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"25 de Dezembro"

   Oração no silêncio do meu coração Senhor, hoje, no dia em que celebramos o Teu nascimento, eu paro — por dentro — e falo-Te como quem fala a quem ama. Nos dias difíceis, quando o mundo pesa e as palavras falham, venho a Ti em busca de força, de alento e de paz. Quando o fardo parecer pesado demais para os meus ombros, lembra-me, Senhor, que não caminho sozinha, que a Tua mão sustém a minha e que mesmo no silêncio Tu permaneces ao meu lado. Concede-me sabedoria para aceitar com serenidade aquilo que não posso mudar, coragem para transformar o que depende de mim e discernimento para compreender a diferença. Dá-me paciência para esperar o Teu tempo — esse tempo que não é o meu, mas que é perfeito — e ensina-me a confiar mesmo quando não entendo. Aumenta em mim a fé, essa fé simples e profunda que me faz acreditar que dias melhores virão, que nada é em vão e que toda dor atravessada Contigo se converte em crescimento e luz. Que eu jamais perca a esperança, ainda que a noite...

"É véspera de Natal"

Há qualquer coisa de sagrado no ar, como se o mundo respirasse devagar para não acordar o Menino que está para nascer. A vida inteira parece ficar suspensa por um instante: as luzes piscam, mas aquilo que ilumina de verdade é interior. É hoje — o umbral do mistério . Hoje a história inclina-se sobre uma manjedoura e chama-lhe casa. Jesus Cristo está para nascer. E não nasce onde dava jeito. Nasce onde há pouca coisa, onde há frio, improviso, cansaço e silêncio. Nasce no lugar onde a vida acontece de verdade . É curioso: Deus podia ter escolhido o palco, mas escolheu os bastidores. Podia ter vindo com coroas, permaneceu com panos simples. Podia ter imposto, escolheu ser acolhido . E isso muda tudo: o Omnipotente vem pequenino, totalmente dependente de braços humanos. É a força no absoluto despojamento. Hoje não celebramos um enfeite. Celebramos uma revolução sem gritos . O Natal não começa nos centros comerciais — começa no coração que finalmente se rende. Começa quando deixamos...

"Grata por tudo"

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 Hoje é 24 de dezembro e só agora consegui sentar-me, descansar um pouco e escrever. Não foi apenas trabalho — foi partilha, foi presença, foi coração em movimento. Ao longo do dia, muitos amigos quiseram estar um pouco comigo. Uns estiveram perto fisicamente, outros ligaram, outros enviaram mensagens. Todos, de alguma forma, perguntaram se eu precisava de alguma coisa, se eu estava bem, se eu precisava de companhia. E eu sorrio, porque é bonito sentir esse cuidado silencioso que não se pede e, ainda assim, chega. E do blog… chegaram-me emails. Muitos emails.  Foram tantos que ainda me comovo só de pensar. Pessoas que nunca vi ao vivo, mas que me leram, que se reconheceram nas minhas palavras e decidiram escrever-me para desejar boas festas, oferecer apoio, enviar carinho ou simplesmente dizer “estou aqui”. Peço desculpa por demorar a responder — ainda há muitos por abrir com calma — mas vou responder a todos. Um por um. Como merece quem se deu ao trabalho de me escrever. ...

"Incrível"

 Há um momento muito específico na vida adulta em que deixamos de acreditar que as séries de humor exageram. É um instante subtil, quase imperceptível, em que o cérebro abandona a incredulidade e aceita, com um suspiro cansado, que a realidade não só alcançou a ficção como a ultrapassou em velocidade terminal. Esse momento aconteceu-me durante um almoço. Um almoço perfeitamente normal. Casais sentados. Conversa educada. Talheres a cumprir a sua função. Nada fazia prever que, em breve, estaríamos todos a assistir à apresentação informal de um sistema conjugal parametrizado , desenhado por duas mentes que claramente nunca confiaram no acaso. Conheci então o casal. Ele, físico. Ela, biofísica. Isto não é um detalhe biográfico — é uma advertência. Pessoas assim não “vivem juntas”. Co-habitam em regime experimental . O amor, para eles, não é uma emoção. É uma variável dependente. A conversa evoluía de forma relativamente estável até que, talvez movidos por um excesso de transparência...

"O humor"

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 Existem pessoas peculiares. E depois existem aquelas tão extraordinariamente peculiares que o cérebro, num acto de legítima autodefesa cognitiva, desiste de as classificar como humanas e recorre imediatamente ao arquivo zoológico interno. Não é crueldade — é eficiência mental. A comparação surge sozinha, limpa, inequívoca. Olhamos, ouvimos… e pronto. Ah. Já sei. Hoje conheci uma dessas pessoas. O reconhecimento foi instantâneo. Bastou abrir a boca. O tom, a cadência, a convicção absoluta de que cada som produzido era, por si só, um contributo relevante para o universo. Fez-me lembrar a perua da fazenda. Não metaforicamente. Literalmente. A perua era uma criatura fascinante. Falava muito — ou melhor, vocalizava com entusiasmo — sem que isso tivesse qualquer impacto positivo no ambiente. Nunca pareceu duvidar de nada, muito menos de si própria. E tinha uma característica marcante: sempre que chovia, ficava imóvel, de pescoço esticado, a olhar para o céu, como se aguardasse ilumin...

"Perua"

 Existem pessoas peculiares. Não “peculiares” no sentido romântico, charmoso ou ligeiramente excêntrico que a sociedade gosta de romantizar quando convém, mas peculiares no sentido quase etológico — indivíduos cuja simples presença desperta em nós uma memória ancestral, primitiva, profundamente animal. Não por maldade, note-se. É um reflexo. Um curto-circuito cognitivo. Olhamos para a pessoa, ela abre a boca… e o cérebro, educado mas honesto, responde: isto lembra-me qualquer coisa . Hoje conheci uma dessas pessoas. O reconhecimento foi imediato, quase científico. Não houve espaço para reflexão, nem para culpa. Foi como reconhecer um cheiro ou um som: automático, inevitável, profundamente esclarecedor. Aquela pessoa fez-me lembrar a perua que temos na fazenda. Agora, convém esclarecer: não se trata de uma metáfora leviana. A perua em questão era, ela própria, uma criatura singular. Não no sentido majestoso — isso seria atribuir-lhe uma dignidade que nunca reclamou — mas numa pec...

"Época"

 Vivemos numa época extraordinária. Extraordinária no sentido etimológico do termo: fora do ordinário, fora do razoável, fora de qualquer noção minimamente aceitável de bom senso. Uma época em que toda a gente tem opinião, quase ninguém tem informação, e absolutamente ninguém tem dúvidas — o que é, convenhamos, o verdadeiro milagre dos tempos modernos. Antigamente, para se ser ignorante era preciso esforço; hoje basta ter ligação à internet e uma convicção inflamável. O cidadão contemporâneo, esse titã do pensamento instantâneo, acorda todas as manhãs com a nobre missão de “ter uma opinião sobre tudo”. Não importa o quê: geopolítica do Cáucaso, neurocirurgia pediátrica, alterações climáticas ou a vida privada de um actor que nunca pediu para existir. O importante não é compreender — isso seria excessivamente trabalhoso — mas posicionar-se . Posicionar-se é fácil, rápido e, sobretudo, isento de responsabilidade intelectual. A dúvida, essa antiga ferramenta do pensamento, foi entre...