"Clemente V — o 195.º Papa da Igreja Católica"
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Depois do curtíssimo pontificado de Bento XI, chegamos a uma das figuras mais controversas da história do papado. Clemente V, nascido Bertrand de Got, foi Papa entre 1305 e 1314 e ficou profundamente associado a três acontecimentos que mudariam a história da Igreja: a transferência da residência pontifícia para Avinhão, o conflito em torno dos Templários e o crescente peso político da monarquia francesa sobre o papado. O Vaticano identifica-o oficialmente como o 195.º Papa.
Quem era Bertrand de Got?
Bertrand de Got nasceu por volta de 1264, em Villandraut, na região da Gironda, na Gasconha, território que hoje pertence à França. Proveniente de uma família nobre, recebeu uma formação muito diferente da de Bento XI.
Estudou Direito Canónico e Direito Romano, tendo passado por centros universitários importantes, nomeadamente Orleães e Bolonha. A formação jurídica seria essencial para a sua carreira posterior.
Não era, portanto, um simples prelado regional.
Era um homem formado no mundo intelectual e jurídico que sustentava grande parte da administração da Igreja medieval.
A sua carreira eclesiástica
Bertrand de Got avançou rapidamente na hierarquia da Igreja.
Foi:
- cónego;
- membro da administração eclesiástica;
- bispo de Comminges;
- e, posteriormente, arcebispo de Bordéus.
Foi também próximo de Bonifácio VIII, que o havia nomeado bispo e posteriormente arcebispo.
Esta proximidade é importante porque Clemente V não surgiu inicialmente como um adversário do papado romano.
Pelo contrário.
Tinha relações com a cúria e conhecia pessoalmente o funcionamento do poder pontifício.
Ao mesmo tempo, tinha boas relações com a aristocracia e a corte francesa.
Encontrava-se, portanto, numa posição singular:
conhecia Roma, conhecia a Igreja e conhecia a realidade política francesa.
E seria precisamente essa posição intermédia que contribuiria para a sua eleição.
A eleição depois de Bento XI
Depois da morte de Bento XI, em Julho de 1304, os cardeais entraram num longo conclave em Perúgia.
As divisões eram profundas.
De um lado estavam cardeais favoráveis a uma linha mais próxima de Bonifácio VIII e da defesa vigorosa da autonomia pontifícia.
Do outro, existiam cardeais mais favoráveis a uma reconciliação com França.
O conclave prolongou-se por cerca de onze meses.
Finalmente, em 5 de Junho de 1305, os cardeais escolheram Bertrand de Got.
Era uma escolha extraordinária por vários motivos.
Não era italiano.
Não era cardeal.
E vinha de uma região fortemente ligada ao mundo político francês.
O Vaticano regista a eleição em 5 de Junho de 1305 e a sua consagração em 14 de Novembro de 1305.
Escolheu o nome:
Clemente V.
Uma eleição envolta em suspeitas
Desde o início surgiu uma questão que acompanharia todo o seu pontificado:
Até que ponto Clemente V era independente de Filipe IV de França?
A historiografia antiga difundiu a ideia de que Bertrand de Got teria feito um acordo secreto com Filipe IV, o Belo, antes de ser eleito.
Segundo essa narrativa, teria prometido ao rei francês uma série de concessões em troca do apoio à sua eleição.
Contudo, é necessário ter cuidado.
A história do pacto secreto, tal como tradicionalmente contada, não é considerada comprovada. A Catholic Encyclopedia já advertia que o relato de uma espécie de acordo secreto e de concessões humilhantes era historicamente pouco credível.
O que podemos afirmar com maior segurança é que Filipe IV tinha interesse numa eleição favorável à França e que Clemente V possuía relações políticas com o mundo francês.
E isso bastaria para criar uma relação extremamente delicada entre o novo Papa e a monarquia francesa.
A coroação em Lyon
Os cardeais esperavam que o novo Papa se dirigisse a Roma.
