"Venham comigo."

Não vos prometo chegar a nenhum lugar extraordinário.

Aliás, talvez a viagem nem seja sobre chegar.

Quero apenas retribuir-vos, à minha maneira, toda a atenção, toda a persistência, todas as vezes em que ficaram por aqui, entre uma palavra e outra, mesmo quando eu escrevi coisas que talvez fossem difíceis de compreender à primeira leitura.

Mas aviso-vos desde já: não vou retribuir da forma como talvez esperem.

Eu sou peregrina.

E um peregrino não caminha porque conhece a estrada inteira.

Caminha apesar de não a conhecer.

Talvez seja precisamente isso que fazemos todos os dias sem nos apercebermos: avançamos por uma vida cujo mapa nunca nos foi entregue.

Sabemos de onde partimos.

Imaginamos para onde queremos ir.

Mas ninguém nos explica o que encontraremos depois da próxima curva.

Há estradas que começam luminosas e acabam cobertas de nevoeiro.

Há outras que parecem não levar a lado nenhum e, inesperadamente, abrem diante de nós uma paisagem que jamais teríamos encontrado se o caminho tivesse sido fácil.

E depois existem aquelas curvas.

As curvas que aparecem sem aviso.

Sem iluminação.

Sem tempo para preparar o coração.

Um dia estamos a caminhar tranquilamente e, no seguinte, a vida muda a direcção.

Uma pessoa parte.

Uma certeza cai.

Uma relação termina.

Uma notícia chega.

Uma porta fecha-se.

E ficamos ali, durante algum tempo, com a estranha sensação de que alguém apagou as luzes precisamente quando mais precisávamos delas.

É aí que eu recorro à fé.

Não como quem acende uma lâmpada para ver imediatamente toda a estrada.

A fé não funciona assim.

É mais parecida com aquela pequena luz que nos permite dar o passo seguinte.

E, às vezes, um passo é tudo o que precisamos.

Não preciso de saber como vou atravessar toda a noite.

Preciso apenas de não parar diante da escuridão.

Foi assim que aprendi a caminhar.

Não com certezas absolutas.

Com confiança suficiente para continuar.

E pelo caminho encontrei pessoas.

Muitas.

Algumas foram abrigo.

Outras foram tempestade.

Algumas ensinaram-me o significado da amizade.

Outras ensinaram-me o valor da distância.

Houve quem me oferecesse afecto sem pedir nada em troca.

E houve quem me ensinasse, da maneira mais dolorosa, que nem todas as mãos estendidas vêm para nos levantar.

Mas todas deixaram alguma coisa.

Nem sempre aquilo que eu queria.

Nem sempre aquilo que eu precisava.

Mas alguma coisa.

Há pessoas que entram na nossa vida como respostas.

Outras entram como perguntas.

E algumas tornam-se lições que só conseguimos compreender muitos anos depois de terem ido embora.

Hoje já não tenho necessidade de transformar todas as pessoas que passaram por mim em personagens boas ou más.

A vida é demasiado complexa para essa contabilidade infantil.

Há pessoas que nos amaram e, ainda assim, nos magoaram.

Há pessoas que nos fizeram mal sem talvez compreenderem inteiramente o alcance do que fizeram.

Há pessoas que simplesmente não souberam ficar.

E há outras que ficaram quando seria muito mais fácil partir.

Aprendi a guardar cada uma no lugar que lhe pertence.

Sem lhes dar mais importância do que merecem.

Sem lhes retirar aquilo que, apesar de tudo, me ensinaram.

Porque uma coisa eu recuso-me a fazer:

permitir que uma experiência má me transforme numa pessoa má.

Isso seria entregar demasiado poder a quem me feriu.

Se alguém me tratou sem bondade, não quero que essa pessoa determine a quantidade de bondade que existirá em mim daqui para a frente.

Se alguém me decepcionou, não quero passar a vida a castigar pessoas que ainda nem chegaram por coisas que outras fizeram antes delas.

Se alguém abusou da minha confiança, aprenderei a escolher melhor.

Mas não deixarei de confiar.

Talvez com mais discernimento.

Talvez com mais vagar.

Talvez com algumas portas que agora sei fechar.

Mas não com o coração emparedado.

Porque existe uma diferença entre proteger o coração e aprisioná-lo.

E eu não quero passar o resto da vida a viver dentro de uma fortaleza construída com os destroços de coisas que me aconteceram.

Quero continuar disponível para o espanto.

Para a amizade.

Para o afecto.

Para as pessoas bonitas que ainda não conheci.

Quero continuar capaz de me comover.

De rir.

De ajudar.

De acreditar.

De dar.

Mesmo sabendo que dar implica sempre a possibilidade de não receber de volta.

Porque ser boa não significa ser ingénua.

E ter um coração generoso não significa não saber dizer basta.

Aprendi a dizer basta.

Aprendi que existem lugares onde não devemos permanecer só porque um dia fomos felizes ali.

Aprendi que perdoar não obriga ninguém a recuperar o lugar que perdeu.

Aprendi que compreender uma pessoa não significa necessariamente voltar a confiar nela.

E aprendi, sobretudo, que podemos afastar-nos sem odiar.

Isso também é liberdade.

Continuo, portanto.

Com algumas cicatrizes que já não escondo.

Com algumas perguntas para as quais ainda não tenho resposta.

Com pessoas que ficaram gravadas na memória e outras que o tempo foi, lentamente, desfazendo.

Com saudades de algumas coisas.

Com gratidão por outras.

E com a consciência tranquila de que nem tudo o que perdi era para ficar comigo.

Há coisas que só passam pela nossa vida para nos deslocarem ligeiramente do lugar onde estávamos.

E, às vezes, é precisamente esse pequeno desvio que nos conduz à pessoa que acabamos por ser.

Por isso, se vierem comigo, não procurem uma mulher que já descobriu tudo.

Não existe.

Encontrarão alguém que continua a aprender.

Que às vezes sabe exactamente para onde vai e outras vezes apenas sabe que não quer voltar para trás.

Encontrarão alguém que já percebeu que a vida não se mede apenas pelos destinos alcançados, mas também pela forma como atravessámos os lugares difíceis.

Porque chegar longe sem conservar a nossa humanidade não me parece uma vitória.

Prefiro chegar mais devagar.

Prefiro parar para ajudar alguém pelo caminho.

Prefiro sentar-me quando estou cansada.

Prefiro reconhecer que não sei.

Prefiro mudar de direcção quando percebo que me enganei.

Prefiro perder uma estrada a perder-me de mim.

E talvez seja essa a minha maior aprendizagem:

não preciso que a estrada seja segura para continuar a caminhar.

Preciso apenas de não deixar que o medo me convença de que ficar parada é viver.

Então venham.

Caminhem comigo.

Haverá dias de sol e dias em que não veremos absolutamente nada.

Haverá paisagens magníficas e haverá quilómetros que parecerão não terminar.

Haverá pessoas que caminharão connosco durante muito tempo e outras que apenas nos acompanharão até à próxima bifurcação.

Não faz mal.

Nem toda a companhia é destinada a chegar ao fim.

Algumas pessoas fazem parte do caminho.

Outras fazem parte da chegada.

E outras, talvez as mais importantes, ensinam-nos simplesmente a caminhar.

Eu sou peregrina.

Não tenho todas as respostas.

Tenho fé.

Tenho memória.

Tenho algumas feridas.

Tenho muitas histórias.

Tenho ainda capacidade para me surpreender.

E tenho uma coisa que a vida, apesar de tudo, ainda não conseguiu tirar-me:

a vontade de continuar a acreditar no bem.

Porque posso aprender prudência.

Posso aprender a afastar-me.

Posso aprender a reconhecer o perigo.

Posso aprender a não entregar o coração a qualquer pessoa.

Mas não quero aprender a ser cruel.

Não quero tornar-me indiferente.

Não quero que a escuridão de algumas curvas me faça esquecer que também existiram amanheceres.

E, se um dia a estrada ficar tão escura que eu já não consiga ver onde estou, espero lembrar-me disto:

não preciso de ver o fim do caminho.

Preciso apenas de confiar o suficiente para dar mais um passo.

E depois outro.

E depois outro.

Até que a luz volte.

Porque ela volta.

Nem sempre quando queremos.

Nem sempre pelo lugar que esperamos.

Mas volta.

E eu quero estar lá quando acontecer.

De coração inteiro.

Ainda capaz de amar.

Ainda capaz de acreditar.

Ainda capaz de dizer, apesar de tudo:

valeu a pena caminhar.

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