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"Entre a tensão e o tesão"

  U ma breve meditação linguística sobre o corpo, a palavra e o tempo Confesso: há títulos que nos capturam antes mesmo de compreendermos porquê. Não pela superficialidade do impacto imediato, mas pela inquietação silenciosa que deixam a ecoar no pensamento. Foi precisamente isso que me aconteceu ao deparar-me com uma manchete aparentemente trivial, mas linguisticamente provocadora: a associação entre um gesto doméstico banal e uma palavra carregada de história, ambiguidade e, sobretudo, transformação semântica. E foi nesse instante — entre o sorriso e a reflexão — que a minha curiosidade se instalou. Porque há palavras que não são apenas palavras: são trajectos. São camadas de tempo, de cultura, de moralidade e de uso. “Tesão” é uma delas. Trata-se, desde logo, de um termo que, em muitos contextos, permanece envolto numa certa reserva social. Classificado como tabuísmo, é frequentemente evitado em discursos formais ou familiares, como se a própria palavra carregasse um excesso ...

"Amor...Alma"

 Há uma distinção subtil — e, ainda assim, profundamente determinante — que muitas pessoas insistem em ignorar: a diferença entre proximidade e conexão. À primeira vista, podem parecer sinónimos. Na prática, são realidades radicalmente distintas. Dois corpos encontram-se. Há toque, há beijo, há desejo, há até gestos de ternura que, superficialmente, simulam intimidade. E, no entanto, algo permanece inalterado no interior — um vazio silencioso, difícil de nomear, mas impossível de ignorar. Porquê? Porque a verdadeira intimidade não se constrói apenas no corpo. O toque, por si só, não é linguagem suficiente. Pode despertar, pode envolver, pode até iludir — mas não garante presença emocional, não assegura ligação, não sustenta permanência. A intimidade real nasce noutro lugar. Num espaço mais exigente, mais vulnerável, mais raro. Surge quando alguém atravessa as camadas que habitualmente protegemos do mundo — as defesas, os medos, as contradições, as fragilidades — e, perante essa...

"Tendência"

 Há uma verdade incómoda que, por vezes, evitamos encarar: aquilo que não nos faz bem pode, silenciosamente, já estar a fazer-nos mal — e, ainda assim, escolhemos não ver. Não por ignorância, mas por resistência. Porque reconhecer implica agir, e agir implica, muitas vezes, perder, afastar, reconfigurar aquilo que nos é familiar. Existe uma tendência humana para justificar o que nos desgasta. Para relativizar comportamentos, para minimizar sinais, para encontrar explicações onde, na realidade, existem padrões. E, nesse processo, vamos tolerando o intolerável, normalizando o que nos diminui, aceitando o que nos fragmenta. Mas há relações que não acrescentam — consomem. Que não elevam — atrasam. Que não cuidam — corroem. E a sua presença, ainda que subtil, infiltra-se na nossa vida de forma progressiva, afetando a forma como pensamos, sentimos e nos posicionamos. Por mais difícil que seja admitir, há pessoas cujo impacto na nossa vida é desproporcionalmente negativo. Pessoas que o...

"Genuína"

 Vivemos num tempo que se proclama aberto à diferença, mas que, na prática, revela uma inquietante dificuldade em lidar com a autenticidade genuína. A diversidade tornou-se, em muitos contextos, um conceito decorativo — aceite enquanto ideia, mas frequentemente rejeitado quando se manifesta de forma real, concreta e incómoda. Há uma pressão subtil, quase invisível, para que todos se ajustem a um modelo de funcionamento social que privilegia o ruído, a exposição constante e a validação externa. E este condicionamento começa cedo. Demasiado cedo. Na infância, onde deveria existir espaço para a descoberta e para a expressão natural do ser, instala-se, muitas vezes, uma lógica de correção. A criança que não se adapta ao padrão dominante — que não gosta de barulho, que evita multidões, que observa mais do que intervém, que revela uma inteligência silenciosa e introspectiva — é rapidamente interpretada como um problema a resolver. Rotula-se. Classifica-se. Nomeia-se. Porque é mais fá...

"Não tenho medo"

 Hoje volto a partilhar este texto, escrito no início de 2024. Tal como já referi, decidi recuperar e republicar aquilo que, por um período, optei por retirar. Faço-o por uma razão simples: porque quero, porque posso, porque me apetece. Não há intimidação que me mova nem ameaça que me silencie. Não tenho receio da verdade — sobretudo da minha. ______________________________________________ Há um certo desespero — quase revelador — em tentar incutir culpa em quem já não vive para a validação alheia. É um esforço estéril, uma tentativa de manipulação que falha à partida, porque só se sente culpado quem reconhece legitimidade em quem acusa. E eu deixei de reconhecer essa legitimidade há muito tempo. A verdade, tantas vezes invocada como bandeira, não é um instrumento de conveniência. Não se molda à narrativa que mais convém. Existe, sim, num espaço intermédio entre versões — mas não valida a mentira, nem legitima a distorção. Eu vivi a minha história. E aquilo que afirmo não nasce...