Mas Clemente V escolheu outro caminho.
Foi coroado em Lyon, em 14 de Novembro de 1305.
A escolha tinha enorme significado.
O centro tradicional do papado era Roma.
Clemente V estava a governar a Igreja a partir de um espaço cada vez mais afastado da cidade de Pedro.
E ainda antes de chegar a Avinhão, começava a desenhar-se aquilo que seria uma das maiores mudanças geopolíticas da história pontifícia.
Porque não regressou a Roma?
Esta questão é fundamental.
Seria demasiado simples dizer:
“Filipe IV mandou o Papa para França.”
A realidade era mais complexa.
Roma encontrava-se politicamente instável.
A Itália estava profundamente fragmentada.
Existiam conflitos entre famílias aristocráticas, guerras entre facções e dificuldades no próprio território pontifício.
Clemente V também tinha uma ligação cultural e familiar profunda à França.
Além disso, a situação política italiana tornava muito difícil uma presença papal estável em Roma.
Assim, Clemente V começou por deslocar a sua corte entre várias cidades francesas.
A partir de 1309, estabeleceu a residência da cúria em Avinhão.
É aqui que começa aquilo que a História chama tradicionalmente:
Papado de Avinhão.
A residência pontifícia permaneceria em Avinhão durante décadas, até ao regresso de Gregório XI a Roma em 1377.
É importante, contudo, perceber que Clemente V não planeou necessariamente criar desde o início uma residência pontifícia francesa permanente. A decisão foi-se consolidando progressivamente.
Roma fica sem o Papa
Este acontecimento teve consequências extraordinárias.
Durante séculos, Roma tinha sido o centro simbólico e espiritual do cristianismo latino.
Era a cidade:
- de Pedro;
- dos túmulos dos Apóstolos;
- dos mártires;
- da memória imperial;
- e da tradição apostólica.
Agora, o Papa encontrava-se em território francês.
Mesmo que juridicamente a Santa Sé continuasse a ser a Santa Sé de Roma, a residência efectiva do Papa estava noutro lugar.
E isso provocou uma transformação profunda na percepção do papado.
Começou a surgir a acusação de que o Papa estava demasiado próximo do poder francês.
Mais tarde, os críticos chamariam a este período, de forma muito dura, a “cativeiro babilónico da Igreja”.
Mas essa expressão seria popularizada sobretudo posteriormente por autores que viam Avinhão como um período de dependência pontifícia.
O grande problema: os Templários
E agora chegamos a um dos episódios mais famosos e controversos do pontificado de Clemente V.
A Ordem dos Templários tinha sido criada no contexto das Cruzadas.
Ao longo de quase dois séculos, os Templários tinham adquirido:
- enormes propriedades;
- riqueza;
- influência;
- fortalezas;
- prestígio militar;
- e uma complexa rede financeira internacional.
No início do século XIV, porém, a situação mudou.
Filipe IV de França encontrava-se financeiramente pressionado.
E os Templários possuíam recursos consideráveis.
Em 1307, Filipe IV ordenou a prisão dos Templários em França.
Foram acusados de crimes gravíssimos, incluindo heresia e práticas religiosas consideradas sacrílegas.
A questão chegou inevitavelmente ao Papa.
E Clemente V ficou perante um dilema terrível.
O Papa acreditava realmente nas acusações?
É necessário evitar uma simplificação muito comum.
Não podemos dizer simplesmente:
“Clemente V sabia que os Templários eram inocentes e mandou matá-los.”
A documentação histórica é muito mais complexa.
Foram obtidas confissões durante processos frequentemente marcados por coerção e tortura, especialmente em França.
O Papa recebeu informações contraditórias.
A própria investigação eclesiástica não produziu uma base simples para uma condenação universal da ordem como herética.
No Concílio de Vienne, a questão foi profundamente debatida.
A maioria dos cardeais e membros da comissão encarregada do assunto considerava que as provas disponíveis não eram suficientes para condenar juridicamente toda a Ordem por heresia.
