Mensagens

"Livre"

 Tudo o que amo, deixo livre. Que isto não seja lido como renúncia, mas como princípio. Não é afastamento — é elevação. Amar, para mim, tornou-se um acto de soberania interior: não prendo, não retenho, não reduzo. Sustento sem possuir. Acompanho sem invadir. Confio sem vigiar. Não me pertence o tempo de ninguém. Não me pertencem os caminhos, nem os desvios, nem as estações íntimas que cada ser humano precisa de atravessar. Amar não é delimitar território; é partilhar horizonte. E horizonte não se fecha — expande-se. Há uma forma menor de amor que nasce da insegurança. Essa forma exige garantias, contabiliza presenças, mede silêncios. Confunde proximidade com controlo e intensidade com domínio. Mas o amor que necessita de clausura para sobreviver já está fragilizado na sua origem. O que é autêntico não implora grades. O amor verdadeiro tem estrutura interna. Não depende de fiscalização emocional. Não se sustenta na ansiedade da perda. Vive da escolha renovada, da consciência lúcida,...

"Estudo"

As Sete Igrejas do Apocalipse (Capítulos 2–3) Depois da visão inaugural de Cristo glorificado, o texto torna-se surpreendentemente concreto. A revelação dirige-se a comunidades reais, com problemas reais. Antes de falar do fim do mundo, Deus fala da conversão presente da Igreja . Isto é fundamental: o Apocalipse não começa por julgar a História — começa por julgar o coração dos crentes. Quem fala é sempre Jesus Cristo , apresentado como Senhor que conhece profundamente cada comunidade: “Eu conheço as tuas obras.” Na teologia bíblica, este “conhecer” não é informação — é olhar que penetra a verdade da pessoa. Cada carta segue a mesma estrutura: Cristo revela-Se com um atributo da visão do capítulo 1. Reconhece o bem existente. Denuncia o desvio. Chama à conversão. Promete uma recompensa escatológica. É uma pedagogia espiritual: Deus corrige para salvar, não para condenar. A Igreja de Éfeso — A fé sem amor É uma comunidade exemplar na doutrina: combate...

"Apocalipse... Estudo"

O Prólogo e a Visão Inicial do Apocalipse (Capítulo 1) O primeiro capítulo do Apocalipse não é, antes de mais, um anúncio de catástrofes, como muitas leituras modernas sugerem. É, essencialmente, uma revelação de Cristo glorificado e uma introdução teológica ao sentido da História à luz de Deus. A palavra “apocalipse” (do grego apokálypsis ) significa desvelamento , retirar o véu. Não é um livro de medo — é um livro de esperança escatológica. A Origem da Revelação (Ap 1,1-3) O texto começa com uma cadeia de transmissão muito clara: Deus → Jesus Cristo → Anjo → João → Igreja Aqui encontramos o princípio fundamental da teologia da revelação: Deus permanece a fonte, Cristo é o mediador e a Igreja é a destinatária. O autor identifica-se como João de Patmos , não tanto como escritor, mas como testemunha . Ele não reivindica autoria intelectual; ele transmite o que viu. Esta estrutura mostra que: A história não é caótica. A revelação não nasce da imaginação humana. A I...

"Missa"

 Hoje, ao abrir o Messenger e ao percorrer as mensagens que me haviam sido enviadas, deparei-me com algumas observações que me feriram — não pela discordância, que é legítima e até saudável, mas pela forma apressada, desinformada e, permitam-me a franqueza, ignorante como foram formuladas. Peço desculpa pela dureza do termo, mas não encontro outro que exprima, com rigor, aquilo que senti ao ler palavras escritas sem conhecimento daquilo que se julgava criticar. Se eu sou católica, falo da fé que abracei. Comento aquilo que escolhi viver. Não me compete pronunciar-me sobre religiões que desconheço, pois fazê-lo seria, precisamente, cair na tal ignorância que tanto lamento. Mesmo dentro da minha própria Igreja, caminho com prudência e humildade: sou católica há pouco tempo. Estou a aprender. Estou a escutar. Estou a deixar-me formar. Ainda assim, sinto-me no dever de responder — não individualmente, não expondo nomes, mas diante de todos — porque a fé, quando é vivida com verdade, n...

"Inteiramente"

 Sabes quando é que a tua vida começa verdadeiramente a transformar-se? Quando desenvolves a capacidade de ser odiado — ou, pelo menos, desaprovado — sem te perderes de ti mesmo. É um ponto de viragem silencioso, quase invisível aos outros, mas estrutural dentro de ti. Durante anos procuras aceitação. Ajustas o discurso para não desagradar, moderas opiniões para evitar confronto, suavizas limites para não pareceres “difícil”. Aprendes a ler o ambiente antes de falares. Tornas-te especialista em agradar. E, sem dares conta, começas a diluir-te. A necessidade constante de aprovação é subtilmente erosiva. Não te destrói de uma vez — desgasta-te aos poucos. Cada vez que silencias uma convicção para evitar crítica, cada vez que moldas o comportamento para corresponder às expectativas alheias, afastas-te ligeiramente do teu centro. E viver longe do próprio centro é uma forma discreta de exaustão. A maturidade começa quando compreendes uma verdade incontornável: é impossível ser unânime. ...