"Castigo"

 O pior castigo não se veste de tribunal, não se anuncia com sentenças, nem se cumpre perante olhares alheios. O pior castigo mora dentro de nós. É a consciência — silenciosa, inflexível, implacável. Ela não perdoa, não cansa, não admite distrações. A memória, fiel guardiã, retorna sempre. Ora de forma discreta, sussurrando entre os gestos do quotidiano, ora como um murro que nos deixa sem fôlego, golpeando o estômago e arrepiando a espinha. O mundo insiste em ensinar-nos a temer o externo: a vergonha, o julgamento, a humilhação, a perda de prestígio ou afeto. Mas esse temor pesa menos do que o inferno que carregamos dentro: aquele que nos aprisiona, onde conhecemos a verdade de nós mesmos, onde sentimos o peso do que poderíamos ter sido, mas falhámos. Onde percebemos, crua e silenciosamente, que desperdiçámos o que não volta, que escolhemos mal quando não podíamos errar, que ferimos quando devíamos ter cuidado. Sei. Sei os caminhos errados que tomei, as palavras que deixei de di...

"O Despertar Invisível"

Sentes-me antes mesmo de me leres. Palavras que deslizam silenciosas, lentas, insistentes, Percorrendo cada recanto da tua mente, Tocando lugares que julgavas adormecidos. Cada sílaba é um dedo que não vês, Cada estrofe, lábios invisíveis que percorrem a espinha, Provocando arrepios antes de perceberes. A poesia não se lê — entrega-se. Não se contempla — respira-se, arrepia-se, dissolve-se. Cada palavra é pele, cada rima é língua, Cada pausa, promessa de toque que nunca viste. O ritmo pulsa como coração ofegante, A cadência das frases imita a tua respiração, Suspensão, tensão, antecipação… O corpo mental reage primeiro, mas o físico segue, inevitável. Sentes o calor subir lentamente, O sangue aquece, a mente imagina, o corpo responde, Cada metáfora é toque, cada linha é lábio, Cada estrofe é onda que sobe e desce, que arrasta. Fecho os olhos e sinto-te percorrer-me, Cada pensamento transforma-se em carícia, Cada memória desperta desejo, Cada arrepio cresce, persist...

"Aprendi..."

 Uma vez li uma frase que nunca esqueci: nem sempre precisamos de contar o nosso lado da história; o tempo conta. E, de facto, o tempo possui esse dom silencioso e inevitável: revelar cada detalhe, cada ferida, cada conquista… no seu próprio ritmo, com a paciência de quem sabe esperar pela perfeição do instante. Aprendi que a verdade não se impõe nem se apressa. Ela não se faz ouvir com gritos nem se defende com urgência. Surge, subtil, paciente, como uma flor que desabrocha sem pressa, como uma luz que rompe a escuridão apenas quando chega o seu momento. Nem toda a verdade precisa de ser proclamada; algumas fortalecem-se no silêncio, amadurecem no peito, florescem nos gestos e nos olhares, muito além das palavras que tentamos usar para a conter. A minha mãe dizia sempre que o tempo é o jardineiro mais paciente que existe. Não apressa as sementes, não força a floração. Observa, cuida, rega com constância e deixa que a vida se manifeste no instante certo. Aprendi, com a sabedoria ...

"Enfim, Porque Me Apetece — Um Regresso Estratégico"

  Enfim posso recolocar os textos retirados deste meu espaço — e faço-o apenas porque me apetece. Sim, só porque me apetece. Sem ordens, sem pressões, sem necessidade de explicar-me: o blog é meu e a liberdade também . Há quem diga que paciência é uma virtude; eu digo que autonomia é um luxo, e este é o meu momento para exercê-lo com toda a irreverência que me apetece. Começo com este. Porquê? Porque me apetece, naturalmente. Porque não existe cronómetro que me obrigue a justificar timing, prioridade ou relevância emocional. Porque o prazer de decidir, de escrever e de partilhar é todo meu, e posso saboreá-lo sem culpa, ironia ou remorso alheio. E, já que estamos em terreno de vontades, coloco um perfil — só porque quero. Sem necessidade de pedir licença, sem procurar aprovação, sem vestígios de ego inflado. É um gesto deliberado de liberdade: escrevo, partilho e decido pelo simples prazer de poder fazê-lo , e isso basta. É engraçado como, por vezes, a ironia da vida se resume ...

"Simples assim ..."

 Tu dizes que eu sou além das palavras… e é nesse lugar — onde a linguagem falha — que eu existo. Sou mulher. Uma mulher que carrega dentro de si a força e a virtude de mil outras, e ainda mais do que isso — não como exagero poético, mas como essência que se manifesta em cada gesto, em cada presença, em cada silêncio que também fala. Sou uma tapeçaria viva. Em mim entrelaçam-se a inocência de menina e um cuidado que não conhece limites. Sou delicadeza e vigilância, leveza e profundidade, numa harmonia que não se explica — sente-se. Encarnam em mim sentimentos que não se medem. Uma ternura vasta, capaz de tocar até os corações mais partidos. Um amor tão profundo que não apenas existe — transforma, eleva, recria o mundo por onde passo. Não uso apenas perfume — eu respiro presença. E nessa presença, algo floresce. Como rosas na primavera, há em mim um desabrochar sereno que não pede atenção, mas inevitavelmente a atrai. Sou calma no meio do caos. Sou refúgio — não como abrigo passagei...