Mas Filipe IV exercia uma pressão enorme.
O Concílio de Vienne
Clemente V convocou o Concílio de Vienne, que se reuniu entre 1311 e 1312.
Foi um concílio ecuménico — o XV Concílio Ecuménico da Igreja Católica.
Entre as grandes questões estavam:
- os Templários;
- a reforma da Igreja;
- a situação da Terra Santa;
- questões disciplinares e morais.
O problema dos Templários dominou grande parte da atenção.
Filipe IV queria a supressão da ordem.
Mas os padres conciliares não estavam simplesmente convencidos de que os Templários fossem hereges.
Clemente V encontrou então uma solução jurídica extraordinariamente particular.
A supressão dos Templários
Em vez de condenar solenemente a Ordem através de uma sentença judicial que declarasse provada a heresia, Clemente V decidiu suprimi-la por disposição apostólica.
A bula Vox in excelso aboliu a Ordem.
É uma distinção histórica muito importante.
Clemente V não afirmou simplesmente:
“Foi provado que todos os Templários eram hereges.”
A supressão foi apresentada como uma medida de governo eclesiástico, tendo em consideração o enorme escândalo e a reputação profundamente comprometida da Ordem.
A documentação do processo mostra inclusive que Clemente V reconhecia a dificuldade jurídica de condenar a Ordem simplesmente com base nas investigações realizadas.
E o património dos Templários?
Aqui entra novamente a política.
Os bens dos Templários não deveriam simplesmente desaparecer.
Grande parte do património deveria passar para a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, futura Ordem de Malta.
Mas a transferência dos bens foi complexa e variou conforme os territórios.
O processo demonstrou como, na prática, a questão dos Templários não era apenas religiosa.
Era também:
política, económica, jurídica e militar.
E Bonifácio VIII?
Clemente V também herdou outro problema explosivo:
a memória de Bonifácio VIII.
Filipe IV queria que o seu antigo adversário fosse condenado postumamente.
As acusações contra Bonifácio eram gravíssimas.
Clemente V aceitou inicialmente investigar o caso.
Mas a situação tornou-se complicada.
Durante o processo, a própria legitimidade de Bonifácio VIII como Papa foi defendida.
No Concílio de Vienne, Bonifácio acabou por ser reconhecido como legítimo pontífice, e as acusações contra ele não conduziram à sua condenação como herege.
Isto é significativo.
Mesmo Clemente V, frequentemente apresentado como demasiado dependente da França, não permitiu que o seu predecessor fosse simplesmente transformado num antipapa ou herege post mortem.
Clemente V e a reforma da Igreja
O Concílio de Vienne não tratou apenas dos Templários.
Também abordou a necessidade de reforma da Igreja.
Foram discutidas questões relacionadas com:
- disciplina clerical;
- vida religiosa;
- ensino teológico;
- moral do clero;
- ordens religiosas;
- e administração eclesiástica.
Clemente V promulgou posteriormente as chamadas Constituições Clementinas, uma importante colecção de legislação canónica que teve grande influência na evolução do Direito Canónico medieval.
Portanto, reduzir Clemente V aos Templários seria injusto.
O seu pontificado teve também uma dimensão jurídica e reformadora.
Um Papa politicamente condicionado?
Esta é talvez a grande questão histórica.
Clemente V foi:
um Papa francês?
Sim, no sentido cultural e político.
Foi um Papa simplesmente manipulado por Filipe IV?
A resposta é muito mais complexa.
Ele fez concessões à monarquia francesa.
Permitiu que algumas exigências de Filipe IV avançassem.
Transferiu a residência pontifícia para território francês.
Mas também resistiu a algumas das exigências mais extremas do rei.
O caso de Bonifácio VIII é revelador.
Clemente V não aceitou simplesmente a narrativa de Filipe IV contra o seu predecessor.
Por isso, talvez seja mais correcto compreender Clemente V como um Papa profundamente condicionado pelas circunstâncias políticas francesas, mas não como um mero fantoche do rei.