"Não permitas"

 Nunca permitas que ninguém te faça esquecer quem és. Há momentos na vida em que as vozes exteriores se tornam tão insistentes que quase abafam a tua própria. Opiniões, expectativas, julgamentos, conselhos não solicitados — tudo parece querer moldar-te, ajustar-te, enquadrar-te numa forma mais cómoda para os outros. Aos poucos, se não estiveres atento, começas a hesitar diante daquilo que sabes ser verdadeiro em ti. Mas a tua identidade não é matéria maleável ao gosto alheio. É construção íntima. É percurso. É consciência. És feito de histórias que ninguém viveu como tu, de cicatrizes que carregam aprendizagem, de sonhos que nasceram no silêncio do teu próprio coração. Cada fragmento teu foi esculpido por escolhas, quedas, recomeços, afectos, perdas e superações. Nada em ti é acidental. Nada é descartável. Permitir que alguém te apague é trair essa construção. A vida é, por natureza, um campo de influências. Haverá sempre quem tente indicar-te o caminho “certo”, definir o que dever...

"Leve"

 Tenho um apreço quase visceral pelo que é simples. Não pela simplicidade ingénua que ignora a complexidade do mundo, mas por aquela que nasce depois de a complexidade ter sido compreendida. A simplicidade que permanece após o excesso ter sido descartado. Como escreveu Leonardo da Vinci , “A simplicidade é o último grau de sofisticação.” E talvez seja isso que procuro: não o rudimentar, mas o depurado. Vivemos numa era em que a aparência ganhou estatuto de substância. Contudo, continuo a admirar quem não precisa de se ampliar para ser visto. Há uma grandeza silenciosa em quem é exactamente o que é. Sócrates lembrava que “a vida não examinada não merece ser vivida.” Eu diria que a vida exagerada para impressionar também não merece ser representada. A autenticidade é mais rara do que o talento; mais valiosa do que o aplauso. Gosto de quem sente sem cálculo. Num mundo onde até os afectos podem ser estratégicos, encontrar alguém que torce genuinamente pelo bem do outro é quase um ...

"É isto..."

 Ao longo da vida acumulamos encontros como quem atravessa estações sucessivas. Rostos, nomes, conversas, promessas — alguns ficam apenas como vestígios na memória; outros cumprem um papel preciso, quase funcional, e seguem o seu percurso. A maioria pertence ao tempo. Poucos pertencem à permanência. Há pessoas que entram por acaso, como coincidências que a vida ensaia. Outras surgem por necessidade, quando somos ainda incapazes de atravessar sozinhos determinados territórios. Mas existem aquelas — raras e silenciosamente decisivas — que permanecem por escolha consciente. E permanecer, no mundo de hoje, é talvez o gesto mais revolucionário. Essas pessoas não se prendem à estabilidade das circunstâncias. Caminham connosco quando o trajecto se redefine, quando o ritmo abranda, quando as certezas que julgávamos estruturais se revelam provisórias. Não se aproximam apenas da luz; ficam quando atravessamos sombra. E isso não é romantismo — é maturidade afectiva. A verdadeira presença n...

"Continuo a escrever"

 Boa noite. Escrevo estas palavras com a mesma intenção com que, há anos, seguro uma caneta: não para ocupar espaço, mas para lhe dar sentido. Continuo a escrever. Nunca deixei de o fazer. Apenas respeito um ritual que para mim não é detalhe, mas essência. Antes de qualquer palavra surgir neste espaço digital, ela nasce no papel. Precisa do silêncio da folha, do peso da tinta, da pausa entre uma frase e outra. Escrevo primeiro com o corpo — com a mão que sente, com o pensamento que amadurece, com a emoção que encontra forma antes de procurar público. A paixão pelo papel não é nostalgia; é método interior. É ali que penso com mais profundidade, que erro com mais liberdade, que sinto sem a pressão da publicação imediata. O papel obriga-me a demorar. E, numa época em que tudo é instantâneo, demorar tornou-se um acto quase subversivo. Tenho estado bastante ocupada. A vida exige presença, e nem sempre o tempo se organiza com a generosidade que desejaríamos. Por isso, a passagem dos ...

"Pressa"

 Há uma pressa silenciosa que atravessa muitas vidas: a pressa de explicar, de justificar, de ser compreendida antes que o tempo faça perguntas. Quem vive assim gasta uma energia imensa a tentar alinhar o mundo à sua volta, como se a verdade precisasse de ser empurrada para existir. Mas a sabedoria começa quando essa urgência se dissolve. Agir com consciência é perceber que o tempo não responde à ansiedade — responde à coerência. O tempo observa, acumula, decanta. Revela o que é autêntico, expõe o que é fingido, ajusta o que estava fora do lugar. Não por vingança, nem por justiça poética, mas por natureza. Não há nada a convencer. Nem pessoas, nem circunstâncias, nem narrativas. A tentativa de convencer nasce quase sempre do medo de perder controlo sobre a forma como somos vistos. E, paradoxalmente, quanto mais se explica, mais se fragiliza aquilo que era sólido. O silêncio, ao contrário do que se pensa, não é ausência de voz — é escolha. É um gesto de maturidade. Preserva ...