber quando perguntar.
Saber quando esperar.
Saber quando oferecer a mão.
E, sobretudo, saber quando a mão oferecida deve permanecer exactamente onde o outro a aceita.
Sem avançar.
Sem exigir.
Sem interpretar.
Apenas ali.
Ela respirava tranquilamente contra o meu ombro.
Eu continuava a afagar-lhe os cabelos.
E o Tejo continuava a mover-se diante de nós.
Foi nesse momento que senti uma espécie de ternura imensa pela condição humana.
Por todos nós.
Pela quantidade de coisas que escondemos para parecermos fortes.
Pelo número de vezes que dizemos «não preciso» quando, na realidade, não sabemos sequer como pedir.
Pela vergonha que aprendemos a sentir das nossas necessidades mais elementares.
Pela forma como transformamos vulnerabilidade em fraqueza e independência em isolamento.
Pela maneira como tantas vezes passamos a vida inteira a desejar exactamente aquilo que temos medo de admitir que desejamos.
E pensei:
talvez ninguém precise de ser invulnerável.
Talvez precise apenas de encontrar pessoas diante das quais possa deixar de fingir que é.
Não para depender delas.
Não para lhes entregar a própria vida.
Mas para poder, ocasionalmente, pousar a cabeça.
Respirar.
Ser cuidada durante alguns minutos.
E depois levantar-se e continuar.
Porque um abraço não precisa de salvar ninguém para ser importante.
Às vezes basta interromper, por alguns instantes, a sensação de que temos de suportar tudo sozinhos.
Quando ela finalmente levantou a cabeça, não lhe perguntei se estava melhor.
Pareceu-me uma pergunta demasiado pequena.
Talvez porque «melhor» não fosse a palavra.
Ela não tinha sido reparada.
Não tinha encontrado respostas.
A falta continuava lá.
Mas talvez alguma coisa tivesse mudado na maneira de a carregar.
E isso já é muito.
Olhei para o rio.
Ela também.
Os pássaros continuavam a ouvir-se.
As ondas continuavam a chegar à margem.
E houve um momento em que nenhuma de nós disse absolutamente nada.
Não porque já não houvesse assunto.
Mas porque algumas conversas terminam precisamente quando deixamos de precisar de falar.
E fiquei a pensar na estranha beleza daquela tarde.
Eu tinha ido caminhar com uma amiga.
Ela tinha-me contado que sentia falta do toque.
Eu tinha ouvido.
E, por alguns minutos, tinha podido responder-lhe não com uma solução, mas com aquilo que talvez fosse a resposta mais antiga e mais simples que existe entre seres humanos:
um abraço.
Não para apagar a falta.
Não para substituir ninguém.
Não para criar dependência.
Apenas para dizer, sem palavras:
«Podes descansar aqui um bocadinho.»
E talvez seja isso que significa verdadeiramente cuidar de alguém.
Não retirar-lhe a dor.
Não preencher-lhe todos os vazios.
Não prometer que nunca mais estará só.
Mas conseguir sentar-se ao lado dela diante de um rio e permanecer quando ela finalmente tem coragem de dizer aquilo que lhe falta.
Porque há pessoas que não precisam que lhes mudemos a vida.
Precisam de um lugar onde, por alguns minutos, possam pousar o peso dela.
E naquele banco, diante do Tejo, enquanto lhe afagava os cabelos, percebi que talvez a frase que ela me tinha dito não fosse apenas sobre o toque.
Era sobre a necessidade profundamente humana de, de vez em quando, deixar de ser uma pessoa que se aguenta sozinha.
E ser apenas uma pessoa.
Inteira.
Vulnerável.
Desejante.
Cansada.
Viva.
Com falta de alguma coisa.
E suficientemente segura para finalmente o dizer.
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