A personalidade de Clemente V
Clemente V parece ter sido um homem de saúde frágil.
Era também extremamente prudente e, em determinadas circunstâncias, hesitante.
O seu pontificado foi marcado por uma tensão permanente:
queria preservar a autoridade papal, mas governava num contexto em que o poder político francês era extraordinariamente forte.
E essa contradição tornou-se a característica essencial do seu pontificado.
A sua morte
Clemente V morreu em 20 de Abril de 1314, em Roquemaure, no sul de França. O Vaticano confirma essa data.
Tinha cerca de cinquenta anos.
A sua morte ocorreu depois de quase nove anos de pontificado.
O seu corpo foi sepultado em Uzeste, próximo da sua terra natal.
Relatos posteriores envolveram a sua morte em episódios quase lendários, mas não devemos confundir essas tradições com factos históricos comprovados.
O legado de Clemente V
Clemente V deixou uma herança extremamente ambivalente.
Na história do papado:
Foi o Papa que consolidou a mudança da residência pontifícia para Avinhão.
Na história política:
Foi um Papa que governou numa época em que a monarquia francesa tinha adquirido enorme influência.
Na história jurídica:
Deixou as Constituições Clementinas, importantes para o Direito Canónico.
Na história das ordens religiosas:
O seu pontificado ficou inseparavelmente ligado à supressão dos Templários.
Na história da Igreja:
Inaugurou uma época em que o papado deixaria de ter Roma como residência efectiva durante várias décadas.
Uma leitura teológica
Clemente V coloca-nos perante uma pergunta muito profunda sobre a própria natureza da Igreja:
Pode a Igreja permanecer plenamente livre quando o seu governo está demasiado próximo de um poder político?
A Igreja medieval era simultaneamente:
- uma comunidade espiritual;
- uma instituição jurídica;
- uma potência territorial;
- uma autoridade diplomática;
- e uma estrutura política.
Essa multiplicidade tornava o papado extraordinariamente poderoso.
Mas também o tornava vulnerável.
Quando o Papa dependia de determinados territórios, exércitos, alianças e recursos financeiros, a liberdade espiritual da Igreja podia entrar em tensão com as necessidades políticas da instituição.
Avinhão tornou essa tensão visível.
E essa questão atravessaria todo o século XIV.
Clemente V em perspectiva
Bento XI tentou reconciliar.
Clemente V tentou governar num equilíbrio impossível.
Bonifácio VIII tinha afirmado vigorosamente a independência do papado perante o rei.
Clemente V encontrou-se numa situação em que o papado já não conseguia exercer essa independência da mesma maneira.
E é por isso que o seu pontificado é tão importante.
Não é apenas a história de um Papa.
É a história de uma mudança na própria relação entre:
Igreja, Estado, poder, dinheiro, direito e consciência religiosa.
E a partir daqui entramos verdadeiramente no Papado de Avinhão.
Conclusão
Clemente V não pode ser reduzido à imagem simplista de “o Papa que destruiu os Templários” ou de “o Papa francês”.
Foi um homem colocado no centro de uma crise extraordinária.
Recebeu uma Igreja ainda marcada pela luta de Bonifácio VIII com Filipe IV. Encontrou Roma politicamente instável. Teve de lidar com uma monarquia francesa poderosíssima. Enfrentou a questão dos Templários. Convocou um concílio ecuménico. Reformou aspectos do Direito Canónico. E acabou por deixar a residência pontifícia fora de Roma.
O seu legado é controverso precisamente porque nele vemos a Igreja a tentar preservar a sua autoridade enquanto vive demasiado perto de um poder temporal extremamente forte.
E depois dele virá João XXII, o 196.º Papa da Igreja Católica, cujo longo pontificado em Avinhão nos levará ainda mais profundamente às questões de poder, riqueza da Igreja, pobreza evangélica, teologia e conflito político do século XIV.
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