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"As tempestades não testam as folhas"

Olha para uma árvore durante uma tempestade. Não para a árvore num daqueles dias tranquilos em que o sol atravessa a copa, as folhas parecem quase imóveis e tudo à sua volta transmite uma falsa sensação de permanência. Olha para ela quando o céu escurece. Quando o vento começa a levantar-se. Quando os ramos se vergam. Quando as folhas deixam de obedecer à forma habitual da copa e começam a ser arrancadas uma a uma. É nesse instante que percebemos uma coisa que os dias tranquilos conseguem esconder durante muito tempo: uma árvore não é sustentada por aquilo que vemos. A parte mais importante dela está debaixo da terra. Escondida. Silenciosa. Invisível. As raízes. E talvez exista aqui uma das metáforas mais antigas e mais exactas para compreender a própria condição humana. Também nós temos uma copa. Aquilo que o mundo vê. O sorriso que mostramos. A maneira como falamos. As fotografias que publicamos. As conquistas que contamos. A serenidade que aparentamos. A roupa que vestimos. A casa o...

"Guarda o teu coração"

Quem te decepciona raramente é alguém que vem de longe. As maiores decepções não costumam nascer da indiferença. Nascem da proximidade. Acontecem na amizade, na família, no amor, nos vínculos que pareciam suficientemente sólidos para sobreviver a quase tudo. Acontecem precisamente onde existia confiança, porque ninguém consegue realmente decepcionar-nos sem antes ter conquistado algum lugar dentro de nós. É preciso ter acesso para conseguir ferir profundamente. É preciso que alguém conheça alguma coisa de nós. Os nossos medos. As nossas histórias. As nossas fragilidades. As coisas que não contamos a qualquer pessoa. É preciso que exista confiança suficiente para baixarmos a guarda. E talvez seja por isso que certas feridas demoram tanto tempo a cicatrizar. Não foi qualquer pessoa. Foi alguém a quem abrimos a porta. Alguém que recebeu uma parte da nossa intimidade e que, por alguma razão, não soube tratá-la com o cuidado que merecia. E há uma particular crueldade na decepção que nasce d...

"Estou cansada"

Estou cansada de uma forma que não sei descrever. Não é aquele cansaço que se resolve com uma noite de sono, umas férias, um fim de semana sem obrigações ou uma manhã em que ninguém nos pede nada. É outro. É um cansaço que parece ter chegado a um lugar onde as palavras já não chegam. Não é o ruído constante da cabeça. Esse conheço-o há demasiado tempo. Aprendi cedo a viver com pensamentos que não fazem fila, com perguntas que chegam todas ao mesmo tempo, com aquela espécie de tumulto interior que, para quem olha de fora, nem sequer existe. Aprendi a funcionar dentro dele. O corpo também continua. Mesmo quando dói. Mesmo quando está cansado. Mesmo quando pede uma pausa que quase nunca lhe concedo. Continua. Levanta-se. Anda. Faz. Cuida. Responde. Sorri quando é preciso. Não é infelicidade. Essa seria, talvez, uma explicação demasiado simples. Sou amada. Sei que sou. Sou feliz. E não tenho qualquer necessidade de pertencer a todos os lugares, nem de ser escolhida por toda a gente. Há mui...

"As raízes não escolhem o solo"

Há raízes que nos deram água. E há raízes que, apesar de nos terem alimentado, também nos apertaram. Há árvores que crescem direitas porque encontraram desde cedo espaço, luz e terra suficiente para se expandirem. E há outras que crescem inclinadas, não porque lhes falte vontade de alcançar o céu, mas porque passaram anos a contornar pedras que ninguém via. Talvez sejamos um pouco assim. Crescemos a partir de um lugar que não escolhemos. A família é o nosso primeiro solo. É ali que chegamos ao mundo antes de possuirmos linguagem para o compreender. É ali que aprendemos, muito antes de sabermos nomeá-lo, se um abraço significa segurança ou se pode desaparecer a qualquer momento; se podemos falar ou devemos permanecer calados; se errar é uma oportunidade para aprender ou uma ameaça; se somos recebidos pelo que somos ou se precisamos de nos transformar para merecer amor. Antes de sabermos quem somos, alguém nos devolve uma imagem de nós. E passamos muitos anos a descobrir se essa imagem c...

"Alguns textos voltam à luz"

Depois de vários pedidos e de uma nova ponderação, decidi voltar a tornar visíveis alguns dos textos que, embora nunca tenham sido apagados do blogue, estavam, por assim dizer, escondidos — permaneciam publicados, mas fora da vista de quem por aqui passa. Começo por dois: o texto mais pedido, de 2014, e outro, de 2020 . Ambos continuam a fazer parte da história deste blogue; simplesmente estiveram algum tempo resguardados, longe da montra. Ainda vou rever e ponderar os restantes textos que me têm sido pedidos. Alguns poderão voltar a ver a luz do dia, outros talvez permaneçam onde estão. Há coisas que, com o passar dos anos, merecem ser relidas não apenas com os olhos de quem as escreveu, mas também com a distância de quem já não é exactamente a mesma pessoa. Por agora, estes dois regressam ao blogue. E confesso que há qualquer coisa de curioso em perceber que, tantos anos depois, ainda há quem procure determinados textos e queira voltar a encontrá-los. ________________________________...

"Querida... Amiga"

 Li o que escreveste com muita atenção. E talvez porque te conheço, algumas das tuas palavras ficaram comigo mais tempo do que outras. A frase que mais me tocou foi precisamente essa: “eu construí isso.” Porque existe uma solidão que nos acontece e existe outra que, pouco a pouco, vamos construindo à nossa volta. Não necessariamente porque queremos ficar sozinhos, mas porque, em determinados momentos da vida, estar com os outros se torna demasiado difícil, demasiado exigente ou simplesmente demasiado doloroso. Às vezes afastamo-nos para nos protegermos. Primeiro deixamos de sair. Depois deixamos de procurar. Deixamos de responder. Deixamos de contar o que nos acontece. Começamos a habituar-nos ao silêncio. E, quando damos por nós, aquilo que começou como uma defesa tornou-se uma espécie de casa. Uma casa estranha, talvez, mas uma casa conhecida. E o conhecido, mesmo quando dói, pode tornar-se assustadoramente confortável. Eu compreendo isso talvez mais do que gostaria. Também houve...

"Há coisas que não estão no texto. Estão apenas nos olhos de quem o lê."

Por vezes é difícil fazer alguém compreender uma coisa muito simples: aquilo que procuras não está neste espaço. Nunca esteve. E talvez a dificuldade não esteja naquilo que escrevi, mas naquilo que decidiste procurar antes de começar a ler. Eu escrevo. Escrevo sobre carácter, sobre pessoas, sobre vivências, sobre aquilo que observo, sobre aquilo que aprendi, sobre aquilo que me atravessou e sobre aquilo que, em determinados momentos, precisei de compreender dentro de mim. Escrevo pensamentos. Escrevo perguntas. Escrevo sentimentos. Escrevo aquilo que a vida me ensinou quando deixou de ser teoria e passou a ser experiência. Mas aquilo que vivi não é uma história inventada. Foi real. Foi duro. Foi doloroso. Teve consequências. Teve silêncios que ninguém ouviu, pensamentos que nunca foram publicados e experiências que não precisam de ser explicadas para serem verdadeiras. E existe uma diferença enorme entre escrever sobre aquilo que se viveu e escrever para contar uma história sobre algué...