"As tempestades não testam as folhas"
Olha para uma árvore durante uma tempestade. Não para a árvore num daqueles dias tranquilos em que o sol atravessa a copa, as folhas parecem quase imóveis e tudo à sua volta transmite uma falsa sensação de permanência. Olha para ela quando o céu escurece. Quando o vento começa a levantar-se. Quando os ramos se vergam. Quando as folhas deixam de obedecer à forma habitual da copa e começam a ser arrancadas uma a uma. É nesse instante que percebemos uma coisa que os dias tranquilos conseguem esconder durante muito tempo: uma árvore não é sustentada por aquilo que vemos. A parte mais importante dela está debaixo da terra. Escondida. Silenciosa. Invisível. As raízes. E talvez exista aqui uma das metáforas mais antigas e mais exactas para compreender a própria condição humana. Também nós temos uma copa. Aquilo que o mundo vê. O sorriso que mostramos. A maneira como falamos. As fotografias que publicamos. As conquistas que contamos. A serenidade que aparentamos. A roupa que vestimos. A casa